21 de maio de 2018

A coruja nova do Pico da Neblina

Reprodução: BBC News. 
Em novembro do ano passado, o ornitólogo Luís Fábio Silveira encontrou uma nova espécie de coruja nas florestas do Pico da Neblina.

Durante a primeira grande expedição científica a uma das regiões mais remotas da Amazônia, o Pico da Neblina, o ornitólogo e curador do Museu de Zoologia da USP, Luís Fábio Silveira, encontrou uma nova espécie de coruja para o Brasil (e para a ciência). A nova espécie pertence ao gênero Glaucidium, foi coletada a cerca de 2.200 m de altitude, bem na parte alta do pico.

Silveira conta que ouviu a corujinha cantando numa grota de mata pequena, e a vocalização chamou sua atenção, pois era muito diferente das outras espécies de Glaucidium amazônicas. Após coletar a ave e comparar com a descrição das outras espécies, o ornitólogo constatou que os padrões de plumagem não batem com nada conhecido. Dentre as diferenças mais importantes destaca-se o padrão de faixas da cauda, das asas e nos desenhos da região auricular.

A espécie ainda não tem nome, está sendo descrita por Silveira e em breve teremos mais detalhes.

Indivíduo da nova espécie de Glaucidium coletado por L. F. Silveira. Foto: Canal USP.
Mais informações:

9 de maio de 2018

Testando o Merlin para identificar aves de rapina

Ontem resolvi testar o Merlin para identificar aves de rapina.
Para quem não conhece, o Merlin é um aplicativo desenvolvido pelo laboratório de Ornitologia da Cornell University, é gratuito e está disponível para sistemas iOS e Android.

O aplicativo promete realizar mágicas na identificação de aves. Possui um sistema que consegue identificar as aves a partir de fotos (Merlin Foto ID) usando poderosos algoritmos de visão computacional e tecnologia de aprendizagem profunda.

O aplicativo parece ser muito bom, mas será que ele consegue identificar corretamente nossas aves de rapina, incluindo aquelas de identificação mais complexa?

Vamos aos testes...


Metodologia

Testei a capacidade de identificação do Merlin em quatro diferentes níveis de dificuldade, de fotos mais fáceis para aquelas extremamente difíceis.

Usei 25 fotos de aves de rapina para cada nível. Baixei o pacote “Aves do Brasil - região sudeste” e só usei fotos de espécies com ocorrência na região sudeste.

Quanto aos níveis de dificuldade, classifiquei assim:

1º Nível (Fácil) – Fotos de boa qualidade de espécies comuns e de fácil identificação. Optei por fotos de aves em posições favoráveis (em voo ou pousada), bem iluminadas, focadas e sem galhos ou folhas escondendo parte da ave.

2º Nível (Moderado) - Fotos de boa qualidade de espécies de identificação mais confusa. Aqui incluiu aqueles rapinantes frequentemente envolvidos em erros de identificação no Wikiaves e Facebook, como os jovens de Urubitinga, Buteo, Geranoaetus, Micrastur, Accipiter e alguns morfo escuros.

3º Nível (Difícil) - Fotos de má qualidade ou em posição desfavorável de espécies comuns. Aqui incluiu aquelas fotos distantes, desfocadas, granuladas, ou de indivíduos escondidos entre a vegetação. Resumindo: fotos horríveis, mas ainda identificáveis.

4º Nível (Hardcore) – Fotos bem complexas e algumas “pegadinhas” como, por exemplo, o gavião-de-cabeça-cinza Leptodon cayanensis com plumagem mimética do S. ornatus; falcão-de-coleira Falco femoralis com coloração adventícia ocasionada por cinzas de uma queimada de cana, entre outras. Também incluiu fotos extremamente ruins de espécies confundíveis. Apesar da má qualidade, todas são identificáveis por especialistas.

Para fins de padronização, em todas as solicitações de identificação informei a localidade “Rio de Janeiro/RJ” e a data “01/01/2018”, e por motivos óbvios, evitei usar fotos do site Macaulay Library (que é a base de dados usada pelo aplicativo).


Resultados

Nos testes do nível 1 (fácil) o Merlin foi espetacular, acertou 100% das identificações! Até a foto de um mocho-dos-banhados Asio flammeus em voo não foi suficiente para enganar o poderoso aplicativo da Cornell.

No nível 2 (moderado), o Merlin acertou 80% das identificações (errou 5 das 25 fotos). O aplicativo se saiu muito bem na identificação de muitas fotos difíceis. Tentei enganar o aplicativo com duas fotos do gavião-urubu Buteo albonotatus (uma em voo e outra pousada), mas ele conseguiu identificar tranquilamente. Também conseguiu distinguir um gavião-pombo-grande Pseudastur polionotus do A. lacernulatus e um morfo escuro de Buteo brachyurus.

Por outro lado, o Merlin se enganou com a foto de um caburé Glaucidium brasilianum (ele sugeriu G. minutissimum), errou um gavião-preto Urubitinga urubitinga jovem (sugeriu Parabuteo unicinctus), errou um gavião-asa-de-telha Parabuteo unicinctus jovem (sugeriu Urubitinga urubitinga) e errou um falcão-de-peito-laranja Falco deiroleucus jovem (sugeriu F. peregrinus).

Nos testes do nível 3 (difícil), o Merlin acertou 68% das identificações, ou seja, errou 8 ase 25 fotos. Dentre os erros, o aplicativo se confundiu na foto de um gavião-carijó Rupornis magnirostris em posição estranha, prestes a alçar voo (ele sugeriu um bacurau, C. acutipennis, rsrs). Também se enganou em fotos de jovens pousados de G. albicaudatus, P. unicinctus, H. meridionalis e G. melanoleucus. Outra foto ruim de um Rupornis magnirostris em voo ele não teve sugestões (Atitude nobre, se não sabe é melhor não sugerir né? rsrsrs).

Alguns erros e acertos do Merlin Foto ID nos testes do nível 3 (difícil).
Quantos aos acertos, fiquei impressionado em ver o aplicativo acertando ID de fotos horríveis de alguns gaviões em voo. Aliás, quase todos os acertos desse nível foram de rapinantes em voo.

No nível 4 (Hardcore), que contém fotos complicadas até para muitos ornitólogos, o Merlin teve uma taxa de acertos de 64% das identificações (errou 9 das 25 fotos).

A maioria das fotos complexas que selecionei, o Merlin errou. Dentre os erros, consegui enganá-lo com a foto do Leptodon com plumagem mimética do Spizaetus ornatus (aplicativo sugeriu o S. ornatus), ele errou um gavião-de-rabo-branco Geranoaetus albicaudatus morfo ruivo (sugeriu Buteo brachyurus), errou um Leptodon cayanensis jovem de costas e distante (sugeriu Rupornis magnirostris), errou o Falco femoralis sujo de cinzas (sugeriu Accipiter poliogaster).

Por outro lado, o aplicativo acertou a ID de fotos horríveis de outros indivíduos complicados. Um Accipiter poliogaster jovem, por exemplo, que vi no Facebook várias pessoas identificando erronaeamente como S. ornatus, o Merlin conseguiu acertar. Um Buteo swainsoni em voo, desfocado, de longe, o Merlin também acertou. Outra de um Leptodon cayanensis jovem, forma clara, (que parece muito um Spizaetus melanoleucus), o aplicativo também acertou.

Alguns erros e acertos do Merlin Foto ID nos testes do nível 4 (Hardcore).
Conclusões

O Merlin é realmente um aplicativo poderoso na identificação de aves. Fiquei impressionado em ver o aplicativo identificando muitas fotos difíceis. Também me surpreendi ao descobrir que o sistema de identificação funciona perfeitamente off-line.

O Merlin é quase como um “amigo ornitólogo”, capaz de apontar a espécie correta na maioria dos casos, especialmente em fotos boas e de espécies de aparência inconfundível. Mesmo quando erra uma ID, oferece uma lista de sugestões de espécies (onde geralmente contém a espécie correta).

Pode ser uma ferramenta muito útil para fotógrafos e observadores de aves, principalmente iniciantes. Uma “mão na roda” para ajudar o pessoal na hora de identificar uma ave de rapina.

Mas como todos e tudo, não é perfeito, em fotos de espécies mais complexas ou fotos muito ruins a taxa de acertos cai consideravelmente. Nos meus testes o aplicativo teve dificuldades em distinguir alguns jovens gaviões (ex. Urubitinga urubitinga, Parabuteo unicinctus) pousados e algumas espécies com variações de plumagens incomuns. Por isso, sempre que tiver dúvidas procure a opinião de um especialista (ou de outro especialista rsrs).


Obs: O Merlin está em versão beta, a tendência é que melhore cada vez mais.

25 de abril de 2018

Novo site Aves de rapina Brasil está no ar!

Finalmente está no ar o novo site Aves de rapina Brasil (www.avesderapinabrasil.com.br), com novo conteúdo e visual.

O site é a mais completa obra dedicada as aves de rapina do Brasil, praticamente um "livro online".
O site traz informações detalhadas e atualizadas de todas as 99 espécies de rapinantes com ocorrência no Brasil, com textos originais compilados através de mais de 300 referências bibliográficas e observações de campo minhas e de outros pesquisadores.

Dentre as novidades do novo site, destaca-se as diversas opções de busca das espécies. Agora é possível pesquisar as aves a partir de uma lista ilustrada, pela área de ocorrência ou por listas regionais. Para auxiliar na identificação de gaviões é possível pesquisar fotos em voo das principais espécies planadoras do Brasil, incluindo suas variadas formas e fases de plumagem. Há também uma seção de busca personalizada, onde é possível procurar as aves de rapina a partir de sua abundância, popularidade, dieta preferencial, status de ocorrência e status de conservação.

A seção “artigos” apresenta várias publicações de divulgação científica cujo tema central é as aves de rapina. Há também uma seção dedicada à observação de aves de rapina, com dicas para a observação e identificação de rapinantes, recomendações para o uso de playback, e etc.

Outra seção “dúvidas e curiosidades” desmistifica mitos e farsas envolvendo as aves de rapina, além de algumas curiosidades sobre essas aves. Nessa seção é possível encontrar matérias como “a lenda das águias é verdadeira ou falsa?”, “diferenças entre águias, gaviões e falcões”, “como os rapinantes se orientam na migração?”, e assuntos do tipo.

O logo também é novo, foi produzido pelo artista e naturalista Frederick Pallinger (autor do livro Tucanos e Araçaris Neotropicais), que já produziu inúmeras ilustrações hiper-realistas de aves e outros animais. O gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), representado no logo, é a espécie símbolo do site desde sua criação. É uma ave bela, imponente e pouco conhecida entre o público leigo, sendo uma ótima espécie para conquistar a atenção e o carisma das pessoas.

Ressalto que todos os textos do site são originais (editados e revisados por mim) e acessíveis para todo o tipo de leitor, de biólogos e professores até pessoas leigas. Todas as páginas são ricamente ilustradas graças à colaboração de mais de 350 fotógrafos e biólogos de diversas partes do Brasil.

Explore o site e surpreenda-se com a riqueza de aves de rapina existentes no Brasil, muitas delas habitantes de sua região.

Textos são originais, atualizados e acessíveis para todo o tipo de público. 

É possível procurar fotos em voo das principais espécies de rapinantes planadores do Brasil.

Diversas opções de pesquisa, é possível pesquisar as aves através de sua abundância, popularidade, habitat preferencial, dieta, status de ocorrência e status de conservação.


Seção "dúvidas e curiosidades" desmistifica farsas e mitos envolvendo as aves de rapina, além de esclarecer as principais dúvidas sobre essas aves.

Aves de rapina Brasil

4 de outubro de 2017

Os sovis-do-norte (Ictinia mississippiensis) já estão aparecendo no Brasil

Hoje pela manhã, 04/10/2017, os observadores de aves Fabyano Costa e Wagner Freitas registraram um bando de sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis), com aproximadamente 20 indivíduos, sobrevoando a área rural de Terenos/MS, município vizinho a Campo Grande. É o primeiro registro da espécie em território brasileiro para a temporada de 2017/2018.

Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) registrado no dia 04/10/2017 em Terenos/MS. Foto: Fabyano Costa.


Essa espécie tem como destino final o norte da Argentina, Paraguai e o pantanal brasileiro, provavelmente o bando registrado pelos observadores estavam de passagem pela região. Não é a primeira vez que os sovis-do-norte são avistados na região Campo Grande. No Wikiaves por exemplo, em março/2013 e em setembro e dezembro de 2015, alguns bandos também foram avistados de passagem em Campo Grande e Terenos, indicando que a região central do Mato Grosso do Sul está na rota migratória regular da espécie.

Atenção observadores de aves que residem ou vão viajar para o Acre, oeste do Amazonas, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Fiquem atentos!! A partir dessa semana, os bandos de sovis-do-norte (Ictinia mississippiensis) e gaviões-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) vão começar a passar por essas regiões.

Mais informações em:
http://blog.avesderapinabrasil.com/2017/09/as-nuvens-de-migrantes-que-cruzam.html


29 de setembro de 2017

As “nuvens de migrantes” que cruzam a América do Sul em outubro.

Nas próximas semanas, grupos com milhares de rapinantes migratórios oriundos do hemisfério norte vão cruzar a floresta amazônica, especialmente os Estados do Acre e oeste do Amazonas.
Na imagem, milhares de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus) em uma térmica de migração no México. Foto: Pablo Camacho.
*por: Willian Menq. 
No mês de outubro, grupos com milhares de rapinantes migratórios da América do Norte podem ser avistados cruzando os países da América Central e do Sul. Na Costa Rica, por exemplo, é possível avistar mais de 8 mil indivíduos em pouco menos de três horas, tornando-se verdadeiras “nuvens de migração”. No Brasil, no entanto, são raríssimos os avistamentos das nuvens de migrantes.

Essas nuvens de migração são compostas por uma ou mais espécies que migram em bandos, como o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni), sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) e o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura).

No Brasil, bandos numerosos de gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) e sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) podem ser registrados no Acre, oeste do Amazonas e noroeste de Rondônia, áreas nas quais fazem parte da rota de migração dessas aves.

• Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis)
Os bandos de sovi-do-norte (I. mississipiensis) cruzam a região amazônica (Acre e oeste do Amazonas) entre a primeira e a segunda semana de outubro. Além disso, parte desses bandos têm como destino final o pantanal do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde permanecem de novembro a março. Outra parte da população se instala no Paraguai e norte da Argentina.

Essa espécie é frequentemente confundida com o sovi (Ictinia plumbea), que é mais comum. Porém, o sovi-do-norte é identificado pela ausência de ferrugíneo nas primárias das asas e pela cauda toda negra. Já os jovens de ambas espécies possuem a cauda barrada, distinguindo-se pelo avermelhado das primárias, presente no jovem I. plumbea e ausente no jovem I. mississippiensis.



Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni)
A grande nuvem de migração de B. swainsoni costuma cruzar o Acre e o oeste do Amazonas entre a segunda e a terceira semana de outubro. O destino final dessa espécie é o norte da Argentina, onde permanece de novembro a março. Alguns indivíduos, especialmente jovens, se perdem durante o trajeto migratório e podem ser avistados como vagantes em outras partes do Brasil, especialmente na região sul e sudeste.

O gavião-papa-gafanhoto é altamente polimórfico e muito parecido com outros buteonines residentes do Brasil, diferenciando-se principalmente pela coloração marrom-escuro da cabeça e pescoço contrastado com a garganta clara, e silhueta de asas extensas e levemente pontiagudas. O jovem é predominantemente branco por baixo, com um pouco de estriado escuro nas laterais do pescoço e pintas dispersas no ventre.



• Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus)
Diferente dos outros, o B. platypterus tem como destino final a floresta amazônica, migra em bandos de centenas a milhares de indivíduos e permanece nas áreas de invernagem solitário. Dessa forma, é possível encontrar tanto bandos numerosos em migração quanto indivíduos solitários em seu destino final. Os bandos começam a adentrar o norte do Brasil entre o final de setembro e as primeiras semanas de outubro, onde permanecem até meados de março e abril. Além disso, alguns indivíduos ultrapassam a região amazônica e aparecem como vagantes no sul e sudeste do Brasil.



• Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura)
As populações de urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) da América do Norte também são migratórias. A partir do final de agosto e início de setembro essa espécie reúne-se em bandos de milhares de indivíduos e migra para a América Central e do Sul, com alguns indivíduos adentrando território brasileiro. Há também populações do extremo sul da América do Sul (Patagônia) que realizam migrações austrais, aparecendo no norte do Brasil e países vizinhos entre os meses de maio e setembro, fugindo do rigoroso inverno da Patagônia. Em resumo, além das populações residentes de C. aura do Brasil, há indivíduos que aparecem no país oriundos do hemisfério norte e outros oriundos do extremo sul do continente.

Urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) migratórios, em "térmica de migração", voando junto a alguns Buteo swainsoni. Costa Rica. Foto: Willian Menq.

Além dessas espécies, há outras três espécies de rapinantes do hemisfério norte que cruzam as Américas rumo ao Brasil e outros países da América do Sul, são elas: o falcão-peregrino (Falco peregrinus), esmerilhão (Falco columbarius) e a águia-pescadora (Pandion haliaetus). Porém, estas últimas não migram em grupos, são solitárias.

Onde essas espécies estão agora?
Atenção observadores de aves do Acre e oeste do Amazonas! Semana passada, bandos de sovi-do-norte (I. mississipiensis) com mais 1 mil indivíduos foram avistados de passagem no noroeste da Colômbia. De acordo com os dados do eBird, desde o dia 14 de setembro, bandos com mais de 2 mil indivíduos estão sendo observados de passagem nos países da América Central. A previsão é que os bandos cruzem o Acre e o oeste do Amazonas nas duas primeiras semanas de outubro. Já o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) irá cruzar o Acre e o oeste do Amazonas entre a segunda e a terceira semana de outubro. Neste momento, a maioria dos indivíduos de B. swainsoni estão deixando seus sítios reprodutivos na América do Norte. O gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), por sua vez, começou a adentrar o território brasileiro a poucos dias, e milhares estão cruzando a América Central, conforme atesta os dados do eBird.

Mais informações sobre as espécies:
Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) - Link
Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) - Link
Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) - Link
Falcão-peregrino (Falco peregrinus) - Link
Esmerilhão (Falco columbarius) - Link
Águia-pescadora (Pandion haliaetus) - Link

30 de agosto de 2017

Os rapinantes migratórios chegaram!!


*por: Willian Menq. 
Setembro é o pico de chegada dos migrantes austrais na Mata Atlântica. O gavião-bombachinha (Harpagus diodon), o sovi (Ictinia plumbea) e o gavião-tesoura (Elanoides forficatus) já podem ser registrados no sudeste, sul e parte do centro-oeste do Brasil, onde permanecem até fevereiro e março de 2018.

Essas três espécies realizam suas longas jornadas pelo continente através de voos planados, usando as correntes de ar ascendentes (térmicas) como “elevadores” para ganhar altura e se deslocar. Assim, voam de 150 a 400 km por dia, demorando de uma a duas semanas até o destino final. Normalmente realizam os deslocamentos migratórios em alturas que variam de 500 a 2.000 m, quando há térmicas favoráveis. Como gastam pouca energia com o voo planado, essas aves realizam pouquíssimas paradas diurnas para descanso e/ou alimentação.

Aves de rapina migratórias que aparecem a partir de agosto/setembro no sul, sudeste e centro-oeste do Brasil. 1 - sovi (Ictinia plumbea), 2 - gavião-bombachinha (Harpagus diodon), 3 - gavião-tesoura (Elanoides forficatus). Fotos: W. Menq.

O sovi (I. plumbea) e o gavião-tesoura (E. forficatus) são rapinantes sociáveis, realizam as migrações em grupos de dezenas a centenas de indivíduos, também permanecem nas áreas reprodutivas e de invernagem em grupos. Se reunindo em bandos, fica mais fácil localizar as correntes térmicas e usá-las de forma mais efetiva, além de afastar predadores das áreas reprodutivas com mais eficiência. E como se alimentam basicamente de insetos voadores, bastante abundantes nas estações quentes, esses grupos não têm problemas com escassez de alimento.

Pouco sabemos sobre os movimentos migratórios desses gaviões na América do Sul. Informações como rotas migratórias, fidelidade aos locais de invernagem/nidificação, ainda são pouco compreendidas. Sabemos que as aves de rapina migratórias do hemisfério norte, como o falcão-peregrino (Falco peregrinus), a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsonii), usam as mesmas rotas migratórias e são fiéis aos locais de nidificação e invernagem. Assim, é possível que o gavião-tesoura, sovi e o gavião-bombachinha também sejam fiéis aos locais de nidificação e de invernagem, usando as mesmas rotas migratórias em suas viagens entre a Mata Atlântica e Amazônia, hipótese já levantada em postagens anteriores (link).

Figura 1. Padrão de migração do gavião-tesoura (Elanoides forficatus) no Brasil. 1) De abril a julho, os E. forficatus estão concentrados na região amazônica, onde também há populações vindas da América Central. 2) Em julho/agosto, os E. forficatus iniciam seus movimentos para a Mata Atlântica (incluindo parte do centro-oeste), e nesse período grandes bandos podem ser registrados em migração. Em setembro, os E. forficatus já atingiram seu destino final de migração, e algumas populações iniciam o período reprodutivo na Mata Atlântica. Em fevereiro/março iniciam a viagem para a Amazônia, onde bandos podem ser vistos em migração.
Bando de gavião-tesoura (Elanoirdes forficatus), com mais de 200 indivíduos, registrado em 11/03/2013 na área urbana de Maringá, provavelmente em migração rumo ao norte do Brasil. Foto: Elirani Fernandes.

Nos meses de outubro e novembro é a vez dos rapinantes migratórios do hemisfério norte aparecer no Brasil, são eles o falcão-peregrino (Falco peregrinus), águia-pescadora (Pandion haliaetus), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsonii), sauveiro-do-norte (Ictia mississippiensis) e o esmerilhão (Falco columbarius).

E você, já registrou a chegada dessas espécies em sua região? Caso sim, comente e publique seus registros no Wikiaves, Táxeus ou eBird, seus dados podem auxiliar programas de monitoramento e conservação de aves, saiba mais.

Quer saber mais sobre a migração das aves de rapina do Brasil?
Leia o artigo: As aves de rapina migratórias.

22 de agosto de 2017

Cor da cera e o humor dos caracarás

Os caracarás são capazes de alterar a cor das partes nuas da face conforme seu estado de “humor”, sendo uma importante ferramenta na emissão de sinais sociais.


*por: Willian Menq. 
Cera é a área nua e carnuda presente na base da maxila das aves, bem desenvolvida em algumas espécies, como nos falcões, gaviões, pombos, corujas, papagaios, entre outros. A coloração, a textura e o formato dessa estrutura varia conforme a espécie. Além de abrigar as narinas, a cera pode ser útil na sinalização da fase reprodutiva ou na diferenciação de macho e fêmea de certas espécies de aves.

Nos caracarás (Caracara plancus e Caracara cheriway) a cor da cera está relacionada ao estado de humor da ave. Quando os caracarás estão em repouso ou relaxados, a cera apresenta-se em cor vermelha ou laranja, alterando-se para o amarelo brilhante quando estão agitados/estressados ou excitados. Porém, a cor da cera dessas aves não pode ser interpretada apenas a estar “relaxada” ou “agitada”, ela também é muito útil na emissão de sinais sociais em interações agonísticas.

Na Flórida/EUA, o pesquisador James F. Dwyer (2014) conduziu um estudo sobre a relação da cor da cera com as interações inter e intraespecíficas dos caracarás-do-norte (C. cheriway). O autor observou que as cores da cera exibidas entre os caracarás de uma interação agonística está relacionada ao papel dos participantes nas interações. Os caracarás agressores (dominantes) exibiam cera de amarelo brilhante, enquanto que os caracarás receptores (submissos) apresentavam cera vermelha.

Isso foi observado tanto em interações entre caracarás, quanto em interações com outras espécies (urubus, Coragyps e Cathartes). Mesmo indivíduos jovens de caracarás, que normalmente possuem ceras em tons rosados, tornavam-se amarelo durante interações agonísticas nas quais eram agressores. O autor observou que os caracarás vencedores (que exibiam a cera amarela durante as disputas de comida), normalmente eram os que se alimentavam da carcaça contestada, enquanto que os perdedores (que exibiam cera laranja) se afastavam do local.

Cor da cera do caracará-do-norte (Caracara cheriway) em distintas situações. A) Indivíduo jovem em repouso, com cera avermelhada; B) Jovem durante comportamento agonístico (head-back display), exibindo cera amarelada; C) Adulto em repouso, exibindo cera avermelhada, D) Adulto em comportamento agonístico (head-back display), exibindo cera amarela. Fotos: James F. Dwyer; adaptado de Dwyer (2014).
Essa relação da cor da cera com o papel dos participantes nas interações agonísticas, faz muito sentido para mim. Todas as vezes que observei caracarás (C. plancus) brigando, o agressor exibia a cera amarelo brilhante, e o que apanhava apresentava (ou passava a apresentar) a cera vermelha, como se estivesse dizendo "por favor, não quero mais brigar".

Caracarás (Caracara plancus) brigando por local de forrageio. A) À esquerda, adulto dominante exibindo a cera amarela agredindo um jovem (exibindo cera rósea). B) Adulto agressor no local contestado, e à direita o jovem submisso afastado exibindo a cera avermelhada.
Os benefícios da sinalização através da coloração da cera são bens discutidos entre os especialistas. Os indivíduos submissos, ao sinalizar sua condição de submissão, acaba facilitando o encerramento da briga, diminuindo assim o risco de uma lesão grave. Já o indivíduo agressor, ao sinalizar sua condição de dominante, intimida as outras aves, diminuindo os custos de tempo e energia, permitindo consumir os recursos defendidos ou redirecionar a agressão para outras aves (Bower 2005, McGregor 2005, Lehner et al. 2011).

E como os caracarás conseguem alterar a cor da cera?
Os caracarás conseguem alterar a cor da cera graças a alta vascularização presente nesta área da face. O sangue flui rapidamente através dos vasos sanguíneos da superfície deixando a cera em tons vermelhos. Quando os caracarás se tornam agitados, o fluxo de sangue na área é interrompido, deixando a cera de cor amarela ou pálida. Interessante que essas mudanças na cor da cera dos caracarás pode ocorrer em poucos segundos.

Vale ressaltar que em muitos outros falconídeos, a cor da cera está relacionada a idade ou ao sexo da ave. Esse é o caso do chimango (Milvago chimango), o macho adulto possuí a cera e os tarsos de cor amarelo brilhante, enquanto que a fêmea e o jovem possuem a cera rósea e os tarsos azulados.

Em alguns falconídeos do gênero Falco, a cor da cera indica apenas a idade da ave. Os jovens do falcão-peregrino (Falco peregrinus) e do falcão-de-peito-laranja (Falco deiroleucus), possuem a cera em tons azulados, enquanto que os adultos possuem a cera amarela. Além disso, nessas aves é comum a cera possuir cores mais brilhantes no período reprodutivo, como resultado da ação de hormônios. Já falcões pequenos, como o quiriquiri (Falco sparverius), a cor da cera é igual entre os sexos e idades, sem nenhuma alteração ao longo da vida.

À esquerda, macho adulto de chimango (Milvago chimango), que possuí cera e tarsos de cor amarelo brilhante; e à direita, fêmea adulta, que apresenta cera rósea e tarsos azulados. Foto: Paulo Fenalti.
Diferenças na cor da cera entre as idades. À esquerda, jovem falcão-peregrino (F. peregrinus) de cera azulada. À direita, adulto do falcão-peregrino (F. peregrinus) de cera amarelo brilhante. Fotos: Willian Menq.


Literatura relacionada:
Dwyer, J. F. (2014) Correlation of Cere Color with Intra- and Interspecific Agonistic Interactions of Crested Caracaras. Journal of Raptor Research 48:240-247.

Negro, J. J., Sarasola, J. H., F. Fariñas, & I. Zorrilla (2006) Function and occurrence of facial flushing in birds. Comparative Biochemistry and Physiology Part A: Molecular & Integrative Physiology 143:78-84.

Sarasola, J.H., Negro, J.J., Bechard, M.J. & A. Lanusse (2011) Not as similar as thought: sexual dichromatism in Chimango caracaras is expressed in the exposed skin but not in the plumage. Journal of Ornithology 152 (2):473-479.


Leia também:
Funções da coloração da plumagem das aves de rapina. Aves de Rapina Brasil.
Disponível em: http://www.avesderapinabrasil.com/arquivos/artigos/ARB4_7.pdf

16 de agosto de 2017

I Congresso de Ornitologia das Américas

*por: Willian Menq. 
Semana passada, aconteceu entre os dias 8 e 11 de agosto o I Congresso de Ornitologia das Américas, na cidade de Puerto Iguazú - Argentina, organizado conjuntamente pela Association of Field Ornithologists, Sociedade Brasileira de Ornitologia e Aves Argentinas.

O evento reuniu pesquisadores de todas as regiões das Américas, com predominância de brasileiros e argentinos. Houveram cerca de 350 apresentações científicas e sete conferências plenárias. Participei do congresso acompanhado de minha esposa Jessica Nascimento, das amigas Simone Mamede, Maristela Benites, e dos amigos Pedro Scherer-Neto e Ricardo Ribeiro. Também conheci e revi alguns amigos distantes.

Nas sessões científicas, além dos estudos clássicos de ecologia, comportamento e evolução, haviam muitos trabalhos sobre o uso da ciência-cidadã na compreensão de impactos, padrões biogeográficos e conservação de aves. Stephanie C. Schubert, por exemplo, falou sobre o uso do banco de dados do Wikiaves como ferramenta para compreensão da migração de aves brasileiras; Lucas W. Degroote discutiu sobre o uso da ciência-cidadã na elucidação de colisões com aves em vidraças; Luciano M. Lima usou a ciência-cidadã para compreender os padrões biogeográficos de vários táxons da Mata Atlântica; Simone Mamede falou sobre o mapeamento dos registros de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) aliado a ciência-cidadã na região da Serra de Maracajú, MS.

Falando em aves de rapina, vários estudos com rapinantes foram apresentados no congresso, em sua maioria bem interessantes. Dos que eu pude ler ou assistir, destaco o trabalho do José H. Sarasola sobre a eletrocussão de aves de rapina em postes de energia na Argentina; do Maximiliano Galmes sobre o sucesso reprodutivo da águia-cinzenta (Urubitinga coronata) na região central da Argentina; da Maristela Benites sobre o monitoramento de um ninho de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) na Serra do Maracajú, MS; da Jessica Nascimento sobre a composição de corujas na área urbana de Campo Grande, MS; do Santiago Zuluaga sobre a ecologia de movimentos aplicada à conservação de aves ameaçadas, incluindo o Spizaetus isidori e Urubitinga coronata; do J. Monsalvo sobre as espécies da região neotropical com escassas informações acerca de sua da biologia reprodutiva; da Natalia Rebolo sobre o espaço aéreo do condor-andino (Vultur gryphus) e os conflitos com as atividades humanas; além de muitos outros, infelizmente não dá para citar todos aqui.

Livro de resumos do congresso disponível neste link.

No congresso apresentei os resultados preliminares de um estudo antigo sobre a eficiência do playback na detecção de corujas florestais. Através de informações obtidas de forma eventual em corujadas pelo interior do Paraná, fiz uma comparação entre duas técnicas para amostragem de corujas: 1) ponto de escuta, e 2) playback. Como esperado, o playback demonstrou ser bastante eficiente na detecção de corujas, especialmente nas espécies do gênero Strix e Pulsatrix, aumentando de 30 a 80% o sucesso nas taxas de contato com as espécies.

Sessão de painéis do dia 09 de agosto. Foto: W. Menq

Apresentando trabalho sobre a eficiência do playback na detecção de corujas florestais. Foto: Jessica Nascimento.
A cidade anfitriã do evento, bem como toda a região (incluindo Foz do Iguaçu, Brasil), é dominada pela Floresta Estacional Semidecidual, um tipo vegetacional da Mata Atlântica. Além dos atrativos de beleza cênica e áreas naturais, como as cataratas do Parque Nacional do Iguaçu, a região possui uma riqueza de aves impressionante, com quase 500 espécies catalogadas. Aproveitamos a estadia na cidade para ir a Foz do Iguaçu passarinhar nas trilhas do Parque Nacional do Iguaçu, visitar o Parque das Aves e o Refúgio Biológico Bela Vista. Do lado argentino, fomos no centro de resgate e reabilitação Guira Oga e no famoso jardim dos beija-flores.

Jacutinga (Aburria jacutinga) registrada na trilha de acesso às Cataratas do Iguaçu. Foto: W. Menq

Harpia (Harpia harpyja) fêmea, do projeto de reprodução de harpias do Refúgio Biológico Bela Vista,
Foz do Iguaçu/PR. Foto: W. Menq.

Visitando o Parque das Aves na companhia dos amigos Pedro Scherer-Neto, Edmilson, Macedo, Simone Mamede, Maristela Benites e Jessica Nascmento. Foz do Iguaçu/PR.
Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) do centro de resgate e reabilitação Guira Oga, Puerto Iguazú, Argentina. Foto: W. Menq.

Anacã (Deroptyus accipitrinus) no recinto do Parque das Aves, Foz do Iguaçu/PR. Foto: W. Menq.