13 de novembro de 2016

Falcões-de-coleira “seguindo” emas e seriemas para caçar


Algumas espécies de rapinantes possuem o curioso hábito de seguir outros animais para aumentar suas oportunidades de caça. Existem vários artigos relatando a associação de aves de rapina com formigas-de-correição, quatis, saguis, macacos, capivaras, babuínos, lobos e alguns outros mamíferos. Normalmente os rapinantes usam eles como “batedores”, capturando as presas espantadas ou atraídas pelas atividades desses animais.

Em agosto do ano passado, eu e minha companheira Jessica M. Nascimento, tivemos a oportunidade de observar um comportamento bastante interessante, falcões-de-coleira (Falco femoralis) seguindo seriemas (Cariama cristata) e emas (Rhea americana). Na ocasião, observamos dois falcões seguindo um grupo de emas em uma área de pastagem no interior do Mato Grosso do Sul. Conforme as emas caminhavam, os falcões a acompanhavam, pousando em arbustos à frente do grupo, e investindo contra insetos em voo espantados pelo deslocamento das aves. Minutos depois do evento, observamos os falcões realizando o mesmo comportamento com algumas seriemas. Tanto as emas quanto as seriemas pareciam não se incomodar com a presença dos falcões.                        

Não encontramos nenhuma informação na literatura que relatasse a associação do falcão-de-coleira com aves. Um dos poucos relatos envolvendo o falcão-de-coleira e outros animais é de Silveira et al. (1997), que registraram a espécie seguindo lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) no Parque Nacional das Emas. Os autores observaram o falcão atacando codornas (Nothura sp) e outras aves espantadas pelas atividades de caça do lobo.

Detalhes do nosso relato estão publicados na edição 192 (julho/agosto) da revista Atualidades Ornitológicas (ww.ao.com.br).

NASCIMENTO, J. M. & MENQ, W. (2016) Associação de forrageio entre o falcão-de-coleira (Falco femoralis) e aves terrícolas em áreas de pastagem no centro-oeste do Brasil. AO 192. p. 24.

Falcões (Falco femoralis) pousados próximos um do outro, durante associação com as outras aves.
Foto: Jessica M. do Nascimento.

Falcão-de-coleira (Falco femoralis) aguardando oportunidade de caça, pousado próximo a um grupo de emas (Rhea americana). Foto: Willian Menq.


Para saber mais:

Aves e formigas-de-correição
Willis, E. O.; Oniki, Y. Aves seguidoras de correições de formigas nas Américas e África, 1980. Revista ACOALFAplp: Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua portuguesa, São Paulo, v.2 n. 4, 2008. Disponível aqui.

Gaviões (Leptodon cayanensis, Ictinia plumbea) com sagüis  (Callithrix  flaviceps)
Ferrari, S.F. (1990) A Foraging Association between Two Kite Species (Ictinea plumbea and Leptodon cayanensis) and Buffy-Headed Marmosets (Callithrix flaviceps) in Southeastern Brazil.The Condor, 92(3):781-783. Disponível aqui.

Associação de forrageio de aves de rapina com mamíferos
Menq, W. (2013) Associação de forrageio entre rapinantes e mamíferos - Aves de Rapina Brasil. Disponível aqui

Gavião-ripina (Harpagus bidentatus) e macacosFontaine, R. (1980) Observations on the foraging association of Double-Toothed Kites and White-Faced Capuchin Monkeys. The Auk, 97(1):94-98. Disponível aqui

Falcão-de-coleira e lobo-guaráSilveira, L. , Jácomo, A. T. A., Rodrigues, F. H. G. , Crawshaw-Junior, P. G. (1997) Hunting Association between the Aplomado Falcon (Falco femoralis) and the Maned Wolf (Chrysocyon brachyurus) in Emas National Park, Central Brazil. The Condor. 99 : 201 – 202. Disponível aqui

Falcão-das-rochas (Falco rupicolus) e babuínos
King, A. J., & G. Cowlishaw. (2008). Foraging opportunities drive interspecific associations between Rock Kestrels and Desert Baboons. Journal of Zoology 277:111-118. Disponível aqui

1 de novembro de 2016

Gavião-bombachinha (Harpagus diodon) retorna todos os anos aos mesmos locais?


Sabemos hoje, graças ao trabalho de Lees & Martin (2015), que o gavião-bombachinha (Harpagus diodon) é um migrante regular na América do Sul. Entre os meses de outubro-fevereiro é encontrado nas florestas do sul, sudeste e parte do centro-oeste do Brasil, onde também se reproduz, migrando para a região amazônica durante o inverno (maio-agosto). Porém, outros detalhes de seus movimentos migratórios, como rotas migratórias, fidelidade aos locais de invernagem/nidificação, permanecem desconhecidos.

Sabemos que rapinantes migratórios do hemisfério norte (amplamente estudados), como o falcão-peregrino (Falco peregrinus), a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o gavião-tesoura (Elanoides forficatus), usam as mesmas rotas migratórias e são fiéis aos locais de nidificação e de invernagem. Dessa forma, é possível que o H. diodon também seja fiel aos locais de reprodução e invernagem, e use basicamente as mesmas rotas migratórias em suas viagens entre a Mata Atlântica e Amazônia.

Semana passada, durante um monitoramento de fauna no município de Mangaratiba/RJ, registrei um H. diodon adulto pousado em uma embaúba na borda de uma mata, exatamente no mesmo local que registrei a espécie em anos anteriores, sugerindo que seja o território usual daquele indivíduo durante sua estadia na Mata Atlântica.

Embora eu não tenha nenhuma evidência que a ave seja o mesmo indivíduo que observei nos anos anteriores, pode ser um indício que H. diodon é fiel aos locais de reprodução/invernagem, da mesma forma que ocorre no F. peregrinus e em outros migrantes. No entanto, somente com trabalhos de marcação e monitoramento via rádio-satélite desvendaremos esse mistério.

Harpagus diodon registrado em dezembro/2015, com um anfíbio nas garras.

Harpagus diodon registrado em novembro/2016 no mesmo local do ano anterior.

Área de ocorrência do Harpagus diodon.
Período de invernagem (maio-agosto), reprodutivo (outubro-março;).



23 de outubro de 2016

IV Conferência Neotropical de Aves de Rapina

Semanas atrás, aconteceu entre os dias 10 e 13 de outubro a IV Conferência Neotropical de Aves de Rapina, na cidade de La Fortuna/Costa Rica, organizada pela The Peregrine Fund, Neotropical Raptor Network e pela Fundação Rapaces de Costa Rica.

Trata-se de um importante evento sobre aves de rapina que reuniu pesquisadores de todas as regiões das Américas, onde foram apresentadas suas pesquisas mais recentes, soluções e desafios. O evento também funcionou como um ponto de encontro para troca de ideias, discussões e debates sobre a pesquisa e conservação das aves de rapina neotropicais. Também ocorreu junto a conferência o II Simpósio de corujas neotropicais, para discussão sobre as pesquisas com esse grupo no continente.

Participei do evento acompanhado dos amigos "rapinólogos" Pedro Scherer-Neto e Jonas Kilpp. A conferência iniciou-se com a palestra de Rob Bierregard sobre a migração das águias-pescadoras (Pandion haliaetus) no continente Americano. Bierregard apresentou os diversos desafios e as estratégias que os indivíduos monitorados por rádio-satélite enfrentam a cada jornada para a América do Sul e Central, demonstrando o quão perigosa é a primeira migração de uma jovem águia. 

Esquerda p/direita. Pedro Scherer-Neto, Jonas Kilpp, Diego Quesada, Tomás Rivas, eu (W. Menq), Mario Alberto e Pablo Camacho (a frente).

As sessões científicas contavam com temas variados e muitas bem interessantes, como a apresentação do Alejandro Alarcón sobre a dieta e a vocalização da raríssima corujinha-de-bigode (Xenoglaux loweryi); da Paula Orozco-Valor sobre a fidelidade de ninhos, sucesso reprodutivo e dieta do primeiro ninho de Spizaetus isidori na Argentina; do Tomás Rivas Fuenzalida sobre as aves de rapina do Chile; da Adrián Naveda-Rodríguez sobre o estado de conservação do condor-dos-andes (Vultur gryphus) no Equador; da Karla A. Ubillús sobre o uso de drones para monitoramento de ninhos de harpias (Harpia harpyja) no Panamá; e muitas outras. 

A cidade anfitriã do evento, La Fortuna, é um pequeno paraíso bastante visitado na Costa Rica. Famosa pelo imponente Vulcão Arenal e pela ótima infraestrutura, a cidade é cercada por parques nacionais e áreas verdes preservadas ideais para a observação de aves, especialmente de aves de rapina. Gavião-barrado (Leucopternis princeps), gavião-branco (Pseudastur albicollis), gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), murucututu (Pulsatrix perspicillata), coruja-de-crista (Lophostrix cristata) e coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata), são apenas algumas das aves de rapina avistadas com certa regularidade na região. Além disso, a data em que ocorreu a conferência coincidiu com o pico da migração de outono dos rapinantes do Hemisfério Norte, em que a Costa Rica detém o título de possuir o segundo caminho migratório mais abundante de rapinantes do mundo.

Buteo plagiatus (Gray hawk), adulto. Foto: Willian Menq.

Participamos de alguns passeios guiados nos arredores do Vulcão Arenal, com o objetivo de observar aves de rapina e outros animais da região. No dia 10 de outubro, na companhia do excelente guia local Diego Quesada, fomos observar aves no maravilhoso Sky Adventures Arenal, parque de aventura que possuí uma frondosa floresta interligada ao Parque Nacional do Vulcão Arenal. O parque possui um sistema de pontes suspensas e plataformas elevadas perfeitas para observação de rapinantes florestais planadores. Durante visita ao parque observamos dezenas de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus) e sovis-do-norte (Ictinia mississippiensis) pegando térmica em migração, vimos gavião-cinzento (Buteo plagiatus), gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus), além de um jovem gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), que vocalizava constantemente nas redondezas de um ninho na encosta da mata. De acordo os pesquisadores locais, o S. ornatus é a águia-florestal mais abundante de La Fortuna, só nos dias do evento foram observados 7 indivíduos em lugares diferentes da região, realmente incrível!

Na noite do dia seguinte, realizamos uma corujada em uma conhecida estrada que corta um trecho de floresta nos arredores do Parque do Vulcão Arenal. A expectativa era de encontrar a coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata), uma verdadeira preciosidade da América Central. Então, andando cautelosamente de veículo com lanternas em punho, fomos iluminando as árvores da borda da mata. Através deste método, tivemos a felicidade de observar a coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata),  a murucututu (Pulsatrix perspicillata) e a coruja-de-crista (Lophostrix cristata).

A belíssima Strix nigrolineata (coruja-preto-e-branca), durante corujada nos arredores do Parque do Vulcão Arenal. Foto: Willian Menq.

Nos dias seguintes, em saídas aleatórias pelas áreas verdes da região, encontramos alguns rapinantes bem interessantes, como o caracará-do-norte (Caracara cheriway), gavião-cinzento (Buteo plagiatus) e o gavião-branco (Pseudastur albicollis). O C. cheriway, que ocorre desde os EUA até o norte do Brasil, é praticamente uma cópia do Caracara plancus, diferenciando-se basicamente pelo dorso mais escuro. O Buteo plagiatus, que ocorre do México a Costa Rica, é também muito parecido com o Buteo nitidus (que ocorre no Brasil), sendo a principal diferença o dorso mais escuro e alguns detalhes na coloração das asas, visíveis em voo. Já o Pseudastur albicollis costaricensis (subespécie que ocorre na Costa Rica), chamou nossa atenção por ser muito diferente da subespécie que ocorre no Brasil, este possui o dorso predominantemente branco enquanto que a forma amazônica apresenta o dorso uniformemente negro.

No dia 14 de outubro, após o encerramento do evento, foi a vez de conhecer o Arenal Observatory Lodge, um dos destinos favoritos dos observadores de aves que visitam a região. O lugar possuí áreas de jardins que atraem diversas espécies de beija-flores, saíras e outros passarinhos. Possuí plantações de coníferas que atraem um grande número de aves migratórias, além de trilhas dentro de uma floresta primária. Durante nossa visita observamos mais de 100 espécies de aves, o destaque foi para os mais de 300 indivíduos de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus), mais de 1.000 urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) e algumas dezenas de gaviões-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) planando em uma térmica em migração. No retorno para a cidade encontramos um casal de murucututu (Pulsatrix perspicillata) descansando na borda da mata às margens da estrada. Interessante que a fêmea apresentava um padrão barrado no ventre pouco frequente na espécie.

Casal de murucututu (Pulsatrix perspicillata) (fêmea à direita), descansando na borda da mata às margens da estrada. Foto: W. Menq.

No último dia da nossa estadia na Costa Rica, a convite do amigo Pablo Camacho, fomos a Tárcoles na costa do pacífico procurar pelo gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus). Facilmente encontramos o gavião, que é muito abundante na região costeira do país (tanto no pacífico quanto no atlântico). Também encontramos o gavião-urubu (Buteo albonotatus), cauré (Falco rufigularis) e muitos passarinhos.

Para mim o evento e a viagem ao país foi uma experiência incrível, conferência muito bem organizada. Tive oportunidade de fazer amizades com outros pesquisadores da América do Sul e Central; de constatar o andamento das pesquisas com rapinantes na região neotropical; de conhecer alguns amigos que até então só conhecia via redes sociais, como é o caso do Pablo Camacho (diretor da Fundação Rapaces de Costa Rica) e da Marta Curti (Peregrine Fund); conhecer a rica fauna e flora da Costa; desfrutar de belas paisagens e ótima gastronomia do país; e claro, de observar diversas espécies de rapinantes, incluindo algumas particularidades da América Central, como é o caso da belíssima coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata) e do gavião-branco-costariquenho (Pseudastur albicollis costariquensis), além de ver vários migrantes do hemisfério norte de passagem no país (B. platypterus, B. swainsoni, I. mississippiensis, P. haliaetus, C. aura).

Pura Vida!

Procurando rapinantes na ponte suspensa do Arenal Sky Adventure.

Gavião-branco da Costa Rica (Pseudastur albicollis costaricensis). Foto: W. Menq

Coruja-de-crista (Lophostrix cristata) durante corujada nos arredores do Parque do Vulcão Arenal. Foto: W. Menq

Térmica de migrantes, com milhares de Cathartes aura, centenas de Buteo platypterus e alguns Buteo swainsoni. Foto: W. Menq.

Gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus). Apesar de sua aparência lembrar o gavião-preto, seus hábitos se assemelham mais ao do Buteogallus aequinoctialis. Foto: W. Menq.


4 de outubro de 2016

Falcão-tanatau (Micrastur mirandollei) é redescoberto na Mata Atlântica

Nesta semana a ornitologia brasileira foi presenteada com uma notícia fantástica, a redescoberta do falcão tanatau (Micrastur mirandollei) na Mata Atlântica. O incrível registro foi realizado pelos observadores de aves Wagner Coppede, Susana Coppede e Justiniano Magnago na Reserva Natural Vale, Linhares/ES, em maio deste ano, publicado a poucos dias no Wikiaves. Segundo os autores, a ave foi visualizada cruzando em voo rápido uma pequena estrada próxima da sede da reserva.

Tanatau (Micrastur mirandollei) fotografado em Linhares/ES. Foto de: Wagner Coppede.
O registro fotográfico não deixa dúvidas na identificação, o capuz cinza-escuro, a área amarela nua na face e a íris escura em tons castanho-esverdeado, é suficiente para diferenciá-lo do Harpagus diodon (que possui íris avermelhada) e do Accipiter poliogaster macho (de íris amarela ou laranja).

Trata-se de um registro importantíssimo, o falcão não era registrado a décadas na Mata Atlântica, considerado até extinto do bioma, conhecido por dois registros antigos nas matas de baixada do sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Apesar de também ocorrer na região amazônica e na América Central, pouco se sabe sobre sua biologia, é um verdadeiro “fantasma” das florestas, de comportamento bastante discreto e de difícil observação, normalmente habitando a parte mais alta da floresta.

O local que o falcão foi observado é um “hotspot” para observação de aves, muito visitado por birdwatchers e fotógrafos de aves. O registro demonstra como espécies crípticas e estritamente florestais conseguem passar despercebidas pelos observadores de aves e ornitólogos, podendo passar décadas sem serem detectadas em uma determinada área. Outro exemplo disso é o falcão-críptico (Micrastur mintoni), que estava em uma situação bem parecida com a do M. mirandollei nas florestas capixabas. A ave estava sem registros no bioma a quase 35 anos, até que foi redescoberta por Simon & Magnago (2013) no norte do Espírito Santo. Na Bahia o M. mintoni ficou sem registros por oito décadas, até que foi redescoberto por Magnago (2014) na Reserva da Veracel, em Santa Cruz Cabrália/BA.

A redescoberta do M. mirandollei demonstra também a importância que os observadores de aves e o Wikiaves têm para a ciência, registrando espécies raras e ameaçadas, contribuindo com o conhecimento e a conservação de muitas espécies brasileiras - a chamada ciência-cidadã.

A provável população de M. mirandollei da Mata Atlântica certamente está seriamente ameaçada de extinção, confinada nos poucos remanescentes florestais do Espírito Santo e Bahia, que formam verdadeiras “ilhas de biodiversidade”, refúgios de toda a fauna e flora da região.


Mapa da área de ocorrência do tanatau (Micrastur mirandollei) no Brasil.
Seta vermelha indica a região do registro.

Curiosidade - A região do registro é popularmente chamada de “Amazônia capixaba”, e não é à toa, pois na área ocorre uma série de aves tipicamente amazônicas, dentre elas o falcão-críptico (Micrastur mintoni) e o gavião-ripina (Harpagus bidentatus). De acordo com alguns autores, a ocorrência dessas espécies nesta região sugere que ambos os biomas estiveram interligados no passado.


Link do registro fotográfico publicado no Wikiaves:

Artigo sobre as aves de rapina da Mata Atlântica:

Artigo sobre a redescoberta do falcão-críptico (M. mintoni) na Mata Atlântica:

12 de setembro de 2016

A redescoberta da harpia no Rio Grande do Sul

Harpia no PE do Turvo, março de 2015.
Foto: DAM.
* por Dante Meller. 
Vários são os aspectos que fazem da harpia uma das águias mais emblemáticas para os amantes da ornitologia. Além do enorme tamanho e da incomparável imponência, sua raridade é um dos atributos de destaque. Atualmente, a espécie já desapareceu de grande parte das florestas tropicais onde antes reinava absoluta no dossel florestal.

No Rio Grande do Sul, apesar de ter sido considerada extinta por longo período, a harpia recentemente decidiu se revelar...

A verdade é que hoje em dia para se ver uma harpia o melhor é ir para a Amazônia mesmo. Na Mata Atlântica, infelizmente, sobraram pouquíssimas, com a maior parte dos registros provenientes do Espírito Santo e Bahia. Ao sul, ela tem sido encontrada mais frequentemente em Misiones (Argentina). No Rio Grande do Sul chegou a ser considerada extinta por muito tempo, já que não haviam mais registros após a década de 40. Apesar disso, suspeitas e registros não confirmados para o Parque Estadual do Turvo traziam esperanças de que ainda estivesse presente.

Harpia abatida na localidade de Desimigrados, em Derrubadas, no entorno do PE do Turvo, nos anos 70. Foto generosamente cedida por Aldori Biguelini. Fonte: Meller e Guadagnin 2016.

Além de um registro antigo (foto acima), existem três observações atuais, sendo duas delas documentadas. Uma delas foi feita peloo guarda-parque argentino V. Matuchaka, que visualizou uma harpia pousada à beira do Salto do Yucumã, no lado brasileiro do rio, em 2011. Mais recentemente, dois registros documentados definitivamente comprovaram a presença da águia no território gaúcho, ambos feitos ao longo da estrada que leva ao Salto do Yucumã, um em 2015 e outro em 2016.

Registro de harpia no PE do Turvo, em junho de 2016, na companhia de Ataiz C. de Siqueira. Foto: DAM.

Apesar da continuidade de matas entre o PE do Turvo e as florestas de Misiones, que é o que provavelmente assegura a ocorrência da águia no lado gaúcho, o Turvo oferece boas condições para a harpia, com árvores emergentes em bons números e presas em quantia. As maiores ameaças certamente provêm do isolamento em relação às florestas de Misiones, em vista do alagamento projetado pela construção da UHE Panambi, em Alecrim. Também a caça e a perseguição a predadores oferecem riscos à harpia, o que pode ser prevenido através de programas de educação no entorno do parque.

Quer saber mais sobre a redescoberta da harpia no Rio Grande do Sul?
Acesse a publicação científica:

22 de agosto de 2016

Aves que imitam o canto de falcões

Ouviu um falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) ou falcão-caburé (Micrastur ruficollis) cantando? Atente-se, pode ser outra ave imitando-os!

A imitação de cantos de espécies alheiras é comum entre as aves brasileiras, especialmente nos emberezídeos, icterídeos, turdídeos, mimídeos, corvídeos, pscitacídeos, cuculídeos e ranfastídeos. No caso dos icterídeos e corvídeos, as imitações podem incluir o canto de alguns rapinantes florestais, especialmente os do gênero Micrastur.

No interior do Paraná, já ouvi inúmeras vezes gralhas-picaça (Cyanocorax chrysops) imitando o canto de falcão-relógio (Micrastur semitorquatus). Parece que esta gralha é a mais conhecida por imitar o falcão-relógio, e suas imitações costumam ser muito boas. Confesso que na primeira vez que ouvi gralhas-picaça imitando M. semitorquatus, logo no início de minha carreira ornitológica (por volta de 2007), fui "enganado"! Lembro-me que empolgado e na intenção de observar o falcão de perto, caminhei cuidadosamente até a árvore de onde vinha o som, e para minha surpresa (e infelicidade) só haviam gralhas, que saíram todas voando. Em um caso mais recente, durante um trabalho de campo no interior do Tocantins, ouvi um xexéu (Cacicus cela) imitando um falcão-caburé (Micrastur ruficollis).

Essas imitações normalmente são compostas por notas mais curtas, baixas e não tão "fortes" como as dos falcões Micrastur, também são geralmente acompanhadas por outros tipos de cantos, indicando ser uma imitação. Mesmo assim é importante verificar, já que não é incomum aves vocalizando em algazarra na mesma árvore que está pousado um falcão (realizando Mobbing behaviour).


Som de uma gralha-picaça (C. chrysops) imitando o canto de um falcão-relógio (M. semitorquatus).
Gravado por: Rafael Martos Martins, Pirajuí/SP.





Som de um falcão-relógio (M. semitorquatus) cantando.
Gravado por: Sjoerd Mayer.


É muito provável que os xexéus e as gralhas também imitem o canto outras espécies de rapinantes, como o do gavião-bombachinha (Accipiter bicolor) e do acauã (Herpetotheres cachinnans), embora eu não conheça nenhum relato além das imitações de Micrastur. Essas imitações são aprendidas por experiência, dessa forma, o canto emitido por uma ave imitadora é um indicativo das espécies ocorrentes de um determinado local.


Por que imitar o canto dos falcões?
Acredita-se que a imitação do canto de falcões e de outras espécies é uma forma das aves aumentarem seu repertório vocal e se tornarem mais atrativas para seus parceiros. Esse é um atributo importante pois, como o macho leva algum tempo para aprender uma série de chamados de outras espécies, a fêmea que escolhe um macho com repertório maior pode estar simplesmente selecionando uma parceiro mais maduro e experiente, com vantagens para a sobrevivência e a perpetuação da espécie.

Falcão-relógio (M. semitorquatus) cantando no alto de uma árvore. Foto: W. Menq.

Então já sabe, quando ouvir um Micrastur cantando baixo e muito próximo, atente-se! Pode ser outra ave tentando impressionar uma parceira.

20 de julho de 2016

Observando aves de rapina em Rio Claro/SP

A região de Rio Claro/SP é conhecida por apresentar uma elevada riqueza de aves de rapina. Das 99 espécies de rapinantes existentes no Brasil, pelo menos 45 já foram registradas no município e arredores. Apesar da elevada riqueza de rapinantes, encontrar boa parte dessas espécies na natureza não é nada fácil. A maioria são ariscas, inconspícuas, possuem populações pequenas e esparsas, necessitam de áreas de vida relativamente grandes e muitas vezes podem habitar locais de difícil acesso.

Neste ultimo final de semana, dias 16 e 17/07, ministrei em Rio Claro/SP um curso sobre observação e fotografia de aves de rapina diurnas e noturnas. O curso, voltado principalmente aos observadores de aves, abordou as diferentes técnicas de procura e observação de rapinantes (como, quando e onde observar gaviões ou corujas); panorama geral das aves de rapina do Brasil (ecologia e comportamento do grupo, espécies mais raras, desconhecidas, migratórias); os melhores locais para observação de rapinantes no Brasil (detalhes sobre acessos, pontos, espécies que podem ser avistadas, etc.); além de temas bastante discutidos entre os birdwatchers, como o uso adequado do playback em aves (especialmente em rapinantes florestais e corujas).

Na noite de sábado fomos “corujar” na mata do Parque Florestal Edmundo Navarro de Andrade. O ponto alto da corujada foi quando observamos um casal de coruja-listrada (Strix hylophila) copulando. Já na manhã de domingo, fomos observar aves, especialmente rapinantes, na região da serra do Canta Galo em Itirapina/SP. Além dos vários urubus-rei (Sarcoramphus papa) e gaviões avistados, tivemos a oportunidade de encontrar a águia-cinzenta (Urubitinga coronata), espécie ameaçada de extinção no Brasil e extremamente rara na região de Rio Claro. Aparentemente era um indivíduo subadulto, observado de muito longe sobrevoando próximo aos paredões da serra. O domingo encerrou-se com o registro de um casal de jacurutu (Bubo virginianus), simplesmente a maior coruja do Brasil e uma das mais possantes da América.

O curso resultou em mais de 100 espécies de aves avistadas, sendo 17 de aves de rapina, além de muitas amizades e emoções. Agradecimento especial ao Geraldo Panucci, da Birding Brasil, responsável por toda organização e divulgação do curso no município.

Participantes do curso momentos antes da corujada.
Murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) observada na noite de sábado.
Observando corujas no Parque Florestal Edmundo Navarro de Andrade
Pica-pau-do-campo (Colaptes campestris) realizando comportamento de tumulto sobre o falcão-de-coleira (Falco femoralis).
Jacurutu (Bubo virginianus) registrada na tarde de domingo.
Águia-cinzenta (Urubitinga coronata), subadulta, sobrevoando a serra do Canta Galo.
Lista das espécies registradas no domingo:
Lista das espécies registradas no sábado:
http://www.taxeus.com.br/lista/8261

24 de junho de 2016

Gavião-carijó pescador?

Dias atrás deparei-me com esta interessante fotografia do gavião-carijó (Rupornis magnirostris) com um peixe (cachorra, Hydrolycus sp) recém capturado nas garras. O registro foi realizado por Marcelo Aceto no município de Barra do Quaraí/RS. A imagem em si dá a entender que o gavião tenha "pescado" o enorme peixe. Mas.. nem sempre é o que parece.

Acredito que o peixe já estivesse morto e boiando na superfície da água ou agonizando, caso contrário o gavião não teria conseguido capturar o peixe. O gavião-carijó não possui adaptações morfológicas e ecológicas (ex. força, calos espinhosos, táticas de pesca) necessárias para capturar/segurar/matar um "peixão" como esse, que são fortes e bastantes ágeis abaixo d'água.

Segundo o autor da foto, o gavião apenas lançou-se na água e capturou o peixe com as garras, mas devido a distância da cena não foi possível observar muitos detalhes, se o peixe estava boiando morto ou não. Nesses meses de baixas temperaturas, não é raro deparar-se com cachorras e outros peixes boiando ou moribundos próximos a superfície da água, tornando-se presas fáceis para o gavião-carijó e outros rapinantes oportunistas.