22 de agosto de 2017

Cor da cera e o humor dos caracarás

Os caracarás são capazes de alterar a cor das partes nuas da face conforme seu estado de “humor”, sendo uma importante ferramenta na emissão de sinais sociais.


*por: Willian Menq. 
Cera é a área nua e carnuda presente na base da maxila das aves, bem desenvolvida em algumas espécies, como nos falcões, gaviões, pombos, corujas, papagaios, entre outros. A coloração, a textura e o formato dessa estrutura varia conforme a espécie. Além de abrigar as narinas, a cera pode ser útil na sinalização da fase reprodutiva ou na diferenciação de macho e fêmea de certas espécies de aves.

Nos caracarás (Caracara plancus e Caracara cheriway) a cor da cera está relacionada ao estado de humor da ave. Quando os caracarás estão em repouso ou relaxados, a cera apresenta-se em cor vermelha ou laranja, alterando-se para o amarelo brilhante quando estão agitados/estressados ou excitados. Porém, a cor da cera dessas aves não pode ser interpretada apenas a estar “relaxada” ou “agitada”, ela também é muito útil na emissão de sinais sociais em interações agonísticas.

Na Flórida/EUA, o pesquisador James F. Dwyer (2014) conduziu um estudo sobre a relação da cor da cera com as interações inter e intraespecíficas dos caracarás-do-norte (C. cheriway). O autor observou que as cores da cera exibidas entre os caracarás de uma interação agonística está relacionada ao papel dos participantes nas interações. Os caracarás agressores (dominantes) exibiam cera de amarelo brilhante, enquanto que os caracarás receptores (submissos) apresentavam cera vermelha.

Isso foi observado tanto em interações entre caracarás, quanto em interações com outras espécies (urubus, Coragyps e Cathartes). Mesmo indivíduos jovens de caracarás, que normalmente possuem ceras em tons rosados, tornavam-se amarelo durante interações agonísticas nas quais eram agressores. O autor observou que os caracarás vencedores (que exibiam a cera amarela durante as disputas de comida), normalmente eram os que se alimentavam da carcaça contestada, enquanto que os perdedores (que exibiam cera laranja) se afastavam do local.

Cor da cera do caracará-do-norte (Caracara cheriway) em distintas situações. A) Indivíduo jovem em repouso, com cera avermelhada; B) Jovem durante comportamento agonístico (head-back display), exibindo cera amarelada; C) Adulto em repouso, exibindo cera avermelhada, D) Adulto em comportamento agonístico (head-back display), exibindo cera amarela. Fotos: James F. Dwyer; adaptado de Dwyer (2014).
Essa relação da cor da cera com o papel dos participantes nas interações agonísticas, faz muito sentido para mim. Todas as vezes que observei caracarás (C. plancus) brigando, o agressor exibia a cera amarelo brilhante, e o que apanhava apresentava (ou passava a apresentar) a cera vermelha, como se estivesse dizendo "por favor, não quero mais brigar".

Caracarás (Caracara plancus) brigando por local de forrageio. A) À esquerda, adulto dominante exibindo a cera amarela agredindo um jovem (exibindo cera rósea). B) Adulto agressor no local contestado, e à direita o jovem submisso afastado exibindo a cera avermelhada.
Os benefícios da sinalização através da coloração da cera são bens discutidos entre os especialistas. Os indivíduos submissos, ao sinalizar sua condição de submissão, acaba facilitando o encerramento da briga, diminuindo assim o risco de uma lesão grave. Já o indivíduo agressor, ao sinalizar sua condição de dominante, intimida as outras aves, diminuindo os custos de tempo e energia, permitindo consumir os recursos defendidos ou redirecionar a agressão para outras aves (Bower 2005, McGregor 2005, Lehner et al. 2011).

E como os caracarás conseguem alterar a cor da cera?
Os caracarás conseguem alterar a cor da cera graças a alta vascularização presente nesta área da face. O sangue flui rapidamente através dos vasos sanguíneos da superfície deixando a cera em tons vermelhos. Quando os caracarás se tornam agitados, o fluxo de sangue na área é interrompido, deixando a cera de cor amarela ou pálida. Interessante que essas mudanças na cor da cera dos caracarás pode ocorrer em poucos segundos.

Vale ressaltar que em muitos outros falconídeos, a cor da cera está relacionada a idade ou ao sexo da ave. Esse é o caso do chimango (Milvago chimango), o macho adulto possuí a cera e os tarsos de cor amarelo brilhante, enquanto que a fêmea e o jovem possuem a cera rósea e os tarsos azulados.

Em alguns falconídeos do gênero Falco, a cor da cera indica apenas a idade da ave. Os jovens do falcão-peregrino (Falco peregrinus) e do falcão-de-peito-laranja (Falco deiroleucus), possuem a cera em tons azulados, enquanto que os adultos possuem a cera amarela. Além disso, nessas aves é comum a cera possuir cores mais brilhantes no período reprodutivo, como resultado da ação de hormônios. Já falcões pequenos, como o quiriquiri (Falco sparverius), a cor da cera é igual entre os sexos e idades, sem nenhuma alteração ao longo da vida.

À esquerda, macho adulto de chimango (Milvago chimango), que possuí cera e tarsos de cor amarelo brilhante; e à direita, fêmea adulta, que apresenta cera rósea e tarsos azulados. Foto: Paulo Fenalti.
Diferenças na cor da cera entre as idades. À esquerda, jovem falcão-peregrino (F. peregrinus) de cera azulada. À direita, adulto do falcão-peregrino (F. peregrinus) de cera amarelo brilhante. Fotos: Willian Menq.


Literatura relacionada:
Dwyer, J. F. (2014) Correlation of Cere Color with Intra- and Interspecific Agonistic Interactions of Crested Caracaras. Journal of Raptor Research 48:240-247.

Negro, J. J., Sarasola, J. H., F. Fariñas, & I. Zorrilla (2006) Function and occurrence of facial flushing in birds. Comparative Biochemistry and Physiology Part A: Molecular & Integrative Physiology 143:78-84.

Sarasola, J.H., Negro, J.J., Bechard, M.J. & A. Lanusse (2011) Not as similar as thought: sexual dichromatism in Chimango caracaras is expressed in the exposed skin but not in the plumage. Journal of Ornithology 152 (2):473-479.


Leia também:
Funções da coloração da plumagem das aves de rapina. Aves de Rapina Brasil.
Disponível em: http://www.avesderapinabrasil.com/arquivos/artigos/ARB4_7.pdf

3 comentários:

  1. Perfeito, como sempre!
    Ainda mais de uma das minhas aves favoritas rsrs

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  2. muito interessante. Já tinha notado essas diferenças e achava que era apenas uma diferenciação entre macho e fêmea, ou mesmo pela idade. Essa questão do dominante e submisso. Muito legal. Obrigado pelas informações.

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