16 de julho de 2018

Os gaviões-pega-macaco de Campo Grande (MS)

*por: Willian Menq
O gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) é um velho conhecido dos observadores de aves de Campo Grande, MS. Ele é frequentemente avistado nas áreas verdes da cidade, especialmente na região do Parque das Nações Indígenas, Parque do Prosa e nos arredores do campus da UFMS. De aparência inconfundível, vocaliza com frequência durante seus voos circulares pela manhã.


Desde 2010 é conhecida a presença do gavião em Campo Grande. Um dos primeiros observadores a registrar a ave foi o ornitólogo Rudi Laps, que viu um indivíduo sobrevoando o campus da UFMS, em novembro de 2010.

Nos últimos meses comecei a acompanhar os “passos” do gavião-pega-macaco na cidade. Moro a cerca de 600 m do Parque do Prosa/Pq. Nações Indígenas, que é um dos locais com alta frequência de avistamentos da espécie. Inclusive já observei várias vezes o gavião planando alto por cima de casa.

Quantos gaviões-pega-macaco existem em Campo Grande?

Uma das minhas maiores curiosidades é saber quantos indivíduos habitam a área urbana de Campo Grande. Para tentar responder a questão analisei todos os meus registros e as fotografias disponíveis no Wikiaves, incluindo suas respectivas localidades.

Vi que todos os avistamentos do gavião-pega-macaco foram realizados em pelos menos cinco regiões diferentes: (1) Bairro Veraneio, (2) Parques das Nações Indígenas/Prosa, (3) mata ciliar do Córrego Bandeira, (4) Campus UFMS e (5) Buritizal (Figura 1). As distâncias entre os locais são relativamente curtas, indo de 3 a no máximo 10 km.

Figura 1. Mapa de Campo Grande/MS e os principais locais com registros de gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus).
Analisando as fotografias dos observadores, realizadas entre dez/2017 e jul/2018, é possível identificar dois indivíduos adultos diferentes. Um dos indivíduos foi fotografado diversas vezes no Parque das Nações Indígenas e entorno, enquanto o outro foi fotografado uma única vez sobrevoando o bairro Veraneio (Figura 2).

Infelizmente não dá para identificar com segurança os mesmos indivíduos em fotos mais antigas (anteriores a 2017), uma vez que os padrões da plumagem (falhas naturais das penas, quantidade e largura das faixas da asas e cauda) podem se alterar ao longo dos anos, como relatado em um estudo de Perrella et al. (2013).

Apesar disso, com a ajuda de minha esposa Jessica Nascimento e do amigo Fredy Pallinger começamos a analisar todas as fotografias publicadas para a cidade (2010 a 2017). Nesse processo percebemos que além dos 2 indivíduos identificados por mim, parece haver um terceiro indivíduo adulto no município, que faz parte de um casal reprodutor fotografado na mata ciliar do Córrego Bandeira (o outro indivíduo do casal é um dos 2 identificados nas fotos recentes).

Figura 2. Dois indivíduos adultos diferentes identificados nas fotografias do Wikiaves (obtidas entre dez/2017 e jul/2018). O da esquerda fotografado em junho/2018 no Parque das Nações Indígenas, e o da direita no bairro Veraneio em dez/2017. Fotos: Willian Menq.

Considerando que a espécie é registrada em pequenas manchas verdes da cidade, próximas entre si, que raramente ultrapassam 100 ha, considerando também que um casal ocupa, em média, 25 km² de área preservada, acredito que exista um casal reprodutor na área urbana de Campo Grande, além de um provável terceiro indivíduo adulto.

Possivelmente os indivíduos se deslocam entre as áreas verdes da cidade, incluindo fragmentos da periferia. Um indivíduo é mais presente na região do Parque das Nações Indígenas/Prosa, enquanto o outro na região do campus da UFMS. O terceiro indivíduo fotografado uma única vez no bairro Veraneio é uma incógnita, talvez habite mais os fragmentos da periferia norte da cidade.

Mesmo indivíduo fotografado em diferentes épocas no Parque das Nações Indígenas. Foi possível identificá-lo individualmente graças a uma falha em uma das penas primárias da asa direita da ave.

Um fato interessante é que a espécie nidificou várias vezes na cidade. Em 2013 o biólogo Francisco Severo Neto encontrou um ninho ativo na mata ciliar do Córrego Bandeira, com filhote observado nos arredores até o início de 2014.

Além disso, no Wikiaves existem fotos de indivíduos jovens fotografados em quatro diferentes épocas: em maio/2011 no PNI; em junho/2013 na Mata do Córrego Bandeira; em agosto/2015 no PNI; e em setembro/2016 no PNI. Intervalos que correspondem a taxa de reprodução de um casal da espécie.

Esses registros indicam que pelo menos três filhotes diferentes já nasceram na região, mas não significa que esses jovens continuam na cidade. Como ocorre em outros gaviões, quando se tornam independentes os jovens dispersam da área do ninho, procuram seus próprios territórios em outras florestas da região.

Indivíduo fotografado por Michel Machado no Parque das Nações Indígenas, em 30/07/2017.

9 comentários:

  1. Muito interessante Willian! Vamos ficar de olho neles, mais ainda!

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    1. Com certeza meu amigo. Os registros dos observadores de aves são essenciais para contribuir com o conhecimento da espécie na cidade.

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  2. Muito bom William! São muito interessantes e incríveis esses estudos sobre nossas aves! Aos poucos os mistérios vão sendo esclarecidos. O que acho fantástico é o caso do S.tyrannus ser ave florestal e nidificar nas áreas apropriadas dentro de uma cidade grande!

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  3. Excelente análise, Willian! Parabéns!

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  4. Grande WM!
    Excelente investigação.
    Fico feliz de ver um cara tão competente
    estudando as os rapinantes no em CG.
    Grande Abraço.

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  5. Excelente artigo! Em Cuiabá também temos a presença de pelo menos 3 indivíduos em APPs (Próximos ao Shopping Pantanal).

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