25 de abril de 2017

Observando uma águia-real (Aquila chrysaetos) na natureza


*por: Willian Menq. 
A história que contarei a seguir é o resumo da realização de um sonho de infância, o de observar uma águia-real na natureza.

Para quem não conhece, a águia-real (Aquila chrysaetos) é uma das espécies mais populares e “cobiçadas” entre os apaixonados por aves de rapina. É uma ave que impõe respeito e admiração, frequentemente representada em brasões de reinos antigos, bandeira de países modernos e em documentários de vida selvagem, sendo considerada o protótipo básico de uma águia. Ela não ocorre no Brasil, mas possui uma distribuição bastante extensa ocorrendo em várias regiões montanhosas do hemisfério norte.

Semana passada eu e minha companheira Jessica Nascimento estávamos na Espanha, e um dos grandes objetivos da viagem era o de observar uma águia-real (Aquila chrysaetos) selvagem. A espécie pode ser encontrada em várias regiões do país, especialmente nas áreas montanhosas acima de 500 m do nível do mar. Apesar de imponente é também muito arisca, sendo a maioria dos encontros com indivíduos voando distantes.

No dia 11/04, por volta das 6:00 h da manhã, eu e a Jessica fomos até o município de Aielo de Malfiret, ao sul de Valencia/Espanha, para se encontrar com um amigo espanhol, Francisco Sancho “Paco”, que estava disposto a nos ajudar a ver a águia-real. Paco nos levou até o Parque Natural da Serra da Mariola, unidade de conservação de 17 mil ha onde há ocorrência de diversas espécies de rapinantes e outros animais da fauna ibérica. No parque existem alguns hides (esconderijos para observação de aves) e outras instalações para birdwatching da Fundação Victoria Laporta Carbonell, entidade sem fins lucrativos que atua dentro da UC.

Chegamos no parque por volta das 7:40 h, e com o apoio de um amigo de Paco, fomos até um hide no alto de uma montanha para tentar observar a águia. O local era bem propício para a observação de rapinantes, especialmente da águia-real e do abutre-fouveiro (Gyps fulvus). Embora o avistamento dessas espécies não fosse “garantido”, as chances que tínhamos eram boas. Segundo o pessoal da fundação, um casal de águia-real e um grupo razoável de abutres habitavam aquela região. Para atrair a águia e/ou abutres, colocamos um pernil de cabra a poucos metros à frente do esconderijo. Dessa forma, se alguma dessas aves voar por ali e avistar o pernil, provavelmente vão descer e se alimentar da carcaça. Os abutres são carniceiros, a águia-real por sua vez, eventualmente consome carcaças.

Eu e a Jessica nos posicionamos dentro do hide e ficamos aguardando silenciosamente os rapinantes. Como só havia espaço para duas pessoas, Paco e seu amigo desceram para a sede da fundação.

Permanecemos quase quatro horas na espreita até que por volta das 11:30 os primeiros abutres (Gyps fulvus) apareceram. Foi incrível! Vários abutres começaram a pousar a frente do esconderijo e em poucos segundos a carcaça estava completamente cercada pelos abutres famintos. Pelo menos 30 abutres apareceram no local, pareciam hienas vorazes dilacerando uma carcaça de zebra, em menos de 2 minutos a carcaça foi completamente dizimada.

Abutres-fouveiro (Gyps fulvus)


O tamanho dessas aves é impressionante, a espécie chega a medir até 1 metro de comprimento, 2.7 de envergadura e peso de até 12 kg (maior e mais pesado que a nossa harpia Harpia harpyja). A maioria dos abutres observados possuíam marcações nas asas que servem para os pesquisadores monitorar a dinâmica populacional da espécie.

Durante o alvoroço dos abutres avistamos a silhueta de uma águia circulando a pouca altura o bando, foi quando me dei conta que se tratava da tão sonhada águia-real.

Foi emocionante!! Também foi difícil conter a euforia e a emoção. Após gritar (silenciosamente) e comemorar o aparecimento da águia, rapidamente peguei a câmera e comecei a fotografá-la circulando em torno dos abutres. Após os voos rasantes, a águia-real pousou em um galho seco a poucos metros de nós.

Sensações indescritíveis percorreram meu corpo e minha mente, depois de sonhar tantos anos com este momento, finalmente eu estava diante de uma águia-real selvagem. Desde que me conheço por gente, assistia os documentários de vida selvagem da BBC, National Geographic e alguns do Félix Rodríguez De la Fuente e me encantava com as cenas desta bela e simbólica águia, sonhando em vê-la um dia na natureza.

O indivíduo que avistamos era um macho adulto. Muito provavelmente foi atraído no local pela movimentação dos abutres, circulou e pousou próximo do bando. Mas não se atreveu a disputar um pedaço de carne em meio a tantos abutres. A águia ficou pousada no galho seco por alguns instantes e em seguida alçou voo, subindo em uma térmica, desaparecendo de nossa visão.

Este sonho só foi possível graças ao apoio do amigo Paco, do amigo Pablo Camacho (que me apresentou o Paco e viabilizou a amizade), e a Fundación Victoria Laporta Carbonell pela excelente estrutura e projetos em prol da conservação da natureza.

A seguir, sequência de imagens obtidas neste inesquecível dia.

Águia-real (Aquila chrysaetos) em voo.


Águia-real (Aquila chrysaetos).

Pega-rabuda (Pica pica).
Águia-real (Aquila chrysaetos) em voo alto.

Abutre-fouveiro (Gyps fulvus).
Vídeo dos abutres-fouveiros (Gyps fulvus) se banqueteando à frente do hide.

3 comentários:

  1. Fantástico meu amigo! Parabéns pelo encontro e pelo relato, muito emocionante! Abraço

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  2. Boa ideia, passarei a ofertar uns bifinhos no comedouro de casa... Rsrsrs

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  3. Imagino sua emoção a encontrar essas lindas aves! Belo vídeo e fotos.

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