4 de agosto de 2017

Corujas atraídas pelo som de outras corujas: defesa territorial ou predação?

Na maioria das vezes é defesa territorial, mas dependendo do comportamento e das espécies envolvidas, a situação pode ser de predação!

Coruja-listrada (Strix hylophila) atraída pelo playback de caburé-acanelado (Aegolius harrisii).
Foto: W. Menq, Campos do Jordão/SP.
Durante execuções de playback, é comum as corujas responderem o canto de outra espécie (playback cruzado). Isso ocorre, pois são aves territoriais, defendem seu território através de chamados e comportamentos agonísticos contra qualquer opositor.

Já registrei diversas vezes a coruja-do-mato (Strix virgata) vindo no som de coruja-preta (Strix huhula), murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) aparecendo no som de coruja-do-mato (Strix virgata), corujinha-do-mato (Megascops choliba) aparecendo no som de corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae), e vice-versa. Normalmente, em situações de defesa territorial, as aves atraídas pelo playback cantam freneticamente para afastar/intimidar o rival, seja ele da mesma espécie ou não.

Mas nem sempre a intenção da coruja atraída é a de afastar o opositor. Dependendo das espécies envolvidas o comportamento pode ser atribuído ao de predação.

Em junho de 2013, durante uma corujada na área rural de Campos do Jordão/SP, fui surpreendido por um vulto de uma grande coruja que pousou em uma Araucária bem a minha frente. Era uma coruja-listrada (Strix hylophila), que apareceu silenciosamente atraída pelo playback do caburé-acanelado (Aegolius harrisii). Considerando que a coruja apareceu discretamente, em um poleiro à baixa altura, e sem vocalizar, é possível que ela estava interessada em predar o simulado caburé-acanelado (A. harrisii), que tem um terço de seu peso.

Observações de predações entre corujas são raras de serem obtidas na natureza, mas essas interações devem ser mais frequentes do que imaginamos. Algumas espécies grandes, como as do gênero Pulsatrix e Asio, são afamadas predadoras de aves, capturando desde periquitos e saíras dormindo em seus poleiros noturnos, até aves do seu próprio tamanho (veja aqui).

No Brasil, existem alguns registros de murucututu (Pulsatrix perspicillata), jacurutu (Bubo virginianus) e mochos (Asio spp.), predando corujas menores, como as do gênero Athene e Megascops. No município de Itarumã/GO, D. Mota (com. pess.) encontrou no ninho de murucututu (Pulsatrix perscipillata), restos de uma coruja-buraqueira (Athene cunicularia). Em Lavras/MG, K. Santos (com. pess) encontrou no ninho de jacurutu (B. virginianus), restos de uma suindara (Tyto furcata).

À esquerda, filhote de murucututu (P. perspicillata) no ninho, com carcaça de uma coruja-buraqueira (Athene cunicularia). Foto: Danilo Mota. À direita, filhotes de jacurutu (Bubo virginianus) no ninho, com restos de uma suindara (Tyto furcata). Foto: Kassius Santos.
Devido a vulnerabilidade, é comum espécies pequenas serem inibidas (silenciando-se) durante a reprodução do playback de espécies maiores.

Não só o playback de corujas pequenas pode chamar a atenção das corujas maiores, o canto de outras aves noturnas também. Recentemente, durante uma amostragem noturna no Parque Estadual do Cunhambebe, em Mangaratiba/RJ, vivenciei uma situação parecida. Quando tentava atrair um joão-corta-pau (Antrostomus rufus) com playback, uma murucututu-de-barriga-amarela (P. koeniswaldiana) apareceu silenciosamente em um poleiro baixo à frente de mim, provavelmente interessada em capturar o possível bacurau. Sorte dele que não apareceu!

Murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) atraída pelo playback de um joão-corta-pau (Antrostomus rufus). Foto: W. Menq, Mangaratiba/RJ.
E você, já viu alguma coruja grande vindo no som de uma menor?

7 de julho de 2017

Tauató-pintado (Accipiter poliogaster): raro ou discreto?

O tauató-pintado é um dos rapinantes mais enigmáticos do Brasil. Na imagem, fêmea adulta encontrada na borda de um plantio de Eucaliptus. Nova Trento/SC. Foto: Willian Menq. 

O tauató-pintado (Accipiter poliogaster) é um dos gaviões mais enigmáticos e “cobiçados” entre os apaixonados por aves de rapina. De ampla distribuição, ocorre em toda a América do Sul, incluindo grande parte do Brasil.

Porém, é extremamente difícil registrá-lo na natureza, mesmo em áreas com ocorrência conhecida ou com registros recentes, o encontro com a espécie é incerto. Por isso, é frequentemente apelidado pelos ornitólogos e birdwatchers de “gavião fantasma”.

Apesar da ampla distribuição geográfica, os registros de A. poliogaster são pontuais e escassos, o que poderia ser interpretado como uma raridade natural ou, ainda, por se tratar de uma espécie de difícil detecção em amostragens de campo. No Wikiaves por exemplo, até a presente data (7 de julho de 2017), apenas 50 municípios brasileiros possuem registros de A. poliogaster, sendo a maioria (60%) obtidos nos Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Na região amazônica, somente 8 municípios apresentam registros da espécie no site, informações que demonstra o baixo número de contatos com a espécie entre os observadores de aves.

Pouco sabemos sobre sua biologia e comportamento. Analisando os dados disponíveis na literatura e nos bancos de dados online, o A. poliogaster parece ter uma razoável plasticidade quanto ao uso de habitat, com ocorrência documentada desde em florestas primárias, borda de mata, matas ciliares, até áreas mais degradadas. No Estado de Santa Catarina, já tive oportunidade de registrar o A. poliogaster tanto em áreas razoavelmente preservadas de Matas-de-Araucária até em locais bem alterados, incluindo plantios de Eucaliptus e Pinus. Supõe-se que a espécie ocorra em todas as áreas florestadas do sul e sudeste do Brasil, região amazônica e nos encraves florestais da região centro-oeste. Em relação a dieta, alimenta-se principalmente de aves, gosta de caçar rolinhas (Columbina, Zenaida), juritis (Leptotila) e alguns tinamídeos (Crypturellus).

Fêmea adulta registrada no interior de uma Mata-de-Araucária, Irineópolis/SC. Foto: Willian Menq.
Ao que tudo indica, a dificuldade de encontra-lo na natureza está associada ao seu comportamento inconspícuo. É um gavião discreto, raramente plana ou sobrevoa a floresta, e quando resolve voar acima da mata ou cruzar entre remanescentes florestais é rápido. Além disso, o A. poliogaster possui um temperamento arisco e desconfiado, indivíduos adultos dificilmente permitem a aproximação humana, e ao perceber a aproximação de uma pessoa evade-se rapidamente por entre a ramagem. Dessa forma, a maioria dos contatos visuais são curta duração, que dificulta a localização ou mesmo a identificação precisa da espécie.

Além do comportamento discreto e arredio, o A. poliogaster possui diferentes plumagens que pode gerar confusões nas identificações. O macho adulto pode ser confundido com o subadulto de A. bicolor (gavião-bombachinha-grande). A fêmea adulta pode ser confundida com o jovem A. bicolor bicolor, subespécie da região amazônica que possui o ventre branco e o dorso escuro muito similar a ela. Adultos também são parecidos com o Micrastur mirandollei (falcão-tanatau), inclusive há um artigo sobre a nidificação de A. poliogaster que foi erroneamente identificado como sendo M. mirandollei (ver Thorstrom 2002). Já os jovens de A. poliogaster possuem plumagem que imita a do Spizaetus ornatus (gavião-de-penacho). Devido a essa plumagem diferente dos jovens, até poucas décadas atrás acreditava-se que o jovem era uma espécie à parte, erroneamente descrita como Accipiter pectoralis.

Por essas razões, comportamento e dificuldade de identificação, acredito que o A. poliogaster seja mais subamostrado do que raro. Essa ave é mais facilmente detectável no período reprodutivo, quando vocaliza com maior frequência. Também costuma vocalizar e dar voos rasantes contra qualquer intruso que se aproxima da área do ninho.

Possível distribuição geográfica do tauató-pintado (Accipiter poliogaster) na região neotropical.


Veja também:


Bibliografia relacionada:

Boesing, A. L., W. Menq & L. Anjos (2012) First description of the reproductive biology of the Grey-bellied Hawk (Accipiter poliogaster). The Wilson Journal of Ornithology 124 (4): 767–774.

Kaminski, N.; Tres, D.R. (2011) Primeiro registro documentado do Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) para o Estado de Santa Catarina, Brasil Nuestras Aves, 56:31-33.

Lanzer, M., M. A. Villegas, & M. Aurelio-Silva. (2009) Primeiro registro documentado de Accipiter poliogaster (Temminck, 1824) no estado do Parana, sul do Brasil (Falconiformes: Accipitridae). Revista Brasileira de Ornitologia 17:137-138.

Melnyk, K., Gelis, R. A., Hopkins, W. A., Vaca, F. & Moore, I. T. (2013) Gray-bellied Hawk (Accipiter poliogaster) Observed Feeding on a Tinamou in Yasuni Biosphere Reserve, Ecuador. J. Raptor Res. 47(3):330–332.

Menq, W. (2016) Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) - Aves de Rapina Brasil. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/accipiter_poliogaster.htm > Acesso em: 7 de Julho de 2017

Thorstrom, R. (2002) Comments on the first nesting record of the nest of a Slaty-backed Forest-falcon (Micrastur mirandollei) in the Ecuadorian Amazon. Journal of Raptor Research 36:335-336.

28 de junho de 2017

Águias atacam crianças? Verdade ou mito?

Gavião-real pode capturar uma criança? Vídeo de uma águia capturando um bebê é verdadeiro ou falso? Águia tentou carregar um menino na Austrália?





Frequentemente vejo pessoas compartilhando nas redes sociais um famoso vídeo de uma águia-real capturando um bebê no solo. Também já ouvi pessoas comentando que a harpia Harpia harpyja (também chamada de gavião-real), pode atacar crianças. Inclusive, comunidades ribeirinhas no norte do Brasil acreditam piamente nisso, existindo até “supostos relatos”.

Obviamente, tanto a história da harpia quanto o vídeo são FALSOS!!!

Não existe nenhum relato no Brasil ou no mundo de uma harpia (Harpia harpyja) ou de outra águia em vida livre, capturando ou atacando uma criança com intuito de alimentação. Na verdade, as águias (Accipitridae em geral) são ariscas e preferem manter distância dos seres humanos, muitas vezes possuindo grande aversão a nossa presença.

A maioria das águias capturam presas pequenas, que pesam de 300 g a no máximo 7 kg. E mesmo as espécies que capturam bugios e macacos (de 3 a 7 kg) como a harpia, não representam nenhum risco ao ser humano, sendo pouco provável um ataque contra crianças. Essas aves sabidamente identificam a nossa espécie como ameaça e não como alimento.

As únicas situações que deixam as aves de rapina agressivas ao ponto de atacar uma pessoa, é quando alguém se aproxima/manipula seu ninho ou filhotes. E como bons pais, defendem os filhotes a qualquer custo, podendo executar voos rasantes ou contato direto com as garras no intruso. Adicionalmente, aves em cativeiro sob estresse, também podem se tornar agressivas, assim como todo animal.

Águia tentando capturar menino na Austrália? É verdade?

No ano passado, vários sites de notícias veicularam o caso de uma águia (Aquila audax) que supostamente tentou capturar um menino de 8 anos durante um evento na Austrália. Várias manchetes diziam “águia tenta carregar criança”, “águia gigante quase captura um menino”, e outros títulos sensacionalistas do tipo.

Segundo informações, o caso ocorreu durante uma apresentação de aves de rapina no Alice Springs Desert Park, norte da Austrália. Durante a apresentação, a águia (que era treinada) voou em direção ao menino, grudou no seu casaco e “tentou carregá-lo”. Funcionários do parque acreditam que a ave tenha sido atraída pelos movimentos das mãos do garoto, que tirava e vestia o capuz do casaco repetidamente durante a apresentação. Felizmente, apesar do susto, o garoto sofreu apenas um arranhão.

Manchetes sensacionalistas sobre o "ataque" da águia na Austrália.
Esse caso da Austrália é verídico, porém, houve um exagero e má interpretação do comportamento pela mídia. Dizer que a ave tentou carregar a criança é um completo exagero!!

Para mim, parece óbvio que águia não tentou capturar o menino, ela nem é capaz (morfologicamente e ecologicamente) de executar tal tarefa contra uma criança, por motivos já explicados parágrafos acima. A ave atacou o garoto por outro motivo, talvez tenha associado o movimento das mãos do menino com a disponibilidade de alimento, já que os falcoeiros normalmente alimentam essas aves chamando-as com execução de movimentos das mãos ou com apitos, disponibilizando pedaços de carne na luva.

Outra possibilidade é que a ave tenha tentado pousar na cabeça do garoto (que por vezes pode acontecer durante voos livres de aves de rapina), e com o movimento brusco do menino ela se assustou e abortou a tentativa. Vale lembrar também, que a ave era adestrada, em estado selvagem seria improvável um ataque contra uma criança.

Vídeo de uma águia atacando um bebê no Canadá é FALSO

Quanto ao vídeo da águia atacando um bebê, trata-se de uma montagem, como já esclarecido pelo G1 (link) e por outros veículos de comunicação. O vídeo circula na internet desde 2012, foi uma montagem produzida por estudantes canadenses que lamentavelmente acabaram divulgando uma péssima e falsa imagem das águias e de outras aves de rapina.



Essas falsas histórias acabam prestando um desserviço ao conhecimento e a conservação das aves de rapina. A divulgação de notícias falsas ou mesmo a má divulgação de um caso, pode trazer consequências desastrosas paras os rapinantes. Muitas águias e gaviões encontram-se ameaçados de extinção devido à várias ações humanas, inclusive pela caça indiscriminada. Essas aves são desprezadas ou exterminadas em função do medo, preconceito e da ignorância humana.

23 de junho de 2017

As fases da lua influenciam o nível de atividade das corujas?

As corujas são vocalmente mais ativas nas noites com intensa luminosidade lunar?


Aparentemente sim! Vários especialistas mencionam que diversas espécies de corujas são vocalmente mais ativas em noites de lua cheia ou quase cheia, onde a luminosidade lunar é mais elevada. Na verdade, as corujas têm seu comportamento influenciado pelo aumento da luminosidade noturna e não pelas fases da lua. Se o tempo estiver nublado ou chuvoso, mesmo na lua cheia, a noite será escura e as corujas estarão menos ativas.

König & Weick (2008), autores do livro Owls of the World, citam várias espécies dos gêneros Strix, Pulsatrix, Glaucidium e Bubo, que vocalizam com mais frequência nas noites claras. Essas aves aproveitam a luminosidade lunar para comunicar-se com outros indivíduos ou defender seu território. A bufo-real (Bubo bubo) por exemplo, do Velho Mundo, possuí uma área branca na garganta que só é visível durante as exibições vocais, auxiliando na comunicação social 5. Por isso, a espécie tende a vocalizar com mais frequência nas noites que cercam a lua cheia (noites claras), quando as penas brancas são mais visíveis à distância. Outras espécies do gênero Bubo, incluindo a jacurutu (Bubo virginianus), também possuem a mesma área branca na garganta, talvez pelos mesmos motivos.

Além da comunicação social, algumas espécies aproveitam a iluminação lunar para aumentar as oportunidades de caça, uma vez que acuidade visual dessas aves melhora em comparação às noites escuras, sem uma luz natural. Por outro lado, roedores, marsupiais, morcegos e outros animais noturnos têm grande aversão às noites claras, exibindo a chamada "fobia lunar", tornando-se menos ativos e mais atentos, reduzindo o uso de áreas abertas e restringindo a atividade de forrageio ou a duração do período de atividade. Isso ocorre como uma estratégia anti-predação, já que nas noites sob intensa luminosidade lunar esses animais tornam-se mais vulneráveis à predação por corujas e outros predadores.

Noite clara e de lua cheia no cerrado mato-grossense. Foto: Willian Menq.


Mas nem todas as corujas preferem ou têm suas atividades influenciadas pelas noites claras. Espécies pequenas, como a Aegolius acadicus, do hemisfério norte, são mais ativas em noites escuras 6. Nas noites claras, essas aves evitam cantar ou realizar deslocamentos migratórios, provavelmente por conta do risco de predação por corujas maiores. Já a corujinha-do-mato (Megascops choliba), que é florestal e ocorre em grande parte do Brasil, é mais influenciada pela temperatura e umidade relativa do ar do que pela iluminação da lua, como indicado no estudo de Braga & Motta-Junior (2009). Isso está diretamente relacionado às suas presas, insetos voadores são mais ativos em noites quentes e úmidas.

De maneira geral, a luminosidade lunar parece influenciar mais nas corujas que vivem em ambientes abertos ou que se alimentam de pequenos mamíferos, como é o caso da suindara (Tyto furcata), jacurutu (Bubo virginianus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e mocho-dos-banhados (Asio flammeus).

Vale ressaltar que existem outros fatores importantes que influenciam o nível de atividade das corujas, como o vento, temperatura, precipitação e umidade. Em noites chuvosas ou com ventos fortes, a atividade das corujas diminui devido à dificuldade de voar e forragear - o ruído do vento e a chuva atrapalha a orientação acústica dessas aves. Algumas espécies, como a Aegolius funereus, são sensíveis até à queda da pressão atmosférica 2, que geralmente indica a chegada de uma chuva.

A época do ano e período da noite também influenciam o nível de atividade dessas aves. Como são territorialistas, as atividades vocais e de forrageio se tornam mais frequentes na época reprodutiva, quando estão defendendo territórios e/ou cuidando da prole. A atividade dessas aves também se altera ao longo da noite, nas primeiras horas após o pôr-do-sol e antes do amanhecer, as corujas estão mais ativas (vocalizando ou forrageando).

Em resumo, as corujas são mais ativas em noites claras, sem vento, no período reprodutivo, nas três primeiras horas da noite ou antes do alvorecer. Nesses períodos/condições elas são mais detectáveis, ou seja, estão forrageando ou vocalizando e respondem mais ao “playback”.

Gostou? Leia também:

Literatura relacionada:
1. Braga, A. C. R. & Motta-Junior, J. C. (2009) Weather conditions and moon phase influence on Tropical Screech Owl and Burrowing Owl detection by playback. Ardea, 97 (4): 395-401.

2. Clark, K. & Anderson, S. H. (1997) Temporal, Climatic and lunar factors affecting owl vocalizations of western wyoming. J. Raptor Research, 31 (4): 358-363.

3. Clarke, J. A. (1983) Moonlight's influence on predator/prey interactions between short-eared owls (Asio flammeus) and deermice (Peromyscus maniculatus). Behav Ecol Sociobiol 13:205-209.

4. König, C. & F. Weick. (2008) Owls of the world. Second Edition. Christopher Helm, 528 p.

5. Penteriani, V., Delgado, M. M., Campioni, L. & Lourenço, R. (2010) Moonlight Makes Owls More Chatty. PLoS One, 5(1): e8696.

6. Speicher, J. Schreffler, L. & Speicher, D. (2011) Lunar Influence on the Fall Migration of Northern Saw-whet Owls. The Wilson Journal of Ornithology 123(1):158–160.

Agradecimentos ao colega Geraldo Magela pela sugestão do tema desta postagem.

6 de junho de 2017

Melhor período para observar gaviões-de-penacho na Mata Atlântica

Agora é um dos melhores períodos para procurar os Spizaetus spp. na Mata Atlântica. Na imagem, gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) em voo sobre a floresta. Urubici/SC.
Agora é um dos melhores períodos para observar os gaviões-de-penacho (Spizaetus ornatus, S. tyrannus e S. melanoleucus) em voo na Mata Atlântica. Junho e julho é o período das paradas pré-nupciais dessas espécies, nessa época essas aves estão mais ativas e vocalizam com mais frequência, ou seja, são mais detectáveis.

O gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) por exemplo, bastante raro e discreto, passa boa parte do ano oculto na floresta, dificilmente planando acima da copa das árvores ou vocalizando. Na Mata Atlântica, nos meses de junho e julho a espécie realiza voos acrobáticos de cortejo, mais ou menos ritualizados, voando alto acima da floresta com perseguições e mergulhos no céu, por vezes se tocando no ar.

Portanto, junho/julho é um dos melhores períodos para ir a campo procurar o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) e as outras espécies do gênero Spizaetus. Regiões como a de Urubici e Urupema em SC, Morretes/PR, Iporanga/SP, Santa Teresa/ES, São Desidério/BA e outros lugares da Mata Atlântica que ainda contam com alguns remanescentes florestais preservados, são propícios a observação dos Spizaetus.

Durante um trabalho de campo no entorno do Parque Estadual da Serra do Mar, em Caraguatatuba/SP, semana passada, pude registrar em um mesmo dia e na mesma localidade, casais das três espécies de Spizaetus. Primeiro, por volta das 10:20, avistei dois gaviões-pato (Spizaetus melanoleucus) voando alto sobre a mata. Depois, por volta das 10:50, registrei um casal de gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) em voos circulares, e minutos após o avistamento dos S. tyrannus, um casal de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) levantou voo na floresta, circulando próximo ao casal de S. tyrannus. O casal de S. ornatus ficou voando  por mais de 20 min sobre a floresta, até que o macho se aproximou da fêmea e desceram na mata. Nos dias seguintes, retornei ao local no mesmo horário, e as três espécies de Spizaetus foram novamente registradas.

Spizaetus spp registrados em ponto fixo na borda de um trecho preservado de floresta, Caraguatatuba/SP. 1. Gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) em voo circular,. 2. Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), 3. gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), 4. casal de S. ornatus em voo de cortejo.
Vale ressaltar que, para observar essas aves é importante estar em um local adequado. O ideal é permanecer em um ponto com um bom campo de visão, como na borda de uma floresta, no alto de uma torre de observação, em uma trilha suspensa, no interior de vales, encostas, e etc. Quanto ao horário, o período entre o final da manhã e início da tarde (entre 9:00 e 12:00 h) são os mais adequados, pois é nesses horários que as correntes de ar ascendentes estão mais favoráveis e essas aves aproveitam para planar e/ou se deslocar pelo seu território.

Exemplo de um local adequado para observação de Spizaetus spp. Área elevada com um bom campo de visão do dossel da floresta. Local: Margem de uma estrada rural, Morretes/PR.
Também é necessário muita atenção a qualquer “pontinho” voando longe ou alto no céu. Espécies como o gavião-pato (S. melanoleucus), costumam voar muito alto, podendo facilmente passar despercebido pelos observadores ou ser confundido com outras espécies comuns.

Mais informações sobre horários de observação e técnicas, recomendo a leitura da postagem deste link.

20 de maio de 2017

Qual a função dos "olhos falsos" dos caburés?

Face occipital da caburé (Glaucidium brasilianum). 

As corujinhas do gênero Glaucidium são conhecidas por apresentar dois ocelos desenhados na parte de trás da cabeça, parecendo “olhos falsos”. Esses olhos falsos da nuca, que simulam um rosto, são chamados de face occipital. Das 32 espécies existentes do gênero Glaucidium, 24 possuem a face occipital, incluindo as quatro espécies de caburés existentes no Brasil (G. brasilianum, G. hardyi, G. minutissimum e G. mooreorum). Além dos caburés, outros rapinantes de pequeno porte possuem face occipital. Dentre essas espécies, podemos citar o quiriquiri (Falco sparverius) e várias outras aves que não ocorrem no Brasil (ex. Falco fasciinucha, Falco subbuteo, Surnia ulula, Athene noctua, Aegolius funereus, etc.).

Existem várias hipóteses que tentam explicar a função da face occipital dos caburés. Alguns especialistas acreditam que os falsos olhos servem para proteger as aves contra o ataque surpresa de predadores (Cott 1940, Balgooyen 1975, Steyn 1979). Outros pesquisadores, incluindo a mim, defendem que a face occipital serve para confundir pequenas aves durante o ‘comportamento de tumulto (mobbing behaviour)’, muitas vezes direcionando-as para a face verdadeira, aumentando as oportunidades de caça da coruja (Deppe et al. 2003, Negro et al. 2007).

Deppe et al. (2003) realizaram um estudo bastante interessante sobre o tema. Os autores usaram modelos de madeira da caburé-pigmeu (Glaucidium gnoma), com e sem face occipital, para ver se os passeriformes eram influenciados, ou não, pelos falsos olhos durante o comportamento de tumulto. O estudo apontou que os modelos com a presença da face occipital redirecionavam os ataques dos pequenos pássaros para a frente do modelo (onde estaria a face verdadeira). Negro et al. (2007) realizaram uma extensa revisão sobre as possíveis explicações da face occipital dos caburés, os autores descartaram a hipótese de proteção contra ataque de predadores, e concluíram que a face occipital está intimamente ligada ao comportamento de tumulto de suas presas, sendo uma ferramenta importante para enganar e predar as aves durante os eventos de tumulto.

A relação entre a face occipital e o comportamento de tumulto, faz bastante sentido. Na natureza, é evidente que os passeriformes quando detectam um rapinante, sempre atacam com investidas e rasantes na nuca do predador, uma vez que é a região mais "segura" para essas aves (menos risco de predação). E com a presença dos falsos olhos esses ataques seriam redirecionados para a frente da ave, como demonstrado no experimento de Deppe et al. (2003), facilitando a predação.

Além disso, os caburés e todas os outros rapinantes que possuem face occipital são diurnos, de pequeno porte, ágeis, e assim, mais susceptíveis de serem predadores eficazes de aves. Também há várias evidências que as corujas que tem face occipital são muitas vezes atacadas no evento de tumulto pelas mesmas espécies que geralmente caçam. No Brasil, Motta-Junior (2007) observou o ataque de um caburé (Glaucidium brasilianum) contra uma tesourinha (Tyrannus savana), que o atacava durante um comportamento de tumulto, o que reforça a hipótese.

Assim sendo, a explicação mais plausível é que os falsos olhos dos caburés evoluíram para confundir pequenas aves durante o comportamento de tumulto, aumentando as oportunidades de caça da coruja. Talvez a mesma explicação sirva para as outras espécies de rapinantes com face occipital.

Sequência de um ataque da caburé (G. brasilianum) contra uma tesourinha (T. savanna). A coruja capturou a ave pelo pescoço durante um evento de comportamento de tumulto. Fotos de: José Carlos Motta-Junior.





Literatura relacionada:

Balgooyen TG. 1975. Another possible function of the American kestrel’s deflection face. Jack-Pine Warbler 53: 115 116.

Cott HB. 1940. Adaptive coloration in animals. London: Oxford University Press

Deppe C, Holt D, Tewksbury J, Broberg L, Petersen J, Wood K. 2003. Effect of northern pygmy-owl (Glaucidium gnoma) eyespots on avian mobbing. Auk 120: 765–771.

Motta-Junior, J. C. 2007. Predação de Tyrannus savana, que exibia comportamento de tumulto, por Glaucidium brasilianum, no sudeste do Brasil. Biota Neotrop. vol. 7, no. 2.

Negro, J. J., Bortolottti, G. R. & Sarasola, J. H. (2007) Deceptive plumage signals in birds: manipulation of predators or prey? Biological Journal of the Linnean Society, 90, 467–477.

Steyn P. 1979. Observations on pearl-spotted and barred owls. Bokmakierie 31: 50–60.

25 de abril de 2017

Observando uma águia-real (Aquila chrysaetos) na natureza


A história que contarei a seguir é o resumo da realização de um sonho de infância, o de observar uma águia-real na natureza.

Para quem não conhece, a águia-real (Aquila chrysaetos) é uma das espécies mais populares e “cobiçadas” entre os apaixonados por aves de rapina. É uma ave que impõe respeito e admiração, frequentemente representada em brasões de reinos antigos, bandeira de países modernos e em documentários de vida selvagem, sendo considerada o protótipo básico de uma águia. Ela não ocorre no Brasil, mas possui uma distribuição bastante extensa ocorrendo em várias regiões montanhosas do hemisfério norte.

Semana passada eu e minha companheira Jessica Nascimento estávamos na Espanha, e um dos grandes objetivos da viagem era o de observar uma águia-real (Aquila chrysaetos) selvagem. A espécie pode ser encontrada em várias regiões do país, especialmente nas áreas montanhosas acima de 500 m do nível do mar. Apesar de imponente é também muito arisca, sendo a maioria dos encontros com indivíduos voando distantes.

No dia 11/04, por volta das 6:00 h da manhã, eu e a Jessica fomos até o município de Aielo de Malfiret, ao sul de Valencia/Espanha, para se encontrar com um amigo espanhol, Francisco Sancho “Paco”, que estava disposto a nos ajudar a ver a águia-real. Paco nos levou até o Parque Natural da Serra da Mariola, unidade de conservação de 17 mil ha onde há ocorrência de diversas espécies de rapinantes e outros animais da fauna ibérica. No parque existem alguns hides (esconderijos para observação de aves) e outras instalações para birdwatching da Fundação Victoria Laporta Carbonell, entidade sem fins lucrativos que atua dentro da UC.

Chegamos no parque por volta das 7:40 h, e com o apoio de um amigo de Paco, fomos até um hide no alto de uma montanha para tentar observar a águia. O local era bem propício para a observação de rapinantes, especialmente da águia-real e do abutre-fouveiro (Gyps fulvus). Embora o avistamento dessas espécies não fosse “garantido”, as chances que tínhamos eram boas. Segundo o pessoal da fundação, um casal de águia-real e um grupo razoável de abutres habitavam aquela região. Para atrair a águia e/ou abutres, colocamos um pernil de cabra a poucos metros à frente do esconderijo. Dessa forma, se alguma dessas aves voar por ali e avistar o pernil, provavelmente vão descer e se alimentar da carcaça. Os abutres são carniceiros, a águia-real por sua vez, eventualmente consome carcaças.

Eu e a Jessica nos posicionamos dentro do hide e ficamos aguardando silenciosamente os rapinantes. Como só havia espaço para duas pessoas, Paco e seu amigo desceram para a sede da fundação.

Permanecemos quase quatro horas na espreita até que por volta das 11:30 os primeiros abutres (Gyps fulvus) apareceram. Foi incrível! Vários abutres começaram a pousar a frente do esconderijo e em poucos segundos a carcaça estava completamente cercada pelos abutres famintos. Pelo menos 30 abutres apareceram no local, pareciam hienas vorazes dilacerando uma carcaça de zebra, em menos de 2 minutos a carcaça foi completamente dizimada.

Abutres-fouveiro (Gyps fulvus)


O tamanho dessas aves é impressionante, a espécie chega a medir até 1 metro de comprimento, 2.7 de envergadura e peso de até 12 kg (maior e mais pesado que a nossa harpia Harpia harpyja). A maioria dos abutres observados possuíam marcações nas asas que servem para os pesquisadores monitorar a dinâmica populacional da espécie.

Durante o alvoroço dos abutres avistamos a silhueta de uma águia circulando a pouca altura o bando, foi quando me dei conta que se tratava da tão sonhada águia-real.

Foi emocionante!! Também foi difícil conter a euforia e a emoção. Após gritar (silenciosamente) e comemorar o aparecimento da águia, rapidamente peguei a câmera e comecei a fotografá-la circulando em torno dos abutres. Após os voos rasantes, a águia-real pousou em um galho seco a poucos metros de nós.

Sensações indescritíveis percorreram meu corpo e minha mente, depois de sonhar tantos anos com este momento, finalmente eu estava diante de uma águia-real selvagem. Desde que me conheço por gente, assistia os documentários de vida selvagem da BBC, National Geographic e alguns do Félix Rodríguez De la Fuente e me encantava com as cenas desta bela e simbólica águia, sonhando em vê-la um dia na natureza.

O indivíduo que avistamos era um macho adulto. Muito provavelmente foi atraído no local pela movimentação dos abutres, circulou e pousou próximo do bando. Mas não se atreveu a disputar um pedaço de carne em meio a tantos abutres. A águia ficou pousada no galho seco por alguns instantes e em seguida alçou voo, subindo em uma térmica, desaparecendo de nossa visão.

Este sonho só foi possível graças ao apoio do amigo Paco, do amigo Pablo Camacho (que me apresentou o Paco e viabilizou a amizade), e a Fundación Victoria Laporta Carbonell pela excelente estrutura e projetos em prol da conservação da natureza.

A seguir, sequência de imagens obtidas neste inesquecível dia.

Águia-real (Aquila chrysaetos) em voo.


Águia-real (Aquila chrysaetos).

Pega-rabuda (Pica pica).
Águia-real (Aquila chrysaetos) em voo alto.

Abutre-fouveiro (Gyps fulvus).
Vídeo dos abutres-fouveiros (Gyps fulvus) se banqueteando à frente do hide.

25 de março de 2017

Melhores horários para a observação de aves de rapina em voo

Qual o melhor horário para encontrar rapinantes florestais planando?



Encontrar um gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) pousado na mata é sem dúvidas, muito difícil. Por outro lado, se o observador conhecer “os horários dos gaviões”, registrar essa mesma espécie em voo será bem mais fácil.

Dessa forma, a maneira mais fácil e eficiente de registrar rapinantes florestais é ir a campo nos horários de maior atividade de voo dessas aves. De maneira geral, o melhor horário para observar aves de rapina em voo é no período entre o final da manhã e início da tarde, período em que as correntes de ar ascendentes estão mais favoráveis e essas aves aproveitam para planar e/ou se deslocar pelo seu território. Esse período é o que chamamos de “horário das térmicas” ou “horário dos gaviões”.

Nesses horários, uma ampla variedade de espécies podem ser registradas em voos circulares, desde águias-florestais raras como o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) até rapinantes pequenos e discretos como o gavião-bombachinha (Harpagus diodon). Outras espécies, como o gavião-urubu (Buteo albonotatus) e o gavião-tesoura (Elanoides forficatus), praticamente só são encontrados em voo.

Vale ressaltar que o horário das térmicas varia de acordo com a região. Em boa parte das florestas do sul e sudeste do Brasil, o pico de atividade dos rapinantes é entre 9:00 e 12:00 h. Em regiões mais quentes, como no centro-oeste do Brasil, os rapinantes têm atividades aéreas um pouco mais cedo. Enquanto que nas regiões mais frias, como nas serras catarinenses, os gaviões podem estar ativos somente a partir das 10:00 h se estendendo até as 15:00 h. Após esses horários a chance de topar com um indivíduo em voo diminui drasticamente.

Durante um estudo que realizei em uma floresta no noroeste do Paraná, a Reserva Biológica das Perobas, dos 184 avistamentos com aves de rapina diurnas feitos ao longo de um ano, pelo menos 55% foram realizados entre 9:00 e 12:00 h, com o maior pico de observações entre 10:00 e 11:00 h da manhã.

Horários com maior número de registros de rapinantes diurnos (Accipitridae, Falconidae e Cathartidae) na Reserva Biológica das Perobas, Paraná. Adaptado de Menq & Delariva 2015.
Para registrar essas aves é importante estar com um bom binóculo, luneta ou uma câmera com lente de longo alcance. Particularmente, nas aves que estão muito longe ou que me causa dúvidas na identificação, prefiro fotografar exaustivamente para identificar posteriormente. Câmeras cropadas com lentes de 400 mm em diante, são suficientes para um bom registro. Câmeras compactas ultrazoom como a Canon SX50 HS ou a Nikon P610 por exemplo, também se saem muito bem nessas atividades.

Outra questão importante é estar em um local adequado para observação. Não adiantará nada estar no horário ideal para observação de rapinantes se você estiver em uma trilha no meio da mata, onde o campo de visão é muito limitado. O ideal é permanecer em um local com um bom campo de visão, como na borda de uma floresta, no alto de uma torre de observação, em uma trilha suspensa, interior de vales, encostas, e etc.

Também é necessário muita atenção a qualquer “pontinho” voando longe ou alto no céu. Espécies como o gavião-pato (S. melanoleucus), costumam voar muito alto, podendo facilmente passar despercebido pelos observadores ou ser confundido com outras espécies comuns. Outros, como o tauató-pintado (Accipiter poliogaster), podem cruzar de forma muita rápida pelo observador, sendo necessário muita agilidade para fotografar ou experiência para uma rápida identificação.

Exemplo de um local adequado para observação de rapinantes florestais planadores. Área elevada com um bom campo de visão do dossel da floresta.

Outras dicas para observação de rapinantes diurnos podem ser consultadas neste link.