15 de janeiro de 2017

Uso do flash e lanternas potentes prejudicam a visão das corujas?


Fotografar corujas é, sem dúvidas, uma atividade fascinante e desafiadora! A maioria das espécies são noturnas e difíceis de serem encontradas, sendo necessário o uso de lanternas e flash para uma boa foto. Mas será que o uso de lanternas e flash estressa/prejudica a visão das corujas?

Muitos observadores de aves acreditam que o uso moderado desses aparatos não causa nenhum dano às aves, já outros não tem tanta certeza. Em minhas saídas noturnas, percebo que em determinadas situações as corujas parecem “desconfortáveis” sob a iluminação direta de uma lanterna potente, por vezes virando o rosto ou voando. Já em outras situações, quando iluminadas por lanternas mais fracas ou no modo “econômico”, elas parecem mais tranquilas e indiferentes.

Infelizmente, há poucas informações científicas sobre o assunto. Sabemos que os olhos das corujas respondem à luz da mesma maneira que os olhos humanos. Quando o olho é exposto à uma luz intensa e rápida, como o disparo de um flash no escuro, as células fotorreceptoras ficam saturadas, causando uma rápida “cegueira funcional” na ave, uma imagem final brilhante que afeta a capacidade de ver e reconhecer objetos. Geralmente a recuperação é rápida, demorando poucos segundos para a visão se reajustar.

Quando a coruja é exposta a uma iluminação contínua, como a luz de uma lanterna, até pode ocorrer a mesma cegueira temporária (se a lanterna for potente), mas a ave consegue ajustar rapidamente a aberta da pupila (muito mais rápido que o olho humano), permitindo a quantidade adequada de luz sobre as retinas (1).

Ellis Loew (2), fisiologista da Universidade de Cornell, EUA, não acredita que um único flash, ou talvez alguns pares de flash, causa algum dano a visão das corujas. Mas se houvesse um grupo maior de fotógrafos, seis ou mais por exemplo, todos disparando flash de uma vez ou dentro de um curto intervalo de tempo na mesma coruja, aí sim poderia trazer prejuízos fisiológicos temporários a visão da ave. Em situações assim, as células fotorreceptoras podem sofrer danos temporários a ponto de não se adaptar ao mesmo nível de sensibilidade tão rapidamente, diminuindo a acuidade visual da ave por muito mais tempo. Em situações extremas, pode demorar 30 segundos ou mais até a visão se normalizar.

Segundo Loew, se nesse período a coruja precisar voar (ou receber várias sessões de flash em voo), pode ser particularmente perigoso. A ave pode colidir com um obstáculo enquanto está temporariamente cega, e/ou tornar-se vulnerável a outros predadores. O mesmo pode ocorrer com exposições excessivas de lanternas potentes.

O especialista em fisiologia animal Jack Pettigrew (3), da Universidade de Queensland, Austrália, acredita que não há nenhuma evidência empírica para nos preocuparmos. Flash e lanternas potentes podem sim deixar as corujas temporariamente cegas, mas depois de um tempo tudo volta ao normal. Outros especialistas, como Denver Holt, diretor do Montana-based Owl Research Institute, argumentam que o valor educacional dessas fotografias supera o risco potencial, especialmente se as fotos são usadas para conscientização das pessoas e conservação, ou se o fotógrafo trabalha em conjunto com pesquisadores que estudam corujas.

Coruja-de-crista (Lophostrix cristata). Foto: Willian Menq
Fato é, que, sem iluminar as corujas com lanternas ou usar flash é quase impossível fazer uma foto. Eu mesmo não saio para uma corujada sem meu flash externo e meu kit de lanternas. Acredito que seja tudo uma questão de bom senso e equilíbrio, igual ocorre com o uso do playback (4). Se o observador/fotógrafo usar de forma responsável e moderada o flash e as lanternas sobre as corujas, e tomar alguns cuidados, os potenciais riscos serão bem menores.

Cuidados como evitar expor o mesmo indivíduo por muitos minutos sob lanternas potentes e flash, evitar feixes altamente focalizados sobre a ave, ou evitar situações que forcem a ave a voar após ou durante uma sessão de fotos, são atitudes louváveis. Regular a câmera antes de fotografar uma coruja, testando-a com fotos de galhos na copa das árvores, também ajuda a diminuir o número de flash’s na ave, além de evitar perder a oportunidade fotográfica.

Além disso, muitas lanternas de led possuem vários modos “econômicos”, onde a incidência de luz é mais fraca, mas o suficiente para focar com a câmera. Alternativamente, pode-se iluminar a coruja com as partes periféricas (mais fracas) do feixe de luz, como demonstrado no vídeo de Thiago Tôledo (link). Assim, além de incomodá-la menos, a probabilidade da ave olhar para o observador durante as fotos acaba sendo maior.


Bibliografia relacionada:

1. Lewis, D. (2015). Owl Eyes & Vision – The Owl Pages.
http://www.owlpages.com/owls/articles.php?a=5
2. Is Flash Photography Safe for Owls? - Audubon: Ethics.
http://www.audubon.org/news/is-flash-photography-safe-owls
3. Atkins, B. (1998) Effects of flash photography on owls - Photo.net.
http://photo.net/learn/nature/owlflash
4. Como, quando e onde observar corujas? Aves de rapina BR
http://www.avesderapinabrasil.com/owlwatching.htm