7 de julho de 2017

Tauató-pintado (Accipiter poliogaster): raro ou discreto?

O tauató-pintado é um dos rapinantes mais enigmáticos do Brasil. Na imagem, fêmea adulta encontrada na borda de um plantio de Eucaliptus. Nova Trento/SC. Foto: Willian Menq. 

O tauató-pintado (Accipiter poliogaster) é um dos gaviões mais enigmáticos e “cobiçados” entre os apaixonados por aves de rapina. De ampla distribuição, ocorre em toda a América do Sul, incluindo grande parte do Brasil.

Porém, é extremamente difícil registrá-lo na natureza, mesmo em áreas com ocorrência conhecida ou com registros recentes, o encontro com a espécie é incerto. Por isso, é frequentemente apelidado pelos ornitólogos e birdwatchers de “gavião fantasma”.

Apesar da ampla distribuição geográfica, os registros de A. poliogaster são pontuais e escassos, o que poderia ser interpretado como uma raridade natural ou, ainda, por se tratar de uma espécie de difícil detecção em amostragens de campo. No Wikiaves por exemplo, até a presente data (7 de julho de 2017), apenas 50 municípios brasileiros possuem registros de A. poliogaster, sendo a maioria (60%) obtidos nos Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Na região amazônica, somente 8 municípios apresentam registros da espécie no site, informações que demonstra o baixo número de contatos com a espécie entre os observadores de aves.

Pouco sabemos sobre sua biologia e comportamento. Analisando os dados disponíveis na literatura e nos bancos de dados online, o A. poliogaster parece ter uma razoável plasticidade quanto ao uso de habitat, com ocorrência documentada desde em florestas primárias, borda de mata, matas ciliares, até áreas mais degradadas. No Estado de Santa Catarina, já tive oportunidade de registrar o A. poliogaster tanto em áreas razoavelmente preservadas de Matas-de-Araucária até em locais bem alterados, incluindo plantios de Eucaliptus e Pinus. Supõe-se que a espécie ocorra em todas as áreas florestadas do sul e sudeste do Brasil, região amazônica e nos encraves florestais da região centro-oeste. Em relação a dieta, alimenta-se principalmente de aves, gosta de caçar rolinhas (Columbina, Zenaida), juritis (Leptotila) e alguns tinamídeos (Crypturellus).

Fêmea adulta registrada no interior de uma Mata-de-Araucária, Irineópolis/SC. Foto: Willian Menq.
Ao que tudo indica, a dificuldade de encontra-lo na natureza está associada ao seu comportamento inconspícuo. É um gavião discreto, raramente plana ou sobrevoa a floresta, e quando resolve voar acima da mata ou cruzar entre remanescentes florestais é rápido. Além disso, o A. poliogaster possui um temperamento arisco e desconfiado, indivíduos adultos dificilmente permitem a aproximação humana, e ao perceber a aproximação de uma pessoa evade-se rapidamente por entre a ramagem. Dessa forma, a maioria dos contatos visuais são curta duração, que dificulta a localização ou mesmo a identificação precisa da espécie.

Além do comportamento discreto e arredio, o A. poliogaster possui diferentes plumagens que pode gerar confusões nas identificações. O macho adulto pode ser confundido com o subadulto de A. bicolor (gavião-bombachinha-grande). A fêmea adulta pode ser confundida com o jovem A. bicolor bicolor, subespécie da região amazônica que possui o ventre branco e o dorso escuro muito similar a ela. Adultos também são parecidos com o Micrastur mirandollei (falcão-tanatau), inclusive há um artigo sobre a nidificação de A. poliogaster que foi erroneamente identificado como sendo M. mirandollei (ver Thorstrom 2002). Já os jovens de A. poliogaster possuem plumagem que imita a do Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho). Devido a essa plumagem diferente dos jovens, até poucas décadas atrás acreditava-se que o jovem era uma espécie à parte, erroneamente descrita como Accipiter pectoralis.

Por essas razões, comportamento e dificuldade de identificação, acredito que o A. poliogaster seja mais subamostrado do que raro. Essa ave é mais facilmente detectável no período reprodutivo, quando vocaliza com maior frequência. Também costuma vocalizar e dar voos rasantes contra qualquer intruso que se aproxima da área do ninho.

Possível distribuição geográfica do tauató-pintado (Accipiter poliogaster) na região neotropical.


Veja também:


Bibliografia relacionada:

Boesing, A. L., W. Menq & L. Anjos (2012) First description of the reproductive biology of the Grey-bellied Hawk (Accipiter poliogaster). The Wilson Journal of Ornithology 124 (4): 767–774.

Kaminski, N.; Tres, D.R. (2011) Primeiro registro documentado do Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) para o Estado de Santa Catarina, Brasil Nuestras Aves, 56:31-33.

Lanzer, M., M. A. Villegas, & M. Aurelio-Silva. (2009) Primeiro registro documentado de Accipiter poliogaster (Temminck, 1824) no estado do Parana, sul do Brasil (Falconiformes: Accipitridae). Revista Brasileira de Ornitologia 17:137-138.

Melnyk, K., Gelis, R. A., Hopkins, W. A., Vaca, F. & Moore, I. T. (2013) Gray-bellied Hawk (Accipiter poliogaster) Observed Feeding on a Tinamou in Yasuni Biosphere Reserve, Ecuador. J. Raptor Res. 47(3):330–332.

Menq, W. (2016) Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/accipiter_poliogaster.htm > Acesso em: 7 de Julho de 2017

Thorstrom, R. (2002) Comments on the first nesting record of the nest of a Slaty-backed Forest-falcon (Micrastur mirandollei) in the Ecuadorian Amazon. Journal of Raptor Research 36:335-336.