28 de junho de 2017

Águias atacam crianças? Verdade ou mito?

Gavião-real pode capturar uma criança? Vídeo de uma águia capturando um bebê é verdadeiro ou falso? Águia tentou carregar um menino na Austrália?



*por: Willian Menq. 
Frequentemente vejo pessoas compartilhando nas redes sociais um famoso vídeo de uma águia-real capturando um bebê no solo. Também já ouvi pessoas comentando que a harpia Harpia harpyja (também chamada de gavião-real), pode atacar crianças. Inclusive, comunidades ribeirinhas no norte do Brasil acreditam piamente nisso, existindo até “supostos relatos”.

Obviamente, tanto a história da harpia quanto o vídeo são FALSOS!!!

Não existe nenhum relato no Brasil ou no mundo de uma harpia (Harpia harpyja) ou de outra águia em vida livre, capturando ou atacando uma criança com intuito de alimentação. Na verdade, as águias (Accipitridae em geral) são ariscas e preferem manter distância dos seres humanos, muitas vezes possuindo grande aversão a nossa presença.

A maioria das águias capturam presas pequenas, que pesam de 300 g a no máximo 7 kg. E mesmo as espécies que capturam bugios e macacos (de 3 a 7 kg) como a harpia, não representam nenhum risco ao ser humano, sendo pouco provável um ataque contra crianças. Essas aves sabidamente identificam a nossa espécie como ameaça e não como alimento.

As únicas situações que deixam as aves de rapina agressivas ao ponto de atacar uma pessoa, é quando alguém se aproxima/manipula seu ninho ou filhotes. E como bons pais, defendem os filhotes a qualquer custo, podendo executar voos rasantes ou contato direto com as garras no intruso. Adicionalmente, aves em cativeiro sob estresse, também podem se tornar agressivas, assim como todo animal.

Águia tentando capturar menino na Austrália? É verdade?

No ano passado, vários sites de notícias veicularam o caso de uma águia (Aquila audax) que supostamente tentou capturar um menino de 8 anos durante um evento na Austrália. Várias manchetes diziam “águia tenta carregar criança”, “águia gigante quase captura um menino”, e outros títulos sensacionalistas do tipo.

Segundo informações, o caso ocorreu durante uma apresentação de aves de rapina no Alice Springs Desert Park, norte da Austrália. Durante a apresentação, a águia (que era treinada) voou em direção ao menino, grudou no seu casaco e “tentou carregá-lo”. Funcionários do parque acreditam que a ave tenha sido atraída pelos movimentos das mãos do garoto, que tirava e vestia o capuz do casaco repetidamente durante a apresentação. Felizmente, apesar do susto, o garoto sofreu apenas um arranhão.

Manchetes sensacionalistas sobre o "ataque" da águia na Austrália.
Esse caso da Austrália é verídico, porém, houve um exagero e má interpretação do comportamento pela mídia. Dizer que a ave tentou carregar a criança é um completo exagero!!

Para mim, parece óbvio que águia não tentou capturar o menino, ela nem é capaz (morfologicamente e ecologicamente) de executar tal tarefa contra uma criança, por motivos já explicados parágrafos acima. A ave atacou o garoto por outro motivo, talvez tenha associado o movimento das mãos do menino com a disponibilidade de alimento, já que os falcoeiros normalmente alimentam essas aves chamando-as com execução de movimentos das mãos ou com apitos, disponibilizando pedaços de carne na luva.

Outra possibilidade é que a ave tenha tentado pousar na cabeça do garoto (que por vezes pode acontecer durante voos livres de aves de rapina), e com o movimento brusco do menino ela se assustou e abortou a tentativa. Vale lembrar também, que a ave era adestrada, em estado selvagem seria improvável um ataque contra uma criança.

Vídeo de uma águia atacando um bebê no Canadá é FALSO

Quanto ao vídeo da águia atacando um bebê, trata-se de uma montagem, como já esclarecido pelo G1 (link) e por outros veículos de comunicação. O vídeo circula na internet desde 2012, foi uma montagem produzida por estudantes canadenses que lamentavelmente acabaram divulgando uma péssima e falsa imagem das águias e de outras aves de rapina.



Essas falsas histórias acabam prestando um desserviço ao conhecimento e a conservação das aves de rapina. A divulgação de notícias falsas ou mesmo a má divulgação de um caso, pode trazer consequências desastrosas paras os rapinantes. Muitas águias e gaviões encontram-se ameaçados de extinção devido à várias ações humanas, inclusive pela caça indiscriminada. Essas aves são desprezadas ou exterminadas em função do medo, preconceito e da ignorância humana.

23 de junho de 2017

As fases da lua influenciam o nível de atividade das corujas?

As corujas são vocalmente mais ativas nas noites com intensa luminosidade lunar?

*por: Willian Menq. 
Aparentemente sim! Vários especialistas mencionam que diversas espécies de corujas são vocalmente mais ativas em noites de lua cheia ou quase cheia, onde a luminosidade lunar é mais elevada. Na verdade, as corujas têm seu comportamento influenciado pelo aumento da luminosidade noturna e não pelas fases da lua. Se o tempo estiver nublado ou chuvoso, mesmo na lua cheia, a noite será escura e as corujas estarão menos ativas.

König & Weick (2008), autores do livro Owls of the World, citam várias espécies dos gêneros Strix, Pulsatrix, Glaucidium e Bubo, que vocalizam com mais frequência nas noites claras. Essas aves aproveitam a luminosidade lunar para comunicar-se com outros indivíduos ou defender seu território. A bufo-real (Bubo bubo) por exemplo, do Velho Mundo, possuí uma área branca na garganta que só é visível durante as exibições vocais, auxiliando na comunicação social 5. Por isso, a espécie tende a vocalizar com mais frequência nas noites que cercam a lua cheia (noites claras), quando as penas brancas são mais visíveis à distância. Outras espécies do gênero Bubo, incluindo a jacurutu (Bubo virginianus), também possuem a mesma área branca na garganta, talvez pelos mesmos motivos.

Além da comunicação social, algumas espécies aproveitam a iluminação lunar para aumentar as oportunidades de caça, uma vez que acuidade visual dessas aves melhora em comparação às noites escuras, sem uma luz natural. Por outro lado, roedores, marsupiais, morcegos e outros animais noturnos têm grande aversão às noites claras, exibindo a chamada "fobia lunar", tornando-se menos ativos e mais atentos, reduzindo o uso de áreas abertas e restringindo a atividade de forrageio ou a duração do período de atividade. Isso ocorre como uma estratégia anti-predação, já que nas noites sob intensa luminosidade lunar esses animais tornam-se mais vulneráveis à predação por corujas e outros predadores.

Noite clara e de lua cheia no cerrado mato-grossense. Foto: Willian Menq.


Mas nem todas as corujas preferem ou têm suas atividades influenciadas pelas noites claras. Espécies pequenas, como a Aegolius acadicus, do hemisfério norte, são mais ativas em noites escuras 6. Nas noites claras, essas aves evitam cantar ou realizar deslocamentos migratórios, provavelmente por conta do risco de predação por corujas maiores. Já a corujinha-do-mato (Megascops choliba), que é florestal e ocorre em grande parte do Brasil, é mais influenciada pela temperatura e umidade relativa do ar do que pela iluminação da lua, como indicado no estudo de Braga & Motta-Junior (2009). Isso está diretamente relacionado às suas presas, insetos voadores são mais ativos em noites quentes e úmidas.

De maneira geral, a luminosidade lunar parece influenciar mais nas corujas que vivem em ambientes abertos ou que se alimentam de pequenos mamíferos, como é o caso da suindara (Tyto furcata), jacurutu (Bubo virginianus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e mocho-dos-banhados (Asio flammeus).

Vale ressaltar que existem outros fatores importantes que influenciam o nível de atividade das corujas, como o vento, temperatura, precipitação e umidade. Em noites chuvosas ou com ventos fortes, a atividade das corujas diminui devido à dificuldade de voar e forragear - o ruído do vento e a chuva atrapalha a orientação acústica dessas aves. Algumas espécies, como a Aegolius funereus, são sensíveis até à queda da pressão atmosférica 2, que geralmente indica a chegada de uma chuva.

A época do ano e período da noite também influenciam o nível de atividade dessas aves. Como são territorialistas, as atividades vocais e de forrageio se tornam mais frequentes na época reprodutiva, quando estão defendendo territórios e/ou cuidando da prole. A atividade dessas aves também se altera ao longo da noite, nas primeiras horas após o pôr-do-sol e antes do amanhecer, as corujas estão mais ativas (vocalizando ou forrageando).

Em resumo, as corujas são mais ativas em noites claras, sem vento, no período reprodutivo, nas três primeiras horas da noite ou antes do alvorecer. Nesses períodos/condições elas são mais detectáveis, ou seja, estão forrageando ou vocalizando e respondem mais ao “playback”.

Gostou? Leia também:

Literatura relacionada:
1. Braga, A. C. R. & Motta-Junior, J. C. (2009) Weather conditions and moon phase influence on Tropical Screech Owl and Burrowing Owl detection by playback. Ardea, 97 (4): 395-401.

2. Clark, K. & Anderson, S. H. (1997) Temporal, Climatic and lunar factors affecting owl vocalizations of western wyoming. J. Raptor Research, 31 (4): 358-363.

3. Clarke, J. A. (1983) Moonlight's influence on predator/prey interactions between short-eared owls (Asio flammeus) and deermice (Peromyscus maniculatus). Behav Ecol Sociobiol 13:205-209.

4. König, C. & F. Weick. (2008) Owls of the world. Second Edition. Christopher Helm, 528 p.

5. Penteriani, V., Delgado, M. M., Campioni, L. & Lourenço, R. (2010) Moonlight Makes Owls More Chatty. PLoS One, 5(1): e8696.

6. Speicher, J. Schreffler, L. & Speicher, D. (2011) Lunar Influence on the Fall Migration of Northern Saw-whet Owls. The Wilson Journal of Ornithology 123(1):158–160.

Agradecimentos ao colega Geraldo Magela pela sugestão do tema desta postagem.

6 de junho de 2017

Melhor período para observar gaviões-de-penacho na Mata Atlântica

Agora é um dos melhores períodos para procurar os Spizaetus spp. na Mata Atlântica. Na imagem, gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) em voo sobre a floresta. Urubici/SC.
*por: Willian Menq. 
Agora é um dos melhores períodos para observar os gaviões-de-penacho (Spizaetus ornatus, S. tyrannus e S. melanoleucus) em voo na Mata Atlântica. Junho e julho é o período das paradas pré-nupciais dessas espécies, nessa época essas aves estão mais ativas e vocalizam com mais frequência, ou seja, são mais detectáveis.

O gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) por exemplo, bastante raro e discreto, passa boa parte do ano oculto na floresta, dificilmente planando acima da copa das árvores ou vocalizando. Na Mata Atlântica, nos meses de junho e julho a espécie realiza voos acrobáticos de cortejo, mais ou menos ritualizados, voando alto acima da floresta com perseguições e mergulhos no céu, por vezes se tocando no ar.

Portanto, junho/julho é um dos melhores períodos para ir a campo procurar o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) e as outras espécies do gênero Spizaetus. Regiões como a de Urubici e Urupema em SC, Morretes/PR, Iporanga/SP, Santa Teresa/ES, São Desidério/BA e outros lugares da Mata Atlântica que ainda contam com alguns remanescentes florestais preservados, são propícios a observação dos Spizaetus.

Durante um trabalho de campo no entorno do Parque Estadual da Serra do Mar, em Caraguatatuba/SP, semana passada, pude registrar em um mesmo dia e na mesma localidade, casais das três espécies de Spizaetus. Primeiro, por volta das 10:20, avistei dois gaviões-pato (Spizaetus melanoleucus) voando alto sobre a mata. Depois, por volta das 10:50, registrei um casal de gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) em voos circulares, e minutos após o avistamento dos S. tyrannus, um casal de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) levantou voo na floresta, circulando próximo ao casal de S. tyrannus. O casal de S. ornatus ficou voando  por mais de 20 min sobre a floresta, até que o macho se aproximou da fêmea e desceram na mata. Nos dias seguintes, retornei ao local no mesmo horário, e as três espécies de Spizaetus foram novamente registradas.

Spizaetus spp registrados em ponto fixo na borda de um trecho preservado de floresta, Caraguatatuba/SP. 1. Gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) em voo circular,. 2. Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), 3. gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), 4. casal de S. ornatus em voo de cortejo.
Vale ressaltar que, para observar essas aves é importante estar em um local adequado. O ideal é permanecer em um ponto com um bom campo de visão, como na borda de uma floresta, no alto de uma torre de observação, em uma trilha suspensa, no interior de vales, encostas, e etc. Quanto ao horário, o período entre o final da manhã e início da tarde (entre 9:00 e 12:00 h) são os mais adequados, pois é nesses horários que as correntes de ar ascendentes estão mais favoráveis e essas aves aproveitam para planar e/ou se deslocar pelo seu território.

Exemplo de um local adequado para observação de Spizaetus spp. Área elevada com um bom campo de visão do dossel da floresta. Local: Margem de uma estrada rural, Morretes/PR.
Também é necessário muita atenção a qualquer “pontinho” voando longe ou alto no céu. Espécies como o gavião-pato (S. melanoleucus), costumam voar muito alto, podendo facilmente passar despercebido pelos observadores ou ser confundido com outras espécies comuns.

Mais informações sobre horários de observação e técnicas, recomendo a leitura da postagem deste link.