12 de setembro de 2016

A redescoberta da harpia no Rio Grande do Sul

Harpia no PE do Turvo, março de 2015.
Foto: DAM.
*Dante Meller
Vários são os aspectos que fazem da harpia uma das águias mais emblemáticas para os amantes da ornitologia. Além do enorme tamanho e da incomparável imponência, sua raridade é um dos atributos de destaque. Atualmente, a espécie já desapareceu de grande parte das florestas tropicais onde antes reinava absoluta no dossel florestal.

No Rio Grande do Sul, apesar de ter sido considerada extinta por longo período, a harpia recentemente decidiu se revelar...

A verdade é que hoje em dia para se ver uma harpia o melhor é ir para a Amazônia mesmo. Na Mata Atlântica, infelizmente, sobraram pouquíssimas, com a maior parte dos registros provenientes do Espírito Santo e Bahia. Ao sul, ela tem sido encontrada mais frequentemente em Misiones (Argentina). No Rio Grande do Sul chegou a ser considerada extinta por muito tempo, já que não haviam mais registros após a década de 40. Apesar disso, suspeitas e registros não confirmados para o Parque Estadual do Turvo traziam esperanças de que ainda estivesse presente.

Harpia abatida na localidade de Desimigrados, em Derrubadas, no entorno do PE do Turvo, nos anos 70. Foto generosamente cedida por Aldori Biguelini. Fonte: Meller e Guadagnin 2016.

Além de um registro antigo (foto acima), existem três observações atuais, sendo duas delas documentadas. Uma delas foi feita peloo guarda-parque argentino V. Matuchaka, que visualizou uma harpia pousada à beira do Salto do Yucumã, no lado brasileiro do rio, em 2011. Mais recentemente, dois registros documentados definitivamente comprovaram a presença da águia no território gaúcho, ambos feitos ao longo da estrada que leva ao Salto do Yucumã, um em 2015 e outro em 2016.

Registro de harpia no PE do Turvo, em junho de 2016, na companhia de Ataiz C. de Siqueira. Foto: DAM.

Apesar da continuidade de matas entre o PE do Turvo e as florestas de Misiones, que é o que provavelmente assegura a ocorrência da águia no lado gaúcho, o Turvo oferece boas condições para a harpia, com árvores emergentes em bons números e presas em quantia. As maiores ameaças certamente provêm do isolamento em relação às florestas de Misiones, em vista do alagamento projetado pela construção da UHE Panambi, em Alecrim. Também a caça e a perseguição a predadores oferecem riscos à harpia, o que pode ser prevenido através de programas de educação no entorno do parque.

Quer saber mais sobre a redescoberta da harpia no Rio Grande do Sul?
Acesse a publicação científica:

LEIA MAIS ›››

22 de agosto de 2016

Aves que imitam o canto de falcões

Ouviu um falcão-relógio (Micrastur semitorquatus) ou falcão-caburé (Micrastur ruficollis) cantando? Atente-se, pode ser outra ave imitando-os!
Gralha-picaça (C. chrysops), famosa imitadora do canto do falcão-relógio (M. semitorquatus). © W. Menq.
*por: Willian Menq
A imitação de cantos de espécies alheiras é comum entre as aves brasileiras, especialmente nos emberezídeos, icterídeos, turdídeos, mimídeos, corvídeos, pscitacídeos, cuculídeos e ranfastídeos. No caso dos icterídeos e corvídeos, as imitações podem incluir o canto de alguns rapinantes florestais, especialmente os do gênero Micrastur.

No interior do Paraná, já ouvi inúmeras vezes gralhas-picaça (Cyanocorax chrysops) imitando o canto de falcão-relógio (Micrastur semitorquatus). Parece que esta gralha é a mais conhecida por imitar o falcão-relógio, e suas imitações costumam ser muito boas. Confesso que na primeira vez que ouvi gralhas-picaça imitando M. semitorquatus, logo no início de minha carreira ornitológica (por volta de 2007), fui "enganado"! Lembro-me que empolgado e na intenção de observar o falcão de perto, caminhei cuidadosamente até a árvore de onde vinha o som, e para minha surpresa (e infelicidade) só haviam gralhas, que saíram todas voando. Em um caso mais recente, durante um trabalho de campo no interior do Tocantins, ouvi um xexéu (Cacicus cela) imitando um falcão-caburé (Micrastur ruficollis).

Essas imitações normalmente são compostas por notas mais curtas, baixas e não tão "fortes" como as dos falcões Micrastur, também são geralmente acompanhadas por outros tipos de cantos, indicando ser uma imitação. Mesmo assim é importante verificar, já que não é incomum aves vocalizando em algazarra na mesma árvore que está pousado um falcão (realizando Mobbing behaviour).


Som de uma gralha-picaça (C. chrysops) imitando o canto de um falcão-relógio (M. semitorquatus).
Gravado por: Rafael Martos Martins, Pirajuí/SP.



Som de um falcão-relógio (M. semitorquatus) cantando.
Gravado por: Sjoerd Mayer.


É muito provável que os xexéus e as gralhas também imitem o canto outras espécies de rapinantes, como o do gavião-bombachinha (Accipiter bicolor) e do acauã (Herpetotheres cachinnans), embora eu não conheça nenhum relato além das imitações de Micrastur. Essas imitações são aprendidas por experiência, dessa forma, o canto emitido por uma ave imitadora é um indicativo das espécies ocorrentes de um determinado local.

Por que imitar o canto dos falcões?
Acredita-se que a imitação do canto de falcões e de outras espécies é uma forma das aves aumentarem seu repertório vocal e se tornarem mais atrativas para seus parceiros. Esse é um atributo importante pois, como o macho leva algum tempo para aprender uma série de chamados de outras espécies, a fêmea que escolhe um macho com repertório maior pode estar simplesmente selecionando uma parceiro mais maduro e experiente, com vantagens para a sobrevivência e a perpetuação da espécie.

Falcão-relógio (M. semitorquatus) cantando no alto de uma árvore. Foto: W. Menq.

Então já sabe, quando ouvir um Micrastur cantando baixo e muito próximo, atente-se! Pode ser outra ave tentando impressionar uma parceira.
LEIA MAIS ›››

20 de julho de 2016

Observando aves de rapina em Rio Claro/SP

*por Willian Menq.
 A região de Rio Claro/SP é conhecida por apresentar uma elevada riqueza de aves de rapina. Das 99 espécies de rapinantes existentes no Brasil, pelo menos 45 já foram registradas no município e arredores. Apesar da elevada riqueza de rapinantes, encontrar boa parte dessas espécies na natureza não é nada fácil. A maioria são ariscas, inconspícuas, possuem populações pequenas e esparsas, necessitam de áreas de vida relativamente grandes e muitas vezes podem habitar locais de difícil acesso.

Neste ultimo final de semana, dias 16 e 17/07, ministrei em Rio Claro/SP um curso sobre observação e fotografia de aves de rapina diurnas e noturnas. O curso, voltado principalmente aos observadores de aves, abordou as diferentes técnicas de procura e observação de rapinantes (como, quando e onde observar gaviões ou corujas); panorama geral das aves de rapina do Brasil (ecologia e comportamento do grupo, espécies mais raras, desconhecidas, migratórias); os melhores locais para observação de rapinantes no Brasil (detalhes sobre acessos, pontos, espécies que podem ser avistadas, etc.); além de temas bastante discutidos entre os birdwatchers, como o uso adequado do playback em aves (especialmente em rapinantes florestais e corujas).

Na noite de sábado fomos “corujar” na mata do Parque Florestal Edmundo Navarro de Andrade. O ponto alto da corujada foi quando observamos um casal de coruja-listrada (Strix hylophila) copulando. Já na manhã de domingo, fomos observar aves, especialmente rapinantes, na região da serra do Canta Galo em Itirapina/SP. Além dos vários urubus-rei (Sarcoramphus papa) e gaviões avistados, tivemos a oportunidade de encontrar a águia-cinzenta (Urubitinga coronata), espécie ameaçada de extinção no Brasil e extremamente rara na região de Rio Claro. Aparentemente era um indivíduo subadulto, observado de muito longe sobrevoando próximo aos paredões da serra. O domingo encerrou-se com o registro de um casal de jacurutu (Bubo virginianus), simplesmente a maior coruja do Brasil e uma das mais possantes da América.

O curso resultou em mais de 100 espécies de aves avistadas, sendo 17 de aves de rapina, além de muitas amizades e emoções. Agradecimento especial ao Geraldo Panucci, da Birding Brasil, responsável por toda organização e divulgação do curso no município.

Participantes do curso momentos antes da corujada.
Murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) observada na noite de sábado.
Observando corujas no Parque Florestal Edmundo Navarro de Andrade
Pica-pau-do-campo (Colaptes campestris) realizando comportamento de tumulto sobre o falcão-de-coleira (Falco femoralis).
Jacurutu (Bubo virginianus) registrada na tarde de domingo.
Águia-cinzenta (Urubitinga coronata), subadulta, sobrevoando a serra do Canta Galo.
Lista das espécies registradas no domingo:
Lista das espécies registradas no sábado:
http://www.taxeus.com.br/lista/8261

LEIA MAIS ›››

24 de junho de 2016

Gavião-carijó pescador?

Dias atrás deparei-me com esta interessante fotografia do gavião-carijó (Rupornis magnirostris) com um peixe (cachorra, Hydrolycus sp) recém capturado nas garras. O registro foi realizado por Marcelo Aceto no município de Barra do Quaraí/RS. A imagem em si dá a entender que o gavião tenha "pescado" o enorme peixe. Mas.. nem sempre é o que parece.

Acredito que o peixe já estivesse morto e boiando na superfície da água ou agonizando, caso contrário o gavião não teria conseguido capturar o peixe. O gavião-carijó não possui adaptações morfológicas e ecológicas (ex. força, calos espinhosos, táticas de pesca) necessárias para capturar/segurar/matar um "peixão" como esse, que são fortes e bastantes ágeis abaixo d'água.

Segundo o autor da foto, o gavião apenas lançou-se na água e capturou o peixe com as garras, mas devido a distância da cena não foi possível observar muitos detalhes, se o peixe estava boiando morto ou não. Nesses meses de baixas temperaturas, não é raro deparar-se com cachorras e outros peixes boiando ou moribundos próximos a superfície da água, tornando-se presas fáceis para o gavião-carijó e outros rapinantes oportunistas.
LEIA MAIS ›››

8 de junho de 2016

Aves carnívoras são aves de rapina?

Aves alimentando-se de carne; Martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona), gaviãozinho (Gampsonyx swainsonii) e garça-vaqueira (Bubulcus ibis). Fotos: Willian Menq. 

Pode até parecer uma pergunta boba, mas não é. Já ouvi e li em muitos fóruns de discussão, questões como esta. É fato que a definição de "aves de rapina" ainda é obscura e confusa para muitos leigos.

Mas a resposta é não! As garças são aves carnívoras, os corvos são carnívoros, e isso não os tornam aves de rapina. As aves de rapina, ou rapinantes (como também são chamadas), não são apenas aves carnívoras. Elas são definidas por uma série de características morfológicas que nenhuma uma outra ave possui. São adaptações voltadas a predação e/ou alimentação de carne, como bico curvo e afiado, garras fortes, voo poderoso, além de uma excelente audição e visão (em geral binocular).

O termo “rapina” tem sua origem no latim que significa “raptar” (aquele que pega e leva consigo), referindo-se simplesmente à forma de obtenção do alimento de algumas espécies. A maioria das aves de rapina usam as garras para matar e carregar suas presas, enquanto que outras, como os falcões, usam um rebordo na parte superior do bico para seccionar a medula espinhal de suas vítimas. Há também rapinantes que não são predadores, como é o caso dos urubus e dos abutres, sendo adaptados ao consumido de animais mortos.

Apesar da maioria das aves de rapina serem carnívoras – consumindo répteis, roedores, aves, invertebrados e pequenos mamíferos – algumas outras, como o gralhão (Ibycter americanus), são onívoras, consumindo frutos e coquinhos para complementar sua dieta.

Em resumo, as aves de rapina são representadas por todas as espécies das ordens Accipitriformes (águias e gaviões), Falconiformes (falcões e caracarás), Cathartiformes (urubus e condores) e Strigiformes (corujas). Essas ordens, apesar das várias características morfológicas em comum, não são aparentadas filogeneticamente. As semelhanças entre elas não passam de um fenômeno chamado ‘convergência evolutiva’. Em outras palavras, aves que possuem hábitos muito semelhantes e muito específicos evoluem de forma a tornarem-se muito parecidas, não só em termos morfológicos, mas também comportamentais.

Características básicas de uma ave de rapina: visão binocular, bico curvo e afiado, garras fortes e poderosas. Na foto acima, uma harpia (Harpia harpyja). © Willian Menq.


Mais sobre a definição e características das aves de rapina:

LEIA MAIS ›››

30 de maio de 2016

Os rapinantes a serem (re)descobertos no Brasil

Ilustração da Glaudicium mooreorum, considerada extinta na natureza. By: Carl Christian Tofte. 
Semana passada, no Avistar Brasil, fomos apresentados a uma das notícias ornitológicas mais fantásticas dos últimos tempos, a redescoberta da rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), desaparecida há 75 anos, considerada extinta pelos pesquisadores. A raríssima ave foi registrada pelo ornitólogo Rafael Bessa, durante uma expedição no interior de Minas Gerais. Notícias assim são incríveis, emocionantes e renovam nossas esperanças.

Aproveitando o tema, e nas aves de rapina do Brasil? Existem espécies que poderiam ser redescobertas?

Existem! Especialmente se pensarmos em níveis regionais/biomas. Na Mata Atlântica, por exemplo, há alguns rapinantes desaparecidos por décadas, como o gralhão (Ibycter americanus), que não é visto desde a década de 20; ou o tanatau (Micrastur mirandollei), também desaparecido da Mata Atlântica por décadas, conhecido por dois registros antigos nas matas de baixada do sul da Bahia e norte do Espírito Santo.

A subespécie extinta do gralhão (I. a. pelzelni) originalmente ocorria desde a Bahia até São Paulo e Paraná, associada sempre a matas próximas de rios, clareiras e bordas de matas bem conservadas. É um bicho escandaloso, vocaliza bastante e costuma viver em pequenos grupos, o que teoricamente o torna mais detectável. Já o M. mirandollei, ao contrário do I. americanus, é discreto e de difícil observação, podendo ser subamostrado, sendo um forte candidato a ser redescoberto na Mata Atlântica. Há três anos atrás, o falcão-críptico (Micrastur mintoni), estava em uma situação muito parecida com a do M. mirandollei, sem registros no bioma por quase 35 anos, até que foi redescoberto por José E. Simon e Gustavo Magnago (2013) no norte do Espírito Santo.

Dos rapinantes possivelmente extintos, o caso mais emblemático é o do caburé-do-pernambuco (Glaucidium mooreorum), descrito em 2002, e recentemente declarado extinto da natureza. Essa simpática corujinha é endêmica da Mata Atlântica do Pernambuco, conhecida apenas por dois registros: um da década de 90, obtido na Reserva Biológica Saltinho/PE, unidade de conservação de 565 ha; e outro de 2001, realizado na Usina Trapiche, em Sirinhaém/PE, um remanescente florestal de aproximadamente 100 ha. Desde então nunca mais foi registrada, várias expedições foram realizadas nos fragmentos da região na tentativa de reencontrá-la, mas nenhuma com êxito. Relatos não confirmados dizem que a G. mooreorum possuía atividade vocal mais frequente na estação chuvosa, entre abril e maio. Com base na ausência de registros dos últimos anos, e das diversas expedições ornitológicas na região, Pereira et al. (2014) consideraram a espécie como possivelmente extinta da natureza. Depois da notícia da rolinha, ainda tenho esperança de uma possível redescoberta da caburé-do-pernambuco, o que seria simplesmente fantástico! Foram inúmeras as vezes que toquei playback em áreas com grande ocorrência de G. brasilianum ou G. minutissimum e não obtive retorno; também não pode se destacar a possibilidade da espécie ocorrer em outros fragmentos da região nordeste.

Dentre as possíveis “descobertas”, há vários mistérios envolvendo rapinantes para serem elucidados, como a possibilidade de realizar o primeiro registro documentado de gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus) em terras tupiniquins, ou de recolocar o falcãozinho-cinza (Spiziapteryx circumcincta) na lista de espécies do Brasil. Este último, devido a um avistamento feito por um grupo de observadores em Herval/RS, em 1998, foi adicionado à lista de aves com ocorrência no país. Mas após questionamentos de especialistas sobre a confiabilidade do registro, o S. circumcincta foi retirado da lista do CBRO em 2014. Apesar disso, a possibilidade de registrar o S. circumcincta no Brasil é grande, áreas do extremo sul do Rio do Grande do Sul ou no chaco sul-mato-grossense por exemplo, são regiões bem propícias, já que há registros muito próximos dessas áreas.

Outras possibilidades é a de registrar alguns rapinantes errantes no Brasil, sem registros recentes e sem fotos no país, como é o caso do condor-dos-andes (Vultur gryphus). A menção de V. gryphus no Brasil foi feita pelo ornitólogo Helmut Sick em 1979, relatando a existência de registros na “Ilha dos urubus”, no Rio Jauru, oeste do Mato Grosso. Há também um registro da década de 20 de um indivíduo abatido por militares da 5º Companhia de Fronteira nos arredores do Parque de Sete Quedas, em Guaíra/PR (Straube et al. 1991). Na tentativa de reencontrá-lo, algumas expedições ornitológicas foram realizadas no oeste do Mato Grosso, mas todas sem êxito. Sick (1997) diz que as aparições de condores no oeste do Mato Grosso, de 1979, ocorreram devido a migrações sazonais da espécie (a partir de sua distribuição para o oeste), dessa forma ocasionalmente aparecendo em território brasileiro, sendo portanto, uma das regiões com possíveis para o avistamento da espécie.

Há também a possibilidade de descobrir novas espécies para o Brasil, como o Spizaetus isidori, Harpyhaliaetus solitarius, Strix chacoensis, Circus cyaneus e outros rapinantes que possuem distribuição/registros em áreas muito próximas da fronteira com o Brasil, que apesar de várias limitações ecológicas e fitogeográficas, seriam possíveis de acontecer. A águia-solitária (Harpyhaliaetus solitarius), por exemplo, em alguns pontos de sua distribuição, conta com registros no Peru a cerca de 200 km da fronteira do Acre, que para um rapinante desses não é quase nada. Já pensou que legal seria uma notícia dessas? Não seria nada impossível! Quem sabe, um dia..

Buteogallus anthracinus, sem registros documentados no país. Foto: Danilo Mota. 

Ibycter americanus, extinto da Mata Atlântica. Foto: Wanieulli Pascoal

Spiziapteryx circumcincta, espécie que pode ser recolocada na lista de aves do Brasil. Foto: Fabrice Schmitt.

Artigos relacionados:
Redescoberta do Micrastur mintoni na Mata Atlântica:
Simon & Magnago (2013) - Link do artigo

Sobre a Glaucidium mooreorum e outras duas aves declaradas extintas:
Pereira et al. 2014 - Link do artigo

Visão geral das aves de rapina da Mata Atlântica:
Menq (2016) - Link do artigo
LEIA MAIS ›››

19 de maio de 2016

O raríssimo gavião-de-rabo-branco “morfo ruivo”

Raríssimo gavião-de-rabo-branco "morfo ruivo", Caraguatatuba/SP. Foto: Willian Menq

Há plumagens tão raras que nem nos guias de campo são encontradas. Esse é o caso da chamada plumagem “morfo ruiva” do gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus). Ao contrario da tradicional forma escura, nesta os indivíduos têm o peito, o abdômen e os calções marrom-ruivo contrastando com a cabeça e costas cinza-escuras.

Essa variação de plumagem provavelmente é ocasionada pelo excesso de alguns pigmentos, como a eumelanina ou pheomelanina, que dão tonalidades marrom ou ruiva na plumagem dos rapinantes.

Conheço apenas uma meia dúzia de registros da espécie com essa variação. Creio que os “morfo ruivos” sejam subamostrados, já que de longe (voando alto) se parecem com o típico morfo escuro. Eu por exemplo, quase deixei de registrar esse morfo-ruivo da foto acima. Durante meus trabalhos de campo no interior de São Paulo, encontrei ele e outro indivíduo (forma clara) pousados no galho seco de uma árvore, muito longe de mim. Na distância que eu estava não dava para notar a olho nu o padrão marrom-ruivo do peito, somente com o binóculo notei que era um indivíduo de plumagem diferente. Na sequência, o casal alçou voo, planaram por cima de mim (quando tirei as fotos), e assim que os indivíduos atingiram uma altura razoável, era praticamente impossível de notar o marrom-ruivo do indivíduo escuro. Depois dessa experiência, fiquei mais atento com esses gaviões melânicos.

Outra foto interessante de um "morfo ruivo" pousado:


Voando alto, é muito dificil notar o padrão "ruivo" no peito do gavião. Caraguatatuba/SP. Foto: Willian Menq




LEIA MAIS ›››

15 de maio de 2016

Urubus são aves de rapina?

Discussão diverge opiniões entre os pesquisadores. Como sabemos, o termo "aves de rapina" agrupa aves de várias famílias de linhagens evolutivas distintas, que compartilham determinadas características e adaptações para a caça ativa, como o bico curvo e afiado, garras fortes, voo poderoso, além de uma excelente visão e audição. Justamente por não serem caçadores e não apresentarem algumas dessas características (bicos e garras fortes), alguns autores simplesmente não consideram os urubus no grupo das rapinas. 

A classificação científica dos urubus também é motivo de discussão entre os especialistas. Eles já foram colocados como parentes dos falcões gaviões, em uma família dentro da ordem Falconiformes e também já foram classificados como cegonhas mais especializadas, junto à ordem Ciconiiformes. No entanto, análises mais recentes baseadas no compartilhamento de genes e características morfológicas entre as espécies indicam que os urubus formam um grupo singular, com ordem à parte (Cathartiformes), cujos parentes mais próximos seriam as águias e os gaviões (Accipitriformes) (ver Hackett et al. 2008). 

De fato, os urubus não possuem todas as características do grupo. Suas garras não funcionam como ferramentas para segurar e matar suas presas, como nos accipitrídeos. Alguns até caçam (ou tentam caçar) ocasionalmente (postagem do tema aqui). O bico também não é muito forte e afiado, a maioria das espécies tem muita dificuldade em abrir ou rasgar carcaças, usando orifícios dos cadáveres ou partes já abertas para retirada de pedaços e vísceras. Por outro lado, os urubus possuem várias outras características de aves de rapina, possuem uma excelente visão (enxergando carcaças em solo a grandes distâncias), ótima audição, boa capacidade de voo (planam alto, aproveitando térmicas, por vezes compartilhando com gaviões e águias), além de possuir muitas evidências genéticas que os colocam como ordem irmã dos gaviões e das águias. Todas essas características morfológicas, ecológicas, além das evidências genéticas, caracterizam os urubus como aves de rapina. 

Dizer que uma espécie precisa ser uma caçadora ativa para pertencer ao grupo dos rapinantes é extremamente errado. Nem todas as aves de rapina caçam, vejam os abutres do Velho Mundo por exemplo, que são autênticas aves de rapina (na mesma família das águias), especializadas no consumo de animais mortos. Até predadoras autênticas, como a águia-cinzenta (Urubitinga coronata), pode ocasionalmente consumir cadáveres. Alguns rapinantes também são bastante generalistas, como o caracará (Caracara plancus), que aproveita de todas as fontes possíveis, desde frutos, invertebrados até cadáveres de animais atropelados. 

Além disso, é importante mencionar que a maioria dos especialistas em rapinantes do Brasil e do mundo consideram os urubus aves de rapina. Instituições de referência com a famosa Peregrine Fund, ou a Raptor Research Foundation (responsável pelo respeitado período científico “Journal Raptor Research”) incluem os urubus nas aves de rapina. 

Publicações e livros como o Raptor of the World (2001), dos autores Ferguson-Lees & Christie (uma das maiores referências sobre aves de rapina da atualidade), também classificam os urubus como aves de rapina. No Brasil, um grupo de especialistas convidados pelo ICMBio também incluíram os urubus no plano de ação para conservação das aves de rapina, elaborado em 2008.

Por fim, também considero os urubus como aves de rapina, independentemente de qual ordem ou família estiverem classificados. Acho muito positivo colocar os urubus no grupo, dessa forma eles são inclusos em estudos específicos, levantamentos e planos de ações específicos, contribuindo com a biologia e a conservação desses rapinantes necrófagos.

Para alguns autores só há um rapinante na foto, já para mim e para a a maioria dos especialistas do grupo, há dois: o gavião-caboclo (H. meridionalis) e os urubus-de-cabeça-amarela (C. burrovianus)

Versão completa deste texto, incluindo as citações, pode ser baixada em PDF no link:
http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/urubus_rapinas.pdf

Quer saber mais sobre os urubus do Brasil? Leia esse artigo
http://www.avesderapinabrasil.com/materias/urubusbrasileiros.htm

Sobre a definição das aves de rapina:
LEIA MAIS ›››