11 de março de 2016

Sobre as alterações nos nomes vernáculos da ultima lista do CBRO (2015)

No final de 2015, foi publicada a última lista de aves do Brasil elaborada pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (link). Dentre as novidades, está à alteração de mais de 100 nomes vernáculos técnicos (NVT’s) e a inclusão de novas espécies para o país. De acordo com o núcleo de NVT’s do CBRO, foram listados os nomes que pareciam inadequados ou impróprios pelo comitê. Esse rol foi amplamente discutido pelo grupo e as respectivas opções alternativas foram definidas em regime de votação. O fundamento para a indicação desses nomes partiu de "nomes usados pela população", "por sugestões recebidas por e-mail, listas de discussão”, “grupos em redes sociais”, ou por "indicações colhidas" aqui e ali em obras, narrativas e mesmo de grandes escritores da literatura.

Nas aves de rapina, 13 NVT’s foram alterados, são eles:

  • Coragyps atratus – “urubu-de-cabeça-preta” alterado para “urubu”
  • Leptodon cayanensis – “gavião-de-cabeça-cinza” para “gavião-gato”
  • Leptodon forbesi – “gavião-de-pescoço-branco” para “gavião-gato-do-nordeste”
  • Accipiter superciliosus – “gavião-miudinho” para “tauató-passarinho”
  • Accipiter striatus – “gavião-miúdo” para “tauató-miúdo”
  • Ictinia mississippiensis – “saúveiro-do-norte” para “sovi-do-norte”
  • Buteogallus aequinoctialis – “caranguejeiro” para “gavião-caranguejeiro”
  • Geranoaetus melanoleucus – “águia-chilena” para “águia-serrana”
  • Pseudastur polionotus – “gavião-pombo-grande” para “gavião-pombo”
  • Buteo albonotatus – “gavião-de-rabo-barrado” para “gavião-urubu”
  • Morphnus guianensis – “uiraçu-falso” para “uiraçu”
  • Tyto furcata – “coruja-da-igreja” para “suindara”
  • Ibycter americanus – “gralhão” para “canção”

Não concordei com algumas alterações, achei que algumas foram desnecessárias. Para Leptodon cayanensis, defendo o uso do NVT “gavião-de-cabeça-cinza”. É um nome mais técnico, já bem consolidado no inglês (Grey-headed Kite) e no espanhol (Milano Cabecigrís), e já usado massivamente pelo público que usa NTVs (birdes, ornitólogos, fotógrafos). Já "gavião-gato" é muito regional, pouco conhecido e inadequado para um gavião com distribuição tão ampla no país. Os mesmos motivos se aplicam em Leptodon forbesi, onde o NVT anterior era mais apropriado.

Em Coragyps atratus, generalizar o NVT para apenas “urubu” causa uma certa confusão na identificação da ave, pois deixa em dúvida a qual espécie se trata, visto que este é um termo genérico usado para denominar todas as espécies da família Cathartidae. O mesmo ocorreu com o Pseudastur polionotus que teve seu nome reduzido para “gavião-pombo”, podendo ocasionar confusões com Amadonastur lacernulatus.

Além das aves de rapina, várias alterações nos NVTs de outros grupos causaram discussão e insatisfação entre os pesquisadores (veja aqui e aqui).

Por outro lado, algumas mudanças nos NVTs dos rapinantes foram, em minha opinião, bastante positivas. Usar "águia-serrana" para Geranoaetus melanoleucus é interessante e justificável, já que não há nenhum motivo aparente para sustentar o nome "águia-chilena", como já sugerido e amplamente discutido por Benfica & Carvalho (2011) no artigo "Por que águia-chilena? publicado na edição 159 da revista Atualidades Ornitológicas.

Outra alteração que considero positiva é a retirada de “"falso" do NVT de Morphnus guianensis, termo que desmerecia essa grande e imponente águia florestal. Também concordo que “suindara” seja mais adequado para Tyto furcata, pois além de diferenciar o táxon da família Strigidae (já que ela é Tytonidae), o nome parece ser mais amplamente usado que o anterior.

Só lembrando não é obrigatória a adoção da taxonomia do CBRO entre os pesquisadores. Não é errado, por exemplo, um autor usar a taxonomia adotado pela SACC ou por uma versão antiga do CBRO, desde que haja uma justificativa para tal, o mesmo vale para os NVTs. O livro "Aves da Mata Atlântica do Sudeste" do Robert S. Ridgel, Martha Angel et al., por exemplo, seguiu sua própria taxonomia, baseada na lista antiga do CBRO e no SACC.

Respeito e sei que a equipe do CRBO trabalhou duro para entregar o melhor para nós, sempre se atualizando, porém, a lista anterior apresentava mais NVTs que impediam confusões taxonômicas que a atual, assim como nomes populares mais aceitos pela população. Dessa forma, tanto no site Aves de Rapina Brasil como em minhas publicações, pretendo seguir uma opção pessoal baseada na lista antiga e na recente, veja aqui. Acredito que, seguindo versões diferentes da atual lista, de certo modo demonstra quais questões da ultima lista podem ser discutidas e repensadas na próxima. O CBRO também está aberto ao diálogo e à consideração de sugestões.

Para aqueles que se interessam mais pelo assunto, estão convidados a participar do grupo do Facebook chamado “NEP: nomes em português: aves do Brasil”, onde se têm discutido os NVTs e nomes populares das aves do Brasil.

Um comentário:

  1. Urubu-de-cabeça-preta para apenas urubu fica menos preciso e pode confundir, também não concordo.

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