4 de outubro de 2017

Os sovis-do-norte (Ictinia mississippiensis) já estão aparecendo no Brasil

Hoje pela manhã, 04/10/2017, os observadores de aves Fabyano Costa e Wagner Freitas registraram um bando de sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis), com aproximadamente 20 indivíduos, sobrevoando a área rural de Terenos/MS, município vizinho a Campo Grande. É o primeiro registro da espécie em território brasileiro para a temporada de 2017/2018.

Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) registrado no dia 04/10/2017 em Terenos/MS. Foto: Fabyano Costa.


Essa espécie tem como destino final o norte da Argentina, Paraguai e o pantanal brasileiro, provavelmente o bando registrado pelos observadores estavam de passagem pela região. Não é a primeira vez que os sovis-do-norte são avistados na região Campo Grande. No Wikiaves por exemplo, em março/2013 e em setembro e dezembro de 2015, alguns bandos também foram avistados de passagem em Campo Grande e Terenos, indicando que a região central do Mato Grosso do Sul está na rota migratória regular da espécie.

Atenção observadores de aves que residem ou vão viajar para o Acre, oeste do Amazonas, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Fiquem atentos!! A partir dessa semana, os bandos de sovis-do-norte (Ictinia mississippiensis) e gaviões-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) vão começar a passar por essas regiões.

Mais informações em:
http://blog.avesderapinabrasil.com/2017/09/as-nuvens-de-migrantes-que-cruzam.html


29 de setembro de 2017

As “nuvens de migrantes” que cruzam a América do Sul em outubro.

Nas próximas semanas, grupos com milhares de rapinantes migratórios oriundos do hemisfério norte vão cruzar a floresta amazônica, especialmente os Estados do Acre e oeste do Amazonas.
Na imagem, milhares de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus) em uma térmica de migração no México. Foto: Pablo Camacho.
*por: Willian Menq. 
No mês de outubro, grupos com milhares de rapinantes migratórios da América do Norte podem ser avistados cruzando os países da América Central e do Sul. Na Costa Rica, por exemplo, é possível avistar mais de 8 mil indivíduos em pouco menos de três horas, tornando-se verdadeiras “nuvens de migração”. No Brasil, no entanto, são raríssimos os avistamentos das nuvens de migrantes.

Essas nuvens de migração são compostas por uma ou mais espécies que migram em bandos, como o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni), sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) e o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura).

No Brasil, bandos numerosos de gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) e sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) podem ser registrados no Acre, oeste do Amazonas e noroeste de Rondônia, áreas nas quais fazem parte da rota de migração dessas aves.

• Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis)
Os bandos de sovi-do-norte (I. mississipiensis) cruzam a região amazônica (Acre e oeste do Amazonas) entre a primeira e a segunda semana de outubro. Além disso, parte desses bandos têm como destino final o pantanal do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde permanecem de novembro a março. Outra parte da população se instala no Paraguai e norte da Argentina.

Essa espécie é frequentemente confundida com o sovi (Ictinia plumbea), que é mais comum. Porém, o sovi-do-norte é identificado pela ausência de ferrugíneo nas primárias das asas e pela cauda toda negra. Já os jovens de ambas espécies possuem a cauda barrada, distinguindo-se pelo avermelhado das primárias, presente no jovem I. plumbea e ausente no jovem I. mississippiensis.



Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni)
A grande nuvem de migração de B. swainsoni costuma cruzar o Acre e o oeste do Amazonas entre a segunda e a terceira semana de outubro. O destino final dessa espécie é o norte da Argentina, onde permanece de novembro a março. Alguns indivíduos, especialmente jovens, se perdem durante o trajeto migratório e podem ser avistados como vagantes em outras partes do Brasil, especialmente na região sul e sudeste.

O gavião-papa-gafanhoto é altamente polimórfico e muito parecido com outros buteonines residentes do Brasil, diferenciando-se principalmente pela coloração marrom-escuro da cabeça e pescoço contrastado com a garganta clara, e silhueta de asas extensas e levemente pontiagudas. O jovem é predominantemente branco por baixo, com um pouco de estriado escuro nas laterais do pescoço e pintas dispersas no ventre.



• Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus)
Diferente dos outros, o B. platypterus tem como destino final a floresta amazônica, migra em bandos de centenas a milhares de indivíduos e permanece nas áreas de invernagem solitário. Dessa forma, é possível encontrar tanto bandos numerosos em migração quanto indivíduos solitários em seu destino final. Os bandos começam a adentrar o norte do Brasil entre o final de setembro e as primeiras semanas de outubro, onde permanecem até meados de março e abril. Além disso, alguns indivíduos ultrapassam a região amazônica e aparecem como vagantes no sul e sudeste do Brasil.



• Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura)
As populações de urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) da América do Norte também são migratórias. A partir do final de agosto e início de setembro essa espécie reúne-se em bandos de milhares de indivíduos e migra para a América Central e do Sul, com alguns indivíduos adentrando território brasileiro. Há também populações do extremo sul da América do Sul (Patagônia) que realizam migrações austrais, aparecendo no norte do Brasil e países vizinhos entre os meses de maio e setembro, fugindo do rigoroso inverno da Patagônia. Em resumo, além das populações residentes de C. aura do Brasil, há indivíduos que aparecem no país oriundos do hemisfério norte e outros oriundos do extremo sul do continente.

Urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) migratórios, em "térmica de migração", voando junto a alguns Buteo swainsoni. Costa Rica. Foto: Willian Menq.

Além dessas espécies, há outras três espécies de rapinantes do hemisfério norte que cruzam as Américas rumo ao Brasil e outros países da América do Sul, são elas: o falcão-peregrino (Falco peregrinus), esmerilhão (Falco columbarius) e a águia-pescadora (Pandion haliaetus). Porém, estas últimas não migram em grupos, são solitárias.

Onde essas espécies estão agora?
Atenção observadores de aves do Acre e oeste do Amazonas! Semana passada, bandos de sovi-do-norte (I. mississipiensis) com mais 1 mil indivíduos foram avistados de passagem no noroeste da Colômbia. De acordo com os dados do eBird, desde o dia 14 de setembro, bandos com mais de 2 mil indivíduos estão sendo observados de passagem nos países da América Central. A previsão é que os bandos cruzem o Acre e o oeste do Amazonas nas duas primeiras semanas de outubro. Já o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) irá cruzar o Acre e o oeste do Amazonas entre a segunda e a terceira semana de outubro. Neste momento, a maioria dos indivíduos de B. swainsoni estão deixando seus sítios reprodutivos na América do Norte. O gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), por sua vez, começou a adentrar o território brasileiro a poucos dias, e milhares estão cruzando a América Central, conforme atesta os dados do eBird.

Mais informações sobre as espécies:
Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) - Link
Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) - Link
Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) - Link
Falcão-peregrino (Falco peregrinus) - Link
Esmerilhão (Falco columbarius) - Link
Águia-pescadora (Pandion haliaetus) - Link

30 de agosto de 2017

Os rapinantes migratórios chegaram!!


*por: Willian Menq. 
Setembro é o pico de chegada dos migrantes austrais na Mata Atlântica. O gavião-bombachinha (Harpagus diodon), o sovi (Ictinia plumbea) e o gavião-tesoura (Elanoides forficatus) já podem ser registrados no sudeste, sul e parte do centro-oeste do Brasil, onde permanecem até fevereiro e março de 2018.

Essas três espécies realizam suas longas jornadas pelo continente através de voos planados, usando as correntes de ar ascendentes (térmicas) como “elevadores” para ganhar altura e se deslocar. Assim, voam de 150 a 400 km por dia, demorando de uma a duas semanas até o destino final. Normalmente realizam os deslocamentos migratórios em alturas que variam de 500 a 2.000 m, quando há térmicas favoráveis. Como gastam pouca energia com o voo planado, essas aves realizam pouquíssimas paradas diurnas para descanso e/ou alimentação.

Aves de rapina migratórias que aparecem a partir de agosto/setembro no sul, sudeste e centro-oeste do Brasil. 1 - sovi (Ictinia plumbea), 2 - gavião-bombachinha (Harpagus diodon), 3 - gavião-tesoura (Elanoides forficatus). Fotos: W. Menq.

O sovi (I. plumbea) e o gavião-tesoura (E. forficatus) são rapinantes sociáveis, realizam as migrações em grupos de dezenas a centenas de indivíduos, também permanecem nas áreas reprodutivas e de invernagem em grupos. Se reunindo em bandos, fica mais fácil localizar as correntes térmicas e usá-las de forma mais efetiva, além de afastar predadores das áreas reprodutivas com mais eficiência. E como se alimentam basicamente de insetos voadores, bastante abundantes nas estações quentes, esses grupos não têm problemas com escassez de alimento.

Pouco sabemos sobre os movimentos migratórios desses gaviões na América do Sul. Informações como rotas migratórias, fidelidade aos locais de invernagem/nidificação, ainda são pouco compreendidas. Sabemos que as aves de rapina migratórias do hemisfério norte, como o falcão-peregrino (Falco peregrinus), a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsonii), usam as mesmas rotas migratórias e são fiéis aos locais de nidificação e invernagem. Assim, é possível que o gavião-tesoura, sovi e o gavião-bombachinha também sejam fiéis aos locais de nidificação e de invernagem, usando as mesmas rotas migratórias em suas viagens entre a Mata Atlântica e Amazônia, hipótese já levantada em postagens anteriores (link).

Figura 1. Padrão de migração do gavião-tesoura (Elanoides forficatus) no Brasil. 1) De abril a julho, os E. forficatus estão concentrados na região amazônica, onde também há populações vindas da América Central. 2) Em julho/agosto, os E. forficatus iniciam seus movimentos para a Mata Atlântica (incluindo parte do centro-oeste), e nesse período grandes bandos podem ser registrados em migração. Em setembro, os E. forficatus já atingiram seu destino final de migração, e algumas populações iniciam o período reprodutivo na Mata Atlântica. Em fevereiro/março iniciam a viagem para a Amazônia, onde bandos podem ser vistos em migração.
Bando de gavião-tesoura (Elanoirdes forficatus), com mais de 200 indivíduos, registrado em 11/03/2013 na área urbana de Maringá, provavelmente em migração rumo ao norte do Brasil. Foto: Elirani Fernandes.

Nos meses de outubro e novembro é a vez dos rapinantes migratórios do hemisfério norte aparecer no Brasil, são eles o falcão-peregrino (Falco peregrinus), águia-pescadora (Pandion haliaetus), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsonii), sauveiro-do-norte (Ictia mississippiensis) e o esmerilhão (Falco columbarius).

E você, já registrou a chegada dessas espécies em sua região? Caso sim, comente e publique seus registros no Wikiaves, Táxeus ou eBird, seus dados podem auxiliar programas de monitoramento e conservação de aves, saiba mais.

Quer saber mais sobre a migração das aves de rapina do Brasil?
Leia o artigo: As aves de rapina migratórias.

22 de agosto de 2017

Cor da cera e o humor dos caracarás

Os caracarás são capazes de alterar a cor das partes nuas da face conforme seu estado de “humor”, sendo uma importante ferramenta na emissão de sinais sociais.


*por: Willian Menq. 
Cera é a área nua e carnuda presente na base da maxila das aves, bem desenvolvida em algumas espécies, como nos falcões, gaviões, pombos, corujas, papagaios, entre outros. A coloração, a textura e o formato dessa estrutura varia conforme a espécie. Além de abrigar as narinas, a cera pode ser útil na sinalização da fase reprodutiva ou na diferenciação de macho e fêmea de certas espécies de aves.

Nos caracarás (Caracara plancus e Caracara cheriway) a cor da cera está relacionada ao estado de humor da ave. Quando os caracarás estão em repouso ou relaxados, a cera apresenta-se em cor vermelha ou laranja, alterando-se para o amarelo brilhante quando estão agitados/estressados ou excitados. Porém, a cor da cera dessas aves não pode ser interpretada apenas a estar “relaxada” ou “agitada”, ela também é muito útil na emissão de sinais sociais em interações agonísticas.

Na Flórida/EUA, o pesquisador James F. Dwyer (2014) conduziu um estudo sobre a relação da cor da cera com as interações inter e intraespecíficas dos caracarás-do-norte (C. cheriway). O autor observou que as cores da cera exibidas entre os caracarás de uma interação agonística está relacionada ao papel dos participantes nas interações. Os caracarás agressores (dominantes) exibiam cera de amarelo brilhante, enquanto que os caracarás receptores (submissos) apresentavam cera vermelha.

Isso foi observado tanto em interações entre caracarás, quanto em interações com outras espécies (urubus, Coragyps e Cathartes). Mesmo indivíduos jovens de caracarás, que normalmente possuem ceras em tons rosados, tornavam-se amarelo durante interações agonísticas nas quais eram agressores. O autor observou que os caracarás vencedores (que exibiam a cera amarela durante as disputas de comida), normalmente eram os que se alimentavam da carcaça contestada, enquanto que os perdedores (que exibiam cera laranja) se afastavam do local.

Cor da cera do caracará-do-norte (Caracara cheriway) em distintas situações. A) Indivíduo jovem em repouso, com cera avermelhada; B) Jovem durante comportamento agonístico (head-back display), exibindo cera amarelada; C) Adulto em repouso, exibindo cera avermelhada, D) Adulto em comportamento agonístico (head-back display), exibindo cera amarela. Fotos: James F. Dwyer; adaptado de Dwyer (2014).
Essa relação da cor da cera com o papel dos participantes nas interações agonísticas, faz muito sentido para mim. Todas as vezes que observei caracarás (C. plancus) brigando, o agressor exibia a cera amarelo brilhante, e o que apanhava apresentava (ou passava a apresentar) a cera vermelha, como se estivesse dizendo "por favor, não quero mais brigar".

Caracarás (Caracara plancus) brigando por local de forrageio. A) À esquerda, adulto dominante exibindo a cera amarela agredindo um jovem (exibindo cera rósea). B) Adulto agressor no local contestado, e à direita o jovem submisso afastado exibindo a cera avermelhada.
Os benefícios da sinalização através da coloração da cera são bens discutidos entre os especialistas. Os indivíduos submissos, ao sinalizar sua condição de submissão, acaba facilitando o encerramento da briga, diminuindo assim o risco de uma lesão grave. Já o indivíduo agressor, ao sinalizar sua condição de dominante, intimida as outras aves, diminuindo os custos de tempo e energia, permitindo consumir os recursos defendidos ou redirecionar a agressão para outras aves (Bower 2005, McGregor 2005, Lehner et al. 2011).

E como os caracarás conseguem alterar a cor da cera?
Os caracarás conseguem alterar a cor da cera graças a alta vascularização presente nesta área da face. O sangue flui rapidamente através dos vasos sanguíneos da superfície deixando a cera em tons vermelhos. Quando os caracarás se tornam agitados, o fluxo de sangue na área é interrompido, deixando a cera de cor amarela ou pálida. Interessante que essas mudanças na cor da cera dos caracarás pode ocorrer em poucos segundos.

Vale ressaltar que em muitos outros falconídeos, a cor da cera está relacionada a idade ou ao sexo da ave. Esse é o caso do chimango (Milvago chimango), o macho adulto possuí a cera e os tarsos de cor amarelo brilhante, enquanto que a fêmea e o jovem possuem a cera rósea e os tarsos azulados.

Em alguns falconídeos do gênero Falco, a cor da cera indica apenas a idade da ave. Os jovens do falcão-peregrino (Falco peregrinus) e do falcão-de-peito-laranja (Falco deiroleucus), possuem a cera em tons azulados, enquanto que os adultos possuem a cera amarela. Além disso, nessas aves é comum a cera possuir cores mais brilhantes no período reprodutivo, como resultado da ação de hormônios. Já falcões pequenos, como o quiriquiri (Falco sparverius), a cor da cera é igual entre os sexos e idades, sem nenhuma alteração ao longo da vida.

À esquerda, macho adulto de chimango (Milvago chimango), que possuí cera e tarsos de cor amarelo brilhante; e à direita, fêmea adulta, que apresenta cera rósea e tarsos azulados. Foto: Paulo Fenalti.
Diferenças na cor da cera entre as idades. À esquerda, jovem falcão-peregrino (F. peregrinus) de cera azulada. À direita, adulto do falcão-peregrino (F. peregrinus) de cera amarelo brilhante. Fotos: Willian Menq.


Literatura relacionada:
Dwyer, J. F. (2014) Correlation of Cere Color with Intra- and Interspecific Agonistic Interactions of Crested Caracaras. Journal of Raptor Research 48:240-247.

Negro, J. J., Sarasola, J. H., F. Fariñas, & I. Zorrilla (2006) Function and occurrence of facial flushing in birds. Comparative Biochemistry and Physiology Part A: Molecular & Integrative Physiology 143:78-84.

Sarasola, J.H., Negro, J.J., Bechard, M.J. & A. Lanusse (2011) Not as similar as thought: sexual dichromatism in Chimango caracaras is expressed in the exposed skin but not in the plumage. Journal of Ornithology 152 (2):473-479.


Leia também:
Funções da coloração da plumagem das aves de rapina. Aves de Rapina Brasil.
Disponível em: http://www.avesderapinabrasil.com/arquivos/artigos/ARB4_7.pdf

16 de agosto de 2017

I Congresso de Ornitologia das Américas

*por: Willian Menq. 
Semana passada, aconteceu entre os dias 8 e 11 de agosto o I Congresso de Ornitologia das Américas, na cidade de Puerto Iguazú - Argentina, organizado conjuntamente pela Association of Field Ornithologists, Sociedade Brasileira de Ornitologia e Aves Argentinas.

O evento reuniu pesquisadores de todas as regiões das Américas, com predominância de brasileiros e argentinos. Houveram cerca de 350 apresentações científicas e sete conferências plenárias. Participei do congresso acompanhado de minha esposa Jessica Nascimento, das amigas Simone Mamede, Maristela Benites, e dos amigos Pedro Scherer-Neto e Ricardo Ribeiro. Também conheci e revi alguns amigos distantes.

Nas sessões científicas, além dos estudos clássicos de ecologia, comportamento e evolução, haviam muitos trabalhos sobre o uso da ciência-cidadã na compreensão de impactos, padrões biogeográficos e conservação de aves. Stephanie C. Schubert, por exemplo, falou sobre o uso do banco de dados do Wikiaves como ferramenta para compreensão da migração de aves brasileiras; Lucas W. Degroote discutiu sobre o uso da ciência-cidadã na elucidação de colisões com aves em vidraças; Luciano M. Lima usou a ciência-cidadã para compreender os padrões biogeográficos de vários táxons da Mata Atlântica; Simone Mamede falou sobre o mapeamento dos registros de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) aliado a ciência-cidadã na região da Serra de Maracajú, MS.

Falando em aves de rapina, vários estudos com rapinantes foram apresentados no congresso, em sua maioria bem interessantes. Dos que eu pude ler ou assistir, destaco o trabalho do José H. Sarasola sobre a eletrocussão de aves de rapina em postes de energia na Argentina; do Maximiliano Galmes sobre o sucesso reprodutivo da águia-cinzenta (Urubitinga coronata) na região central da Argentina; da Maristela Benites sobre o monitoramento de um ninho de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) na Serra do Maracajú, MS; da Jessica Nascimento sobre a composição de corujas na área urbana de Campo Grande, MS; do Santiago Zuluaga sobre a ecologia de movimentos aplicada à conservação de aves ameaçadas, incluindo o Spizaetus isidori e Urubitinga coronata; do J. Monsalvo sobre as espécies da região neotropical com escassas informações acerca de sua da biologia reprodutiva; da Natalia Rebolo sobre o espaço aéreo do condor-andino (Vultur gryphus) e os conflitos com as atividades humanas; além de muitos outros, infelizmente não dá para citar todos aqui.

Livro de resumos do congresso disponível neste link.

No congresso apresentei os resultados preliminares de um estudo antigo sobre a eficiência do playback na detecção de corujas florestais. Através de informações obtidas de forma eventual em corujadas pelo interior do Paraná, fiz uma comparação entre duas técnicas para amostragem de corujas: 1) ponto de escuta, e 2) playback. Como esperado, o playback demonstrou ser bastante eficiente na detecção de corujas, especialmente nas espécies do gênero Strix e Pulsatrix, aumentando de 30 a 80% o sucesso nas taxas de contato com as espécies.

Sessão de painéis do dia 09 de agosto. Foto: W. Menq

Apresentando trabalho sobre a eficiência do playback na detecção de corujas florestais. Foto: Jessica Nascimento.
A cidade anfitriã do evento, bem como toda a região (incluindo Foz do Iguaçu, Brasil), é dominada pela Floresta Estacional Semidecidual, um tipo vegetacional da Mata Atlântica. Além dos atrativos de beleza cênica e áreas naturais, como as cataratas do Parque Nacional do Iguaçu, a região possui uma riqueza de aves impressionante, com quase 500 espécies catalogadas. Aproveitamos a estadia na cidade para ir a Foz do Iguaçu passarinhar nas trilhas do Parque Nacional do Iguaçu, visitar o Parque das Aves e o Refúgio Biológico Bela Vista. Do lado argentino, fomos no centro de resgate e reabilitação Guira Oga e no famoso jardim dos beija-flores.

Jacutinga (Aburria jacutinga) registrada na trilha de acesso às Cataratas do Iguaçu. Foto: W. Menq

Harpia (Harpia harpyja) fêmea, do projeto de reprodução de harpias do Refúgio Biológico Bela Vista,
Foz do Iguaçu/PR. Foto: W. Menq.

Visitando o Parque das Aves na companhia dos amigos Pedro Scherer-Neto, Edmilson, Macedo, Simone Mamede, Maristela Benites e Jessica Nascmento. Foz do Iguaçu/PR.
Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) do centro de resgate e reabilitação Guira Oga, Puerto Iguazú, Argentina. Foto: W. Menq.

Anacã (Deroptyus accipitrinus) no recinto do Parque das Aves, Foz do Iguaçu/PR. Foto: W. Menq.

4 de agosto de 2017

Corujas atraídas pelo som de outras corujas: defesa territorial ou predação?

Na maioria das vezes é defesa territorial, mas dependendo do comportamento e das espécies envolvidas, a situação pode ser de predação!

Coruja-listrada (Strix hylophila) atraída pelo playback de caburé-acanelado (Aegolius harrisii).
Foto: W. Menq, Campos do Jordão/SP.
*por: Willian Menq. 
Durante execuções de playback, é comum as corujas responderem o canto de outra espécie (playback cruzado). Isso ocorre, pois são aves territoriais, defendem seu território através de chamados e comportamentos agonísticos contra qualquer opositor.

Já registrei diversas vezes a coruja-do-mato (Strix virgata) vindo no som de coruja-preta (Strix huhula), murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) aparecendo no som de coruja-do-mato (Strix virgata), corujinha-do-mato (Megascops choliba) aparecendo no som de corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae), e vice-versa. Normalmente, em situações de defesa territorial, as aves atraídas pelo playback cantam freneticamente para afastar/intimidar o rival, seja ele da mesma espécie ou não.

Mas nem sempre a intenção da coruja atraída é a de afastar o opositor. Dependendo das espécies envolvidas o comportamento pode ser atribuído ao de predação.

Em junho de 2013, durante uma corujada na área rural de Campos do Jordão/SP, fui surpreendido por um vulto de uma grande coruja que pousou em uma Araucária bem a minha frente. Era uma coruja-listrada (Strix hylophila), que apareceu silenciosamente atraída pelo playback do caburé-acanelado (Aegolius harrisii). Considerando que a coruja apareceu discretamente, em um poleiro à baixa altura, e sem vocalizar, é possível que ela estava interessada em predar o simulado caburé-acanelado (A. harrisii), que tem um terço de seu peso.

Observações de predações entre corujas são raras de serem obtidas na natureza, mas essas interações devem ser mais frequentes do que imaginamos. Algumas espécies grandes, como as do gênero Pulsatrix e Asio, são afamadas predadoras de aves, capturando desde periquitos e saíras dormindo em seus poleiros noturnos, até aves do seu próprio tamanho (veja aqui).

No Brasil, existem alguns registros de murucututu (Pulsatrix perspicillata), jacurutu (Bubo virginianus) e mochos (Asio spp.), predando corujas menores, como as do gênero Athene e Megascops. No município de Itarumã/GO, D. Mota (com. pess.) encontrou no ninho de murucututu (Pulsatrix perscipillata), restos de uma coruja-buraqueira (Athene cunicularia). Em Lavras/MG, K. Santos (com. pess) encontrou no ninho de jacurutu (B. virginianus), restos de uma suindara (Tyto furcata).

À esquerda, filhote de murucututu (P. perspicillata) no ninho, com carcaça de uma coruja-buraqueira (Athene cunicularia). Foto: Danilo Mota. À direita, filhotes de jacurutu (Bubo virginianus) no ninho, com restos de uma suindara (Tyto furcata). Foto: Kassius Santos.
Devido a vulnerabilidade, é comum espécies pequenas serem inibidas (silenciando-se) durante a reprodução do playback de espécies maiores.

Não só o playback de corujas pequenas pode chamar a atenção das corujas maiores, o canto de outras aves noturnas também. Recentemente, durante uma amostragem noturna no Parque Estadual do Cunhambebe, em Mangaratiba/RJ, vivenciei uma situação parecida. Quando tentava atrair um joão-corta-pau (Antrostomus rufus) com playback, uma murucututu-de-barriga-amarela (P. koeniswaldiana) apareceu silenciosamente em um poleiro baixo à frente de mim, provavelmente interessada em capturar o possível bacurau. Sorte dele que não apareceu!

Murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) atraída pelo playback de um joão-corta-pau (Antrostomus rufus). Foto: W. Menq, Mangaratiba/RJ.
E você, já viu alguma coruja grande vindo no som de uma menor?

7 de julho de 2017

Tauató-pintado (Accipiter poliogaster): raro ou discreto?

O tauató-pintado é um dos rapinantes mais enigmáticos do Brasil. Na imagem, fêmea adulta encontrada na borda de um plantio de Eucaliptus. Nova Trento/SC. Foto: Willian Menq. 

*por: Willian Menq. 
O tauató-pintado (Accipiter poliogaster) é um dos gaviões mais enigmáticos e “cobiçados” entre os apaixonados por aves de rapina. De ampla distribuição, ocorre em toda a América do Sul, incluindo grande parte do Brasil.

Porém, é extremamente difícil registrá-lo na natureza, mesmo em áreas com ocorrência conhecida ou com registros recentes, o encontro com a espécie é incerto. Por isso, é frequentemente apelidado pelos ornitólogos e birdwatchers de “gavião fantasma”.

Apesar da ampla distribuição geográfica, os registros de A. poliogaster são pontuais e escassos, o que poderia ser interpretado como uma raridade natural ou, ainda, por se tratar de uma espécie de difícil detecção em amostragens de campo. No Wikiaves por exemplo, até a presente data (7 de julho de 2017), apenas 50 municípios brasileiros possuem registros de A. poliogaster, sendo a maioria (60%) obtidos nos Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Na região amazônica, somente 8 municípios apresentam registros da espécie no site, informações que demonstra o baixo número de contatos com a espécie entre os observadores de aves.

Pouco sabemos sobre sua biologia e comportamento. Analisando os dados disponíveis na literatura e nos bancos de dados online, o A. poliogaster parece ter uma razoável plasticidade quanto ao uso de habitat, com ocorrência documentada desde em florestas primárias, borda de mata, matas ciliares, até áreas mais degradadas. No Estado de Santa Catarina, já tive oportunidade de registrar o A. poliogaster tanto em áreas razoavelmente preservadas de Matas-de-Araucária até em locais bem alterados, incluindo plantios de Eucaliptus e Pinus. Supõe-se que a espécie ocorra em todas as áreas florestadas do sul e sudeste do Brasil, região amazônica e nos encraves florestais da região centro-oeste. Em relação a dieta, alimenta-se principalmente de aves, gosta de caçar rolinhas (Columbina, Zenaida), juritis (Leptotila) e alguns tinamídeos (Crypturellus).

Fêmea adulta registrada no interior de uma Mata-de-Araucária, Irineópolis/SC. Foto: Willian Menq.
Ao que tudo indica, a dificuldade de encontra-lo na natureza está associada ao seu comportamento inconspícuo. É um gavião discreto, raramente plana ou sobrevoa a floresta, e quando resolve voar acima da mata ou cruzar entre remanescentes florestais é rápido. Além disso, o A. poliogaster possui um temperamento arisco e desconfiado, indivíduos adultos dificilmente permitem a aproximação humana, e ao perceber a aproximação de uma pessoa evade-se rapidamente por entre a ramagem. Dessa forma, a maioria dos contatos visuais são curta duração, que dificulta a localização ou mesmo a identificação precisa da espécie.

Além do comportamento discreto e arredio, o A. poliogaster possui diferentes plumagens que pode gerar confusões nas identificações. O macho adulto pode ser confundido com o subadulto de A. bicolor (gavião-bombachinha-grande). A fêmea adulta pode ser confundida com o jovem A. bicolor bicolor, subespécie da região amazônica que possui o ventre branco e o dorso escuro muito similar a ela. Adultos também são parecidos com o Micrastur mirandollei (falcão-tanatau), inclusive há um artigo sobre a nidificação de A. poliogaster que foi erroneamente identificado como sendo M. mirandollei (ver Thorstrom 2002). Já os jovens de A. poliogaster possuem plumagem que imita a do Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho). Devido a essa plumagem diferente dos jovens, até poucas décadas atrás acreditava-se que o jovem era uma espécie à parte, erroneamente descrita como Accipiter pectoralis.

Por essas razões, comportamento e dificuldade de identificação, acredito que o A. poliogaster seja mais subamostrado do que raro. Essa ave é mais facilmente detectável no período reprodutivo, quando vocaliza com maior frequência. Também costuma vocalizar e dar voos rasantes contra qualquer intruso que se aproxima da área do ninho.

Possível distribuição geográfica do tauató-pintado (Accipiter poliogaster) na região neotropical.


Veja também:


Bibliografia relacionada:

Boesing, A. L., W. Menq & L. Anjos (2012) First description of the reproductive biology of the Grey-bellied Hawk (Accipiter poliogaster). The Wilson Journal of Ornithology 124 (4): 767–774.

Kaminski, N.; Tres, D.R. (2011) Primeiro registro documentado do Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) para o Estado de Santa Catarina, Brasil Nuestras Aves, 56:31-33.

Lanzer, M., M. A. Villegas, & M. Aurelio-Silva. (2009) Primeiro registro documentado de Accipiter poliogaster (Temminck, 1824) no estado do Parana, sul do Brasil (Falconiformes: Accipitridae). Revista Brasileira de Ornitologia 17:137-138.

Melnyk, K., Gelis, R. A., Hopkins, W. A., Vaca, F. & Moore, I. T. (2013) Gray-bellied Hawk (Accipiter poliogaster) Observed Feeding on a Tinamou in Yasuni Biosphere Reserve, Ecuador. J. Raptor Res. 47(3):330–332.


Menq, W. (2016) Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/accipiter_poliogaster.htm > Acesso em: 7 de Julho de 2017

Thorstrom, R. (2002) Comments on the first nesting record of the nest of a Slaty-backed Forest-falcon (Micrastur mirandollei) in the Ecuadorian Amazon. Journal of Raptor Research 36:335-336.

28 de junho de 2017

Águias atacam crianças? Verdade ou mito?

Gavião-real pode capturar uma criança? Vídeo de uma águia capturando um bebê é verdadeiro ou falso? Águia tentou carregar um menino na Austrália?



*por: Willian Menq. 
Frequentemente vejo pessoas compartilhando nas redes sociais um famoso vídeo de uma águia-real capturando um bebê no solo. Também já ouvi pessoas comentando que a harpia Harpia harpyja (também chamada de gavião-real), pode atacar crianças. Inclusive, comunidades ribeirinhas no norte do Brasil acreditam piamente nisso, existindo até “supostos relatos”.

Obviamente, tanto a história da harpia quanto o vídeo são FALSOS!!!

Não existe nenhum relato no Brasil ou no mundo de uma harpia (Harpia harpyja) ou de outra águia em vida livre, capturando ou atacando uma criança com intuito de alimentação. Na verdade, as águias (Accipitridae em geral) são ariscas e preferem manter distância dos seres humanos, muitas vezes possuindo grande aversão a nossa presença.

A maioria das águias capturam presas pequenas, que pesam de 300 g a no máximo 7 kg. E mesmo as espécies que capturam bugios e macacos (de 3 a 7 kg) como a harpia, não representam nenhum risco ao ser humano, sendo pouco provável um ataque contra crianças. Essas aves sabidamente identificam a nossa espécie como ameaça e não como alimento.

As únicas situações que deixam as aves de rapina agressivas ao ponto de atacar uma pessoa, é quando alguém se aproxima/manipula seu ninho ou filhotes. E como bons pais, defendem os filhotes a qualquer custo, podendo executar voos rasantes ou contato direto com as garras no intruso. Adicionalmente, aves em cativeiro sob estresse, também podem se tornar agressivas, assim como todo animal.

Águia tentando capturar menino na Austrália? É verdade?

No ano passado, vários sites de notícias veicularam o caso de uma águia (Aquila audax) que supostamente tentou capturar um menino de 8 anos durante um evento na Austrália. Várias manchetes diziam “águia tenta carregar criança”, “águia gigante quase captura um menino”, e outros títulos sensacionalistas do tipo.

Segundo informações, o caso ocorreu durante uma apresentação de aves de rapina no Alice Springs Desert Park, norte da Austrália. Durante a apresentação, a águia (que era treinada) voou em direção ao menino, grudou no seu casaco e “tentou carregá-lo”. Funcionários do parque acreditam que a ave tenha sido atraída pelos movimentos das mãos do garoto, que tirava e vestia o capuz do casaco repetidamente durante a apresentação. Felizmente, apesar do susto, o garoto sofreu apenas um arranhão.

Manchetes sensacionalistas sobre o "ataque" da águia na Austrália.
Esse caso da Austrália é verídico, porém, houve um exagero e má interpretação do comportamento pela mídia. Dizer que a ave tentou carregar a criança é um completo exagero!!

Para mim, parece óbvio que águia não tentou capturar o menino, ela nem é capaz (morfologicamente e ecologicamente) de executar tal tarefa contra uma criança, por motivos já explicados parágrafos acima. A ave atacou o garoto por outro motivo, talvez tenha associado o movimento das mãos do menino com a disponibilidade de alimento, já que os falcoeiros normalmente alimentam essas aves chamando-as com execução de movimentos das mãos ou com apitos, disponibilizando pedaços de carne na luva.

Outra possibilidade é que a ave tenha tentado pousar na cabeça do garoto (que por vezes pode acontecer durante voos livres de aves de rapina), e com o movimento brusco do menino ela se assustou e abortou a tentativa. Vale lembrar também, que a ave era adestrada, em estado selvagem seria improvável um ataque contra uma criança.

Vídeo de uma águia atacando um bebê no Canadá é FALSO

Quanto ao vídeo da águia atacando um bebê, trata-se de uma montagem, como já esclarecido pelo G1 (link) e por outros veículos de comunicação. O vídeo circula na internet desde 2012, foi uma montagem produzida por estudantes canadenses que lamentavelmente acabaram divulgando uma péssima e falsa imagem das águias e de outras aves de rapina.



Essas falsas histórias acabam prestando um desserviço ao conhecimento e a conservação das aves de rapina. A divulgação de notícias falsas ou mesmo a má divulgação de um caso, pode trazer consequências desastrosas paras os rapinantes. Muitas águias e gaviões encontram-se ameaçados de extinção devido à várias ações humanas, inclusive pela caça indiscriminada. Essas aves são desprezadas ou exterminadas em função do medo, preconceito e da ignorância humana.

23 de junho de 2017

As fases da lua influenciam o nível de atividade das corujas?

As corujas são vocalmente mais ativas nas noites com intensa luminosidade lunar?

*por: Willian Menq. 
Aparentemente sim! Vários especialistas mencionam que diversas espécies de corujas são vocalmente mais ativas em noites de lua cheia ou quase cheia, onde a luminosidade lunar é mais elevada. Na verdade, as corujas têm seu comportamento influenciado pelo aumento da luminosidade noturna e não pelas fases da lua. Se o tempo estiver nublado ou chuvoso, mesmo na lua cheia, a noite será escura e as corujas estarão menos ativas.

König & Weick (2008), autores do livro Owls of the World, citam várias espécies dos gêneros Strix, Pulsatrix, Glaucidium e Bubo, que vocalizam com mais frequência nas noites claras. Essas aves aproveitam a luminosidade lunar para comunicar-se com outros indivíduos ou defender seu território. A bufo-real (Bubo bubo) por exemplo, do Velho Mundo, possuí uma área branca na garganta que só é visível durante as exibições vocais, auxiliando na comunicação social 5. Por isso, a espécie tende a vocalizar com mais frequência nas noites que cercam a lua cheia (noites claras), quando as penas brancas são mais visíveis à distância. Outras espécies do gênero Bubo, incluindo a jacurutu (Bubo virginianus), também possuem a mesma área branca na garganta, talvez pelos mesmos motivos.

Além da comunicação social, algumas espécies aproveitam a iluminação lunar para aumentar as oportunidades de caça, uma vez que acuidade visual dessas aves melhora em comparação às noites escuras, sem uma luz natural. Por outro lado, roedores, marsupiais, morcegos e outros animais noturnos têm grande aversão às noites claras, exibindo a chamada "fobia lunar", tornando-se menos ativos e mais atentos, reduzindo o uso de áreas abertas e restringindo a atividade de forrageio ou a duração do período de atividade. Isso ocorre como uma estratégia anti-predação, já que nas noites sob intensa luminosidade lunar esses animais tornam-se mais vulneráveis à predação por corujas e outros predadores.

Noite clara e de lua cheia no cerrado mato-grossense. Foto: Willian Menq.


Mas nem todas as corujas preferem ou têm suas atividades influenciadas pelas noites claras. Espécies pequenas, como a Aegolius acadicus, do hemisfério norte, são mais ativas em noites escuras 6. Nas noites claras, essas aves evitam cantar ou realizar deslocamentos migratórios, provavelmente por conta do risco de predação por corujas maiores. Já a corujinha-do-mato (Megascops choliba), que é florestal e ocorre em grande parte do Brasil, é mais influenciada pela temperatura e umidade relativa do ar do que pela iluminação da lua, como indicado no estudo de Braga & Motta-Junior (2009). Isso está diretamente relacionado às suas presas, insetos voadores são mais ativos em noites quentes e úmidas.

De maneira geral, a luminosidade lunar parece influenciar mais nas corujas que vivem em ambientes abertos ou que se alimentam de pequenos mamíferos, como é o caso da suindara (Tyto furcata), jacurutu (Bubo virginianus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e mocho-dos-banhados (Asio flammeus).

Vale ressaltar que existem outros fatores importantes que influenciam o nível de atividade das corujas, como o vento, temperatura, precipitação e umidade. Em noites chuvosas ou com ventos fortes, a atividade das corujas diminui devido à dificuldade de voar e forragear - o ruído do vento e a chuva atrapalha a orientação acústica dessas aves. Algumas espécies, como a Aegolius funereus, são sensíveis até à queda da pressão atmosférica 2, que geralmente indica a chegada de uma chuva.

A época do ano e período da noite também influenciam o nível de atividade dessas aves. Como são territorialistas, as atividades vocais e de forrageio se tornam mais frequentes na época reprodutiva, quando estão defendendo territórios e/ou cuidando da prole. A atividade dessas aves também se altera ao longo da noite, nas primeiras horas após o pôr-do-sol e antes do amanhecer, as corujas estão mais ativas (vocalizando ou forrageando).

Em resumo, as corujas são mais ativas em noites claras, sem vento, no período reprodutivo, nas três primeiras horas da noite ou antes do alvorecer. Nesses períodos/condições elas são mais detectáveis, ou seja, estão forrageando ou vocalizando e respondem mais ao “playback”.

Gostou? Leia também:

Literatura relacionada:
1. Braga, A. C. R. & Motta-Junior, J. C. (2009) Weather conditions and moon phase influence on Tropical Screech Owl and Burrowing Owl detection by playback. Ardea, 97 (4): 395-401.

2. Clark, K. & Anderson, S. H. (1997) Temporal, Climatic and lunar factors affecting owl vocalizations of western wyoming. J. Raptor Research, 31 (4): 358-363.

3. Clarke, J. A. (1983) Moonlight's influence on predator/prey interactions between short-eared owls (Asio flammeus) and deermice (Peromyscus maniculatus). Behav Ecol Sociobiol 13:205-209.

4. König, C. & F. Weick. (2008) Owls of the world. Second Edition. Christopher Helm, 528 p.

5. Penteriani, V., Delgado, M. M., Campioni, L. & Lourenço, R. (2010) Moonlight Makes Owls More Chatty. PLoS One, 5(1): e8696.

6. Speicher, J. Schreffler, L. & Speicher, D. (2011) Lunar Influence on the Fall Migration of Northern Saw-whet Owls. The Wilson Journal of Ornithology 123(1):158–160.

Agradecimentos ao colega Geraldo Magela pela sugestão do tema desta postagem.

6 de junho de 2017

Melhor período para observar gaviões-de-penacho na Mata Atlântica

Agora é um dos melhores períodos para procurar os Spizaetus spp. na Mata Atlântica. Na imagem, gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) em voo sobre a floresta. Urubici/SC.
*por: Willian Menq. 
Agora é um dos melhores períodos para observar os gaviões-de-penacho (Spizaetus ornatus, S. tyrannus e S. melanoleucus) em voo na Mata Atlântica. Junho e julho é o período das paradas pré-nupciais dessas espécies, nessa época essas aves estão mais ativas e vocalizam com mais frequência, ou seja, são mais detectáveis.

O gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) por exemplo, bastante raro e discreto, passa boa parte do ano oculto na floresta, dificilmente planando acima da copa das árvores ou vocalizando. Na Mata Atlântica, nos meses de junho e julho a espécie realiza voos acrobáticos de cortejo, mais ou menos ritualizados, voando alto acima da floresta com perseguições e mergulhos no céu, por vezes se tocando no ar.

Portanto, junho/julho é um dos melhores períodos para ir a campo procurar o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) e as outras espécies do gênero Spizaetus. Regiões como a de Urubici e Urupema em SC, Morretes/PR, Iporanga/SP, Santa Teresa/ES, São Desidério/BA e outros lugares da Mata Atlântica que ainda contam com alguns remanescentes florestais preservados, são propícios a observação dos Spizaetus.

Durante um trabalho de campo no entorno do Parque Estadual da Serra do Mar, em Caraguatatuba/SP, semana passada, pude registrar em um mesmo dia e na mesma localidade, casais das três espécies de Spizaetus. Primeiro, por volta das 10:20, avistei dois gaviões-pato (Spizaetus melanoleucus) voando alto sobre a mata. Depois, por volta das 10:50, registrei um casal de gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) em voos circulares, e minutos após o avistamento dos S. tyrannus, um casal de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) levantou voo na floresta, circulando próximo ao casal de S. tyrannus. O casal de S. ornatus ficou voando  por mais de 20 min sobre a floresta, até que o macho se aproximou da fêmea e desceram na mata. Nos dias seguintes, retornei ao local no mesmo horário, e as três espécies de Spizaetus foram novamente registradas.

Spizaetus spp registrados em ponto fixo na borda de um trecho preservado de floresta, Caraguatatuba/SP. 1. Gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) em voo circular,. 2. Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), 3. gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), 4. casal de S. ornatus em voo de cortejo.
Vale ressaltar que, para observar essas aves é importante estar em um local adequado. O ideal é permanecer em um ponto com um bom campo de visão, como na borda de uma floresta, no alto de uma torre de observação, em uma trilha suspensa, no interior de vales, encostas, e etc. Quanto ao horário, o período entre o final da manhã e início da tarde (entre 9:00 e 12:00 h) são os mais adequados, pois é nesses horários que as correntes de ar ascendentes estão mais favoráveis e essas aves aproveitam para planar e/ou se deslocar pelo seu território.

Exemplo de um local adequado para observação de Spizaetus spp. Área elevada com um bom campo de visão do dossel da floresta. Local: Margem de uma estrada rural, Morretes/PR.
Também é necessário muita atenção a qualquer “pontinho” voando longe ou alto no céu. Espécies como o gavião-pato (S. melanoleucus), costumam voar muito alto, podendo facilmente passar despercebido pelos observadores ou ser confundido com outras espécies comuns.

Mais informações sobre horários de observação e técnicas, recomendo a leitura da postagem deste link.

20 de maio de 2017

Qual a função dos "olhos falsos" dos caburés?

Face occipital da caburé (Glaucidium brasilianum). 
*por: Willian Menq. 
As corujinhas do gênero Glaucidium são conhecidas por apresentar dois ocelos desenhados na parte de trás da cabeça, parecendo “olhos falsos”. Esses olhos falsos da nuca, que simulam um rosto, são chamados de face occipital. Das 32 espécies existentes do gênero Glaucidium, 24 possuem a face occipital, incluindo as quatro espécies de caburés existentes no Brasil (G. brasilianum, G. hardyi, G. minutissimum e G. mooreorum). Além dos caburés, outros rapinantes de pequeno porte possuem face occipital. Dentre essas espécies, podemos citar o quiriquiri (Falco sparverius) e várias outras aves que não ocorrem no Brasil (ex. Falco fasciinucha, Falco subbuteo, Surnia ulula, Athene noctua, Aegolius funereus, etc.).

Existem várias hipóteses que tentam explicar a função da face occipital dos caburés. Alguns especialistas acreditam que os falsos olhos servem para proteger as aves contra o ataque surpresa de predadores (Cott 1940, Balgooyen 1975, Steyn 1979). Outros pesquisadores, incluindo a mim, defendem que a face occipital serve para confundir pequenas aves durante o ‘comportamento de tumulto (mobbing behaviour)’, muitas vezes direcionando-as para a face verdadeira, aumentando as oportunidades de caça da coruja (Deppe et al. 2003, Negro et al. 2007).

Deppe et al. (2003) realizaram um estudo bastante interessante sobre o tema. Os autores usaram modelos de madeira da caburé-pigmeu (Glaucidium gnoma), com e sem face occipital, para ver se os passeriformes eram influenciados, ou não, pelos falsos olhos durante o comportamento de tumulto. O estudo apontou que os modelos com a presença da face occipital redirecionavam os ataques dos pequenos pássaros para a frente do modelo (onde estaria a face verdadeira). Negro et al. (2007) realizaram uma extensa revisão sobre as possíveis explicações da face occipital dos caburés, os autores descartaram a hipótese de proteção contra ataque de predadores, e concluíram que a face occipital está intimamente ligada ao comportamento de tumulto de suas presas, sendo uma ferramenta importante para enganar e predar as aves durante os eventos de tumulto.

A relação entre a face occipital e o comportamento de tumulto, faz bastante sentido. Na natureza, é evidente que os passeriformes quando detectam um rapinante, sempre atacam com investidas e rasantes na nuca do predador, uma vez que é a região mais "segura" para essas aves (menos risco de predação). E com a presença dos falsos olhos esses ataques seriam redirecionados para a frente da ave, como demonstrado no experimento de Deppe et al. (2003), facilitando a predação.

Além disso, os caburés e todas os outros rapinantes que possuem face occipital são diurnos, de pequeno porte, ágeis, e assim, mais susceptíveis de serem predadores eficazes de aves. Também há várias evidências que as corujas que tem face occipital são muitas vezes atacadas no evento de tumulto pelas mesmas espécies que geralmente caçam. No Brasil, Motta-Junior (2007) observou o ataque de um caburé (Glaucidium brasilianum) contra uma tesourinha (Tyrannus savana), que o atacava durante um comportamento de tumulto, o que reforça a hipótese.

Assim sendo, a explicação mais plausível é que os falsos olhos dos caburés evoluíram para confundir pequenas aves durante o comportamento de tumulto, aumentando as oportunidades de caça da coruja. Talvez a mesma explicação sirva para as outras espécies de rapinantes com face occipital.

Sequência de um ataque da caburé (G. brasilianum) contra uma tesourinha (T. savanna). A coruja capturou a ave pelo pescoço durante um evento de comportamento de tumulto. Fotos de: José Carlos Motta-Junior.





Literatura relacionada:

Balgooyen TG. 1975. Another possible function of the American kestrel’s deflection face. Jack-Pine Warbler 53: 115 116.

Cott HB. 1940. Adaptive coloration in animals. London: Oxford University Press

Deppe C, Holt D, Tewksbury J, Broberg L, Petersen J, Wood K. 2003. Effect of northern pygmy-owl (Glaucidium gnoma) eyespots on avian mobbing. Auk 120: 765–771.

Motta-Junior, J. C. 2007. Predação de Tyrannus savana, que exibia comportamento de tumulto, por Glaucidium brasilianum, no sudeste do Brasil. Biota Neotrop. vol. 7, no. 2.

Negro, J. J., Bortolottti, G. R. & Sarasola, J. H. (2007) Deceptive plumage signals in birds: manipulation of predators or prey? Biological Journal of the Linnean Society, 90, 467–477.

Steyn P. 1979. Observations on pearl-spotted and barred owls. Bokmakierie 31: 50–60.

25 de abril de 2017

Observando uma águia-real (Aquila chrysaetos) na natureza


*por: Willian Menq. 
A história que contarei a seguir é o resumo da realização de um sonho de infância, o de observar uma águia-real na natureza.

Para quem não conhece, a águia-real (Aquila chrysaetos) é uma das espécies mais populares e “cobiçadas” entre os apaixonados por aves de rapina. É uma ave que impõe respeito e admiração, frequentemente representada em brasões de reinos antigos, bandeira de países modernos e em documentários de vida selvagem, sendo considerada o protótipo básico de uma águia. Ela não ocorre no Brasil, mas possui uma distribuição bastante extensa ocorrendo em várias regiões montanhosas do hemisfério norte.

Semana passada eu e minha companheira Jessica Nascimento estávamos na Espanha, e um dos grandes objetivos da viagem era o de observar uma águia-real (Aquila chrysaetos) selvagem. A espécie pode ser encontrada em várias regiões do país, especialmente nas áreas montanhosas acima de 500 m do nível do mar. Apesar de imponente é também muito arisca, sendo a maioria dos encontros com indivíduos voando distantes.

No dia 11/04, por volta das 6:00 h da manhã, eu e a Jessica fomos até o município de Aielo de Malfiret, ao sul de Valencia/Espanha, para se encontrar com um amigo espanhol, Francisco Sancho “Paco”, que estava disposto a nos ajudar a ver a águia-real. Paco nos levou até o Parque Natural da Serra da Mariola, unidade de conservação de 17 mil ha onde há ocorrência de diversas espécies de rapinantes e outros animais da fauna ibérica. No parque existem alguns hides (esconderijos para observação de aves) e outras instalações para birdwatching da Fundação Victoria Laporta Carbonell, entidade sem fins lucrativos que atua dentro da UC.

Chegamos no parque por volta das 7:40 h, e com o apoio de um amigo de Paco, fomos até um hide no alto de uma montanha para tentar observar a águia. O local era bem propício para a observação de rapinantes, especialmente da águia-real e do abutre-fouveiro (Gyps fulvus). Embora o avistamento dessas espécies não fosse “garantido”, as chances que tínhamos eram boas. Segundo o pessoal da fundação, um casal de águia-real e um grupo razoável de abutres habitavam aquela região. Para atrair a águia e/ou abutres, colocamos um pernil de cabra a poucos metros à frente do esconderijo. Dessa forma, se alguma dessas aves voar por ali e avistar o pernil, provavelmente vão descer e se alimentar da carcaça. Os abutres são carniceiros, a águia-real por sua vez, eventualmente consome carcaças.

Eu e a Jessica nos posicionamos dentro do hide e ficamos aguardando silenciosamente os rapinantes. Como só havia espaço para duas pessoas, Paco e seu amigo desceram para a sede da fundação.

Permanecemos quase quatro horas na espreita até que por volta das 11:30 os primeiros abutres (Gyps fulvus) apareceram. Foi incrível! Vários abutres começaram a pousar a frente do esconderijo e em poucos segundos a carcaça estava completamente cercada pelos abutres famintos. Pelo menos 30 abutres apareceram no local, pareciam hienas vorazes dilacerando uma carcaça de zebra, em menos de 2 minutos a carcaça foi completamente dizimada.

Abutres-fouveiro (Gyps fulvus)


O tamanho dessas aves é impressionante, a espécie chega a medir até 1 metro de comprimento, 2.7 de envergadura e peso de até 12 kg (maior e mais pesado que a nossa harpia Harpia harpyja). A maioria dos abutres observados possuíam marcações nas asas que servem para os pesquisadores monitorar a dinâmica populacional da espécie.

Durante o alvoroço dos abutres avistamos a silhueta de uma águia circulando a pouca altura o bando, foi quando me dei conta que se tratava da tão sonhada águia-real.

Foi emocionante!! Também foi difícil conter a euforia e a emoção. Após gritar (silenciosamente) e comemorar o aparecimento da águia, rapidamente peguei a câmera e comecei a fotografá-la circulando em torno dos abutres. Após os voos rasantes, a águia-real pousou em um galho seco a poucos metros de nós.

Sensações indescritíveis percorreram meu corpo e minha mente, depois de sonhar tantos anos com este momento, finalmente eu estava diante de uma águia-real selvagem. Desde que me conheço por gente, assistia os documentários de vida selvagem da BBC, National Geographic e alguns do Félix Rodríguez De la Fuente e me encantava com as cenas desta bela e simbólica águia, sonhando em vê-la um dia na natureza.

O indivíduo que avistamos era um macho adulto. Muito provavelmente foi atraído no local pela movimentação dos abutres, circulou e pousou próximo do bando. Mas não se atreveu a disputar um pedaço de carne em meio a tantos abutres. A águia ficou pousada no galho seco por alguns instantes e em seguida alçou voo, subindo em uma térmica, desaparecendo de nossa visão.

Este sonho só foi possível graças ao apoio do amigo Paco, do amigo Pablo Camacho (que me apresentou o Paco e viabilizou a amizade), e a Fundación Victoria Laporta Carbonell pela excelente estrutura e projetos em prol da conservação da natureza.

A seguir, sequência de imagens obtidas neste inesquecível dia.

Águia-real (Aquila chrysaetos) em voo.


Águia-real (Aquila chrysaetos).

Pega-rabuda (Pica pica).
Águia-real (Aquila chrysaetos) em voo alto.

Abutre-fouveiro (Gyps fulvus).
Vídeo dos abutres-fouveiros (Gyps fulvus) se banqueteando à frente do hide.

25 de março de 2017

Melhores horários para a observação de aves de rapina em voo

Qual o melhor horário para encontrar rapinantes florestais planando?



Encontrar um gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) pousado na mata é sem dúvidas, muito difícil. Por outro lado, se o observador conhecer “os horários dos gaviões”, registrar essa mesma espécie em voo será bem mais fácil.

Dessa forma, a maneira mais fácil e eficiente de registrar rapinantes florestais é ir a campo nos horários de maior atividade de voo dessas aves. De maneira geral, o melhor horário para observar aves de rapina em voo é no período entre o final da manhã e início da tarde, período em que as correntes de ar ascendentes estão mais favoráveis e essas aves aproveitam para planar e/ou se deslocar pelo seu território. Esse período é o que chamamos de “horário das térmicas” ou “horário dos gaviões”.

Nesses horários, uma ampla variedade de espécies podem ser registradas em voos circulares, desde águias-florestais raras como o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) até rapinantes pequenos e discretos como o gavião-bombachinha (Harpagus diodon). Outras espécies, como o gavião-urubu (Buteo albonotatus) e o gavião-tesoura (Elanoides forficatus), praticamente só são encontrados em voo.

Vale ressaltar que o horário das térmicas varia de acordo com a região. Em boa parte das florestas do sul e sudeste do Brasil, o pico de atividade dos rapinantes é entre 9:00 e 12:00 h. Em regiões mais quentes, como no centro-oeste do Brasil, os rapinantes têm atividades aéreas um pouco mais cedo. Enquanto que nas regiões mais frias, como nas serras catarinenses, os gaviões podem estar ativos somente a partir das 10:00 h se estendendo até as 15:00 h. Após esses horários a chance de topar com um indivíduo em voo diminui drasticamente.

Durante um estudo que realizei em uma floresta no noroeste do Paraná, a Reserva Biológica das Perobas, dos 184 avistamentos com aves de rapina diurnas feitos ao longo de um ano, pelo menos 55% foram realizados entre 9:00 e 12:00 h, com o maior pico de observações entre 10:00 e 11:00 h da manhã.

Horários com maior número de registros de rapinantes diurnos (Accipitridae, Falconidae e Cathartidae) na Reserva Biológica das Perobas, Paraná. Adaptado de Menq & Delariva 2015.
Para registrar essas aves é importante estar com um bom binóculo, luneta ou uma câmera com lente de longo alcance. Particularmente, nas aves que estão muito longe ou que me causa dúvidas na identificação, prefiro fotografar exaustivamente para identificar posteriormente. Câmeras cropadas com lentes de 400 mm em diante, são suficientes para um bom registro. Câmeras compactas ultrazoom como a Canon SX50 HS ou a Nikon P610 por exemplo, também se saem muito bem nessas atividades.

Outra questão importante é estar em um local adequado para observação. Não adiantará nada estar no horário ideal para observação de rapinantes se você estiver em uma trilha no meio da mata, onde o campo de visão é muito limitado. O ideal é permanecer em um local com um bom campo de visão, como na borda de uma floresta, no alto de uma torre de observação, em uma trilha suspensa, interior de vales, encostas, e etc.

Também é necessário muita atenção a qualquer “pontinho” voando longe ou alto no céu. Espécies como o gavião-pato (S. melanoleucus), costumam voar muito alto, podendo facilmente passar despercebido pelos observadores ou ser confundido com outras espécies comuns. Outros, como o tauató-pintado (Accipiter poliogaster), podem cruzar de forma muita rápida pelo observador, sendo necessário muita agilidade para fotografar ou experiência para uma rápida identificação.

Exemplo de um local adequado para observação de rapinantes florestais planadores. Área elevada com um bom campo de visão do dossel da floresta.

Outras dicas para observação de rapinantes diurnos podem ser consultadas neste link.