29 de setembro de 2017

As “nuvens de migrantes” que cruzam a América do Sul em outubro.

Nas próximas semanas, grupos com milhares de rapinantes migratórios oriundos do hemisfério norte vão cruzar a floresta amazônica, especialmente os Estados do Acre e oeste do Amazonas.
Na imagem, milhares de gaviões-de-asa-larga (Buteo platypterus) em uma térmica de migração no México. Foto: Pablo Camacho.
*por: Willian Menq. 
No mês de outubro, grupos com milhares de rapinantes migratórios da América do Norte podem ser avistados cruzando os países da América Central e do Sul. Na Costa Rica, por exemplo, é possível avistar mais de 8 mil indivíduos em pouco menos de três horas, tornando-se verdadeiras “nuvens de migração”. No Brasil, no entanto, são raríssimos os avistamentos das nuvens de migrantes.

Essas nuvens de migração são compostas por uma ou mais espécies que migram em bandos, como o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni), sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) e o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura).

No Brasil, bandos numerosos de gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) e sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) podem ser registrados no Acre, oeste do Amazonas e noroeste de Rondônia, áreas nas quais fazem parte da rota de migração dessas aves.

• Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis)
Os bandos de sovi-do-norte (I. mississipiensis) cruzam a região amazônica (Acre e oeste do Amazonas) entre a primeira e a segunda semana de outubro. Além disso, parte desses bandos têm como destino final o pantanal do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde permanecem de novembro a março. Outra parte da população se instala no Paraguai e norte da Argentina.

Essa espécie é frequentemente confundida com o sovi (Ictinia plumbea), que é mais comum. Porém, o sovi-do-norte é identificado pela ausência de ferrugíneo nas primárias das asas e pela cauda toda negra. Já os jovens de ambas espécies possuem a cauda barrada, distinguindo-se pelo avermelhado das primárias, presente no jovem I. plumbea e ausente no jovem I. mississippiensis.



Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni)
A grande nuvem de migração de B. swainsoni costuma cruzar o Acre e o oeste do Amazonas entre a segunda e a terceira semana de outubro. O destino final dessa espécie é o norte da Argentina, onde permanece de novembro a março. Alguns indivíduos, especialmente jovens, se perdem durante o trajeto migratório e podem ser avistados como vagantes em outras partes do Brasil, especialmente na região sul e sudeste.

O gavião-papa-gafanhoto é altamente polimórfico e muito parecido com outros buteonines residentes do Brasil, diferenciando-se principalmente pela coloração marrom-escuro da cabeça e pescoço contrastado com a garganta clara, e silhueta de asas extensas e levemente pontiagudas. O jovem é predominantemente branco por baixo, com um pouco de estriado escuro nas laterais do pescoço e pintas dispersas no ventre.



• Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus)
Diferente dos outros, o B. platypterus tem como destino final a floresta amazônica, migra em bandos de centenas a milhares de indivíduos e permanece nas áreas de invernagem solitário. Dessa forma, é possível encontrar tanto bandos numerosos em migração quanto indivíduos solitários em seu destino final. Os bandos começam a adentrar o norte do Brasil entre o final de setembro e as primeiras semanas de outubro, onde permanecem até meados de março e abril. Além disso, alguns indivíduos ultrapassam a região amazônica e aparecem como vagantes no sul e sudeste do Brasil.



• Urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura)
As populações de urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) da América do Norte também são migratórias. A partir do final de agosto e início de setembro essa espécie reúne-se em bandos de milhares de indivíduos e migra para a América Central e do Sul, com alguns indivíduos adentrando território brasileiro. Há também populações do extremo sul da América do Sul (Patagônia) que realizam migrações austrais, aparecendo no norte do Brasil e países vizinhos entre os meses de maio e setembro, fugindo do rigoroso inverno da Patagônia. Em resumo, além das populações residentes de C. aura do Brasil, há indivíduos que aparecem no país oriundos do hemisfério norte e outros oriundos do extremo sul do continente.

Urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) migratórios, em "térmica de migração", voando junto a alguns Buteo swainsoni. Costa Rica. Foto: Willian Menq.

Além dessas espécies, há outras três espécies de rapinantes do hemisfério norte que cruzam as Américas rumo ao Brasil e outros países da América do Sul, são elas: o falcão-peregrino (Falco peregrinus), esmerilhão (Falco columbarius) e a águia-pescadora (Pandion haliaetus). Porém, estas últimas não migram em grupos, são solitárias.

Onde essas espécies estão agora?
Atenção observadores de aves do Acre e oeste do Amazonas! Semana passada, bandos de sovi-do-norte (I. mississipiensis) com mais 1 mil indivíduos foram avistados de passagem no noroeste da Colômbia. De acordo com os dados do eBird, desde o dia 14 de setembro, bandos com mais de 2 mil indivíduos estão sendo observados de passagem nos países da América Central. A previsão é que os bandos cruzem o Acre e o oeste do Amazonas nas duas primeiras semanas de outubro. Já o gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) irá cruzar o Acre e o oeste do Amazonas entre a segunda e a terceira semana de outubro. Neste momento, a maioria dos indivíduos de B. swainsoni estão deixando seus sítios reprodutivos na América do Norte. O gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), por sua vez, começou a adentrar o território brasileiro a poucos dias, e milhares estão cruzando a América Central, conforme atesta os dados do eBird.

Mais informações sobre as espécies:
Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) - Link
Gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) - Link
Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) - Link
Falcão-peregrino (Falco peregrinus) - Link
Esmerilhão (Falco columbarius) - Link
Águia-pescadora (Pandion haliaetus) - Link

6 comentários:

  1. Excelente informação.
    Como novata fotógrafa e observadora, esta orientação vai me lembrar de olhar mais pro céu nos horários de voo destas maravilhosas figuras caçadoras.
    Obrigada mesmo!

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    1. Que bom Katia, boa sorte com suas observações.

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  2. muito legal. buteo platypterus, que eh o unico desses q aparece bastante na amazonia central, ja chega aqui em numeros pequenos ou solitario mesmo. acho q a maioria passa pelo caribe e muitos param la mesmo. ja o urubu cathartes aura nunca vi nem ouvi falar da populacao norte americana (ou ate mesmo transandina da america do sul) aparecer no brasil. onde que documenta q esses vem pra ca? adoraria conhecer essas fontes. valeu.

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    1. Oi Mario Cohn-Haft, que bom que gostou!
      Sobre os Cathartes migratórios que adentram o Brasil, alguns artigos recentes que usam monitoramento via satélite, como o de Dogde et al. (2014) têm demonstrado que populações de Cathartes aura da Argentina realizam migrações austrais, com indivíduos aparecendo no centro-oeste, norte e sul do Brasil (veja na Figura 1 do artigo do Dogde et al., link: http://rstb.royalsocietypublishing.org/content/369/1643/20130195). Também há um aplicativo para smartphones, chamado "Animal Tracker", que usa a base de dados do Movebank, onde é possível acompanhar os movimentos diários de várias aves migratórias do mundo, inclusive dos Cathartes. Nele há dois indivíduos da região de Bariloche/Argentina, que migram anualmente para o Brasil (um desloca-se para a região do Espinilho no RS, e outro vai para Rondônia).

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    2. Já os Cathartes aura oriundos da América do Norte (subespécie C. a. meridionalis), é bem verdade que a maioria deslocam-se até a América Central ou no máximo no norte da América do Sul. No entanto, alguns C. a. meridionalis vão até o Brasil e Paraguai, como mencionado na conta da espécie no GRIN (Global Raptor Information Network. 2017. Species account: Turkey Vulture Cathartes aura. Downloaded from http://www.globalraptors.org on 2 Oct. 2017). Na ultima checklist do CBRO (Piacentini et al. 2015) também é mencionado que Wetmore (1964) relata um espécime em Salto Grande, rio Paranapanema, em São Paulo. Espero ter ajudado!

      Abração

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