23 de outubro de 2016

IV Conferência Neotropical de Aves de Rapina

*por Willian Menq.

Semanas atrás, aconteceu entre os dias 10 e 13 de outubro a IV Conferência Neotropical de Aves de Rapina, na cidade de La Fortuna/Costa Rica, organizada pela The Peregrine Fund, Neotropical Raptor Network e pela Fundação Rapaces de Costa Rica.

Trata-se de um importante evento sobre aves de rapina que reuniu pesquisadores de todas as regiões das Américas, onde foram apresentadas suas pesquisas mais recentes, soluções e desafios. O evento também funcionou como um ponto de encontro para troca de ideias, discussões e debates sobre a pesquisa e conservação das aves de rapina neotropicais. Também ocorreu junto a conferência o II Simpósio de corujas neotropicais, para discussão sobre as pesquisas com esse grupo no continente.

Participei do evento acompanhado dos amigos "rapinólogos" Pedro Scherer-Neto e Jonas Kilpp. A conferência iniciou-se com a palestra de Rob Bierregard sobre a migração das águias-pescadoras (Pandion haliaetus) no continente Americano. Bierregard apresentou os diversos desafios e as estratégias que os indivíduos monitorados por rádio-satélite enfrentam a cada jornada para a América do Sul e Central, demonstrando o quão perigosa é a primeira migração de uma jovem águia. 

Esquerda p/direita. Pedro Scherer-Neto, Jonas Kilpp, Diego Quesada, Tomás Rivas, eu (W. Menq), Mario Alberto e Pablo Camacho (a frente).

As sessões científicas contavam com temas variados e muitas bem interessantes, como a apresentação do Alejandro Alarcón sobre a dieta e a vocalização da raríssima corujinha-de-bigode (Xenoglaux loweryi); da Paula Orozco-Valor sobre a fidelidade de ninhos, sucesso reprodutivo e dieta do primeiro ninho de Spizaetus isidori na Argentina; do Tomás Rivas Fuenzalida sobre as aves de rapina do Chile; da Adrián Naveda-Rodríguez sobre o estado de conservação do condor-dos-andes (Vultur gryphus) no Equador; da Karla A. Ubillús sobre o uso de drones para monitoramento de ninhos de harpias (Harpia harpyja) no Panamá; e muitas outras. 

A cidade anfitriã do evento, La Fortuna, é um pequeno paraíso bastante visitado na Costa Rica. Famosa pelo imponente Vulcão Arenal e pela ótima infraestrutura, a cidade é cercada por parques nacionais e áreas verdes preservadas ideais para a observação de aves, especialmente de aves de rapina. Gavião-barrado (Leucopternis princeps), gavião-branco (Pseudastur albicollis), gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), murucututu (Pulsatrix perspicillata), coruja-de-crista (Lophostrix cristata) e coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata), são apenas algumas das aves de rapina avistadas com certa regularidade na região. Além disso, a data em que ocorreu a conferência coincidiu com o pico da migração de outono dos rapinantes do Hemisfério Norte, em que a Costa Rica detém o título de possuir o segundo caminho migratório mais abundante de rapinantes do mundo.

Buteo plagiatus (Gray hawk), adulto. Foto: Willian Menq.

Participamos de alguns passeios guiados nos arredores do Vulcão Arenal, com o objetivo de observar aves de rapina e outros animais da região. No dia 10 de outubro, na companhia do excelente guia local Diego Quesada, fomos observar aves no maravilhoso Sky Adventures Arenal, parque de aventura que possuí uma frondosa floresta interligada ao Parque Nacional do Vulcão Arenal. O parque possui um sistema de pontes suspensas e plataformas elevadas perfeitas para observação de rapinantes florestais planadores. Durante visita ao parque observamos dezenas de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus) e sovis-do-norte (Ictinia mississippiensis) pegando térmica em migração, vimos gavião-cinzento (Buteo plagiatus), gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus), além de um jovem gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), que vocalizava constantemente nas redondezas de um ninho na encosta da mata. De acordo os pesquisadores locais, o S. ornatus é a águia-florestal mais abundante de La Fortuna, só nos dias do evento foram observados 7 indivíduos em lugares diferentes da região, realmente incrível!

Na noite do dia seguinte, realizamos uma corujada em uma conhecida estrada que corta um trecho de floresta nos arredores do Parque do Vulcão Arenal. A expectativa era de encontrar a coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata), uma verdadeira preciosidade da América Central. Então, andando cautelosamente de veículo com lanternas em punho, fomos iluminando as árvores da borda da mata. Através deste método, tivemos a felicidade de observar a coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata),  a murucututu (Pulsatrix perspicillata) e a coruja-de-crista (Lophostrix cristata).

A belíssima Strix nigrolineata (coruja-preto-e-branca), durante corujada nos arredores do Parque do Vulcão Arenal. Foto: Willian Menq.

Nos dias seguintes, em saídas aleatórias pelas áreas verdes da região, encontramos alguns rapinantes bem interessantes, como o caracará-do-norte (Caracara cheriway), gavião-cinzento (Buteo plagiatus) e o gavião-branco (Pseudastur albicollis). O C. cheriway, que ocorre desde os EUA até o norte do Brasil, é praticamente uma cópia do Caracara plancus, diferenciando-se basicamente pelo dorso mais escuro. O Buteo plagiatus, que ocorre do México a Costa Rica, é também muito parecido com o Buteo nitidus (que ocorre no Brasil), sendo a principal diferença o dorso mais escuro e alguns detalhes na coloração das asas, visíveis em voo. Já o Pseudastur albicollis costaricensis (subespécie que ocorre na Costa Rica), chamou nossa atenção por ser muito diferente da subespécie que ocorre no Brasil, este possui o dorso predominantemente branco enquanto que a forma amazônica apresenta o dorso uniformemente negro.

No dia 14 de outubro, após o encerramento do evento, foi a vez de conhecer o Arenal Observatory Lodge, um dos destinos favoritos dos observadores de aves que visitam a região. O lugar possuí áreas de jardins que atraem diversas espécies de beija-flores, saíras e outros passarinhos. Possuí plantações de coníferas que atraem um grande número de aves migratórias, além de trilhas dentro de uma floresta primária. Durante nossa visita observamos mais de 100 espécies de aves, o destaque foi para os mais de 300 indivíduos de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus), mais de 1.000 urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) e algumas dezenas de gaviões-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) planando em uma térmica em migração. No retorno para a cidade encontramos um casal de murucututu (Pulsatrix perspicillata) descansando na borda da mata às margens da estrada. Interessante que a fêmea apresentava um padrão barrado no ventre pouco frequente na espécie.

Casal de murucututu (Pulsatrix perspicillata) (fêmea à direita), descansando na borda da mata às margens da estrada. Foto: W. Menq.

No último dia da nossa estadia na Costa Rica, a convite do amigo Pablo Camacho, fomos a Tárcoles na costa do pacífico procurar pelo gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus). Facilmente encontramos o gavião, que é muito abundante na região costeira do país (tanto no pacífico quanto no atlântico). Também encontramos o gavião-urubu (Buteo albonotatus), cauré (Falco rufigularis) e muitos passarinhos.

Para mim o evento e a viagem ao país foi uma experiência incrível, conferência muito bem organizada. Tive oportunidade de fazer amizades com outros pesquisadores da América do Sul e Central; de constatar o andamento das pesquisas com rapinantes na região neotropical; de conhecer alguns amigos que até então só conhecia via redes sociais, como é o caso do Pablo Camacho (diretor da Fundação Rapaces de Costa Rica) e da Marta Curti (Peregrine Fund); conhecer a rica fauna e flora da Costa; desfrutar de belas paisagens e ótima gastronomia do país; e claro, de observar diversas espécies de rapinantes, incluindo algumas particularidades da América Central, como é o caso da belíssima coruja-preto-e-branca (Strix nigrolineata) e do gavião-branco-costariquenho (Pseudastur albicollis costariquensis), além de ver vários migrantes do hemisfério norte de passagem no país (B. platypterus, B. swainsoni, I. mississippiensis, P. haliaetus, C. aura).

Pura Vida!

Procurando rapinantes na ponte suspensa do Arenal Sky Adventure.

Gavião-branco da Costa Rica (Pseudastur albicollis costaricensis). Foto: W. Menq

Coruja-de-crista (Lophostrix cristata) durante corujada nos arredores do Parque do Vulcão Arenal. Foto: W. Menq

Térmica de migrantes, com milhares de Cathartes aura, centenas de Buteo platypterus e alguns Buteo swainsoni. Foto: W. Menq.

Gavião-caranguejeiro-negro (Buteogallus anthracinus). Apesar de sua aparência lembrar o gavião-preto, seus hábitos se assemelham mais ao do Buteogallus aequinoctialis. Foto: W. Menq.


4 de outubro de 2016

Falcão-tanatau (Micrastur mirandollei) é redescoberto na Mata Atlântica

*por Willian Menq.

Nesta semana a ornitologia brasileira foi presenteada com uma notícia fantástica, a redescoberta do falcão tanatau (Micrastur mirandollei) na Mata Atlântica. O incrível registro foi realizado pelos observadores de aves Wagner Coppede, Susana Coppede e Justiniano Magnago na Reserva Natural Vale, Linhares/ES, em maio deste ano, publicado a poucos dias no Wikiaves. Segundo os autores, a ave foi visualizada cruzando em voo rápido uma pequena estrada próxima da sede da reserva.

Tanatau (Micrastur mirandollei) fotografado em Linhares/ES. Foto de: Wagner Coppede.
O registro fotográfico não deixa dúvidas na identificação, o capuz cinza-escuro, a área amarela nua na face e a íris escura em tons castanho-esverdeado, é suficiente para diferenciá-lo do Harpagus diodon (que possui íris avermelhada) e do Accipiter poliogaster macho (de íris amarela ou laranja).

Trata-se de um registro importantíssimo, o falcão não era registrado a décadas na Mata Atlântica, considerado até extinto do bioma, conhecido por dois registros antigos nas matas de baixada do sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Apesar de também ocorrer na região amazônica e na América Central, pouco se sabe sobre sua biologia, é um verdadeiro “fantasma” das florestas, de comportamento bastante discreto e de difícil observação, normalmente habitando a parte mais alta da floresta.

O local que o falcão foi observado é um “hotspot” para observação de aves, muito visitado por birdwatchers e fotógrafos de aves. O registro demonstra como espécies crípticas e estritamente florestais conseguem passar despercebidas pelos observadores de aves e ornitólogos, podendo passar décadas sem serem detectadas em uma determinada área. Outro exemplo disso é o falcão-críptico (Micrastur mintoni), que estava em uma situação bem parecida com a do M. mirandollei nas florestas capixabas. A ave estava sem registros no bioma a quase 35 anos, até que foi redescoberta por Simon & Magnago (2013) no norte do Espírito Santo. Na Bahia o M. mintoni ficou sem registros por oito décadas, até que foi redescoberto por Magnago (2014) na Reserva da Veracel, em Santa Cruz Cabrália/BA.

A redescoberta do M. mirandollei demonstra também a importância que os observadores de aves e o Wikiaves têm para a ciência, registrando espécies raras e ameaçadas, contribuindo com o conhecimento e a conservação de muitas espécies brasileiras - a chamada ciência-cidadã.

A provável população de M. mirandollei da Mata Atlântica certamente está seriamente ameaçada de extinção, confinada nos poucos remanescentes florestais do Espírito Santo e Bahia, que formam verdadeiras “ilhas de biodiversidade”, refúgios de toda a fauna e flora da região.


Mapa da área de ocorrência do tanatau (Micrastur mirandollei) no Brasil.
Seta vermelha indica a região do registro.

Curiosidade - A região do registro é popularmente chamada de “Amazônia capixaba”, e não é à toa, pois na área ocorre uma série de aves tipicamente amazônicas, dentre elas o falcão-críptico (Micrastur mintoni) e o gavião-ripina (Harpagus bidentatus). De acordo com alguns autores, a ocorrência dessas espécies nesta região sugere que ambos os biomas estiveram interligados no passado.


Link do registro fotográfico publicado no Wikiaves:

Artigo sobre as aves de rapina da Mata Atlântica:

Artigo sobre a redescoberta do falcão-críptico (M. mintoni) na Mata Atlântica: