23 de junho de 2017

As fases da lua influenciam o nível de atividade das corujas?

As corujas são vocalmente mais ativas nas noites com intensa luminosidade lunar?


Aparentemente sim! Vários especialistas mencionam que diversas espécies de corujas são vocalmente mais ativas em noites de lua cheia ou quase cheia, onde a luminosidade lunar é mais elevada. Na verdade, as corujas têm seu comportamento influenciado pelo aumento da luminosidade noturna e não pelas fases da lua. Se o tempo estiver nublado ou chuvoso, mesmo na lua cheia, a noite será escura e as corujas estarão menos ativas.

König & Weick (2008), autores do livro Owls of the World, citam várias espécies dos gêneros Strix, Pulsatrix, Glaucidium e Bubo, que vocalizam com mais frequência nas noites claras. Essas aves aproveitam a luminosidade lunar para comunicar-se com outros indivíduos ou defender seu território. A bufo-real (Bubo bubo) por exemplo, do Velho Mundo, possuí uma área branca na garganta que só é visível durante as exibições vocais, auxiliando na comunicação social 5. Por isso, a espécie tende a vocalizar com mais frequência nas noites que cercam a lua cheia (noites claras), quando as penas brancas são mais visíveis à distância. Outras espécies do gênero Bubo, incluindo a jacurutu (Bubo virginianus), também possuem a mesma área branca na garganta, talvez pelos mesmos motivos.

Além da comunicação social, algumas espécies aproveitam a iluminação lunar para aumentar as oportunidades de caça, uma vez que acuidade visual dessas aves melhora em comparação às noites escuras, sem uma luz natural. Por outro lado, roedores, marsupiais, morcegos e outros animais noturnos têm grande aversão às noites claras, exibindo a chamada "fobia lunar", tornando-se menos ativos e mais atentos, reduzindo o uso de áreas abertas e restringindo a atividade de forrageio ou a duração do período de atividade. Isso ocorre como uma estratégia anti-predação, já que nas noites sob intensa luminosidade lunar esses animais tornam-se mais vulneráveis à predação por corujas e outros predadores.

Noite clara e de lua cheia no cerrado mato-grossense. Foto: Willian Menq.


Mas nem todas as corujas preferem ou têm suas atividades influenciadas pelas noites claras. Espécies pequenas, como a Aegolius acadicus, do hemisfério norte, são mais ativas em noites escuras 6. Nas noites claras, essas aves evitam cantar ou realizar deslocamentos migratórios, provavelmente por conta do risco de predação por corujas maiores. Já a corujinha-do-mato (Megascops choliba), que é florestal e ocorre em grande parte do Brasil, é mais influenciada pela temperatura e umidade relativa do ar do que pela iluminação da lua, como indicado no estudo de Braga & Motta-Junior (2009). Isso está diretamente relacionado às suas presas, insetos voadores são mais ativos em noites quentes e úmidas.

De maneira geral, a luminosidade lunar parece influenciar mais nas corujas que vivem em ambientes abertos ou que se alimentam de pequenos mamíferos, como é o caso da suindara (Tyto furcata), jacurutu (Bubo virginianus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e mocho-dos-banhados (Asio flammeus).

Vale ressaltar que existem outros fatores importantes que influenciam o nível de atividade das corujas, como o vento, temperatura, precipitação e umidade. Em noites chuvosas ou com ventos fortes, a atividade das corujas diminui devido à dificuldade de voar e forragear - o ruído do vento e a chuva atrapalha a orientação acústica dessas aves. Algumas espécies, como a Aegolius funereus, são sensíveis até à queda da pressão atmosférica 2, que geralmente indica a chegada de uma chuva.

A época do ano e período da noite também influenciam o nível de atividade dessas aves. Como são territorialistas, as atividades vocais e de forrageio se tornam mais frequentes na época reprodutiva, quando estão defendendo territórios e/ou cuidando da prole. A atividade dessas aves também se altera ao longo da noite, nas primeiras horas após o pôr-do-sol e antes do amanhecer, as corujas estão mais ativas (vocalizando ou forrageando).

Em resumo, as corujas são mais ativas em noites claras, sem vento, no período reprodutivo, nas três primeiras horas da noite ou antes do alvorecer. Nesses períodos/condições elas são mais detectáveis, ou seja, estão forrageando ou vocalizando e respondem mais ao “playback”.

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Literatura relacionada:
1. Braga, A. C. R. & Motta-Junior, J. C. (2009) Weather conditions and moon phase influence on Tropical Screech Owl and Burrowing Owl detection by playback. Ardea, 97 (4): 395-401.

2. Clark, K. & Anderson, S. H. (1997) Temporal, Climatic and lunar factors affecting owl vocalizations of western wyoming. J. Raptor Research, 31 (4): 358-363.

3. Clarke, J. A. (1983) Moonlight's influence on predator/prey interactions between short-eared owls (Asio flammeus) and deermice (Peromyscus maniculatus). Behav Ecol Sociobiol 13:205-209.

4. König, C. & F. Weick. (2008) Owls of the world. Second Edition. Christopher Helm, 528 p.

5. Penteriani, V., Delgado, M. M., Campioni, L. & Lourenço, R. (2010) Moonlight Makes Owls More Chatty. PLoS One, 5(1): e8696.

6. Speicher, J. Schreffler, L. & Speicher, D. (2011) Lunar Influence on the Fall Migration of Northern Saw-whet Owls. The Wilson Journal of Ornithology 123(1):158–160.

Agradecimentos ao colega Geraldo Magela pela sugestão do tema desta postagem.

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